Poucos torcedores que cantam o hino do Flamengo ou do Fluminense nas arquibancadas sabem que o nome oficial do estádio não é Maracanã. Desde outubro de 1966, a praça esportiva mais famosa do Brasil se chama, no papel, Estádio Jornalista Mário Filho — uma homenagem ao jornalista pernambucano que passou anos defendendo publicamente a construção de um grande estádio no Rio de Janeiro e morreu de ataque cardíaco em 17 de setembro daquele ano, um mês antes de dar nome ao próprio monumento que ajudou a erguer.
Uma obra contra o relógio
A história do Maracanã começa em 2 de agosto de 1948, quando as máquinas entraram no terreno do antigo Derby Club, um hipódromo desativado na zona norte do Rio. O Brasil havia sido escolhido para sediar a Copa do Mundo de 1950, a primeira disputada no país, e precisava de um estádio à altura do evento. O projeto vencedor reuniu sete arquitetos — Waldir Ramos, Raphael Galvão, Miguel Feldman, Oscar Valdetaro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Antônio Dias Carneiro — e a obra avançou em ritmo acelerado, com milhares de operários trabalhando simultaneamente. Ainda inacabado, o estádio foi inaugurado em 16 de junho de 1950 com um amistoso entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo, vencido pelos paulistas por 3 a 1.
O Maracanaço
Um mês depois, em 16 de julho de 1950, o Maracanã foi palco da partida decisiva daquela Copa: o Brasil precisava apenas de um empate contra o Uruguai para ser campeão mundial em casa. Friaça abriu o placar para os brasileiros logo no início do segundo tempo, mas os uruguaios Juan Alberto Schiaffino e Alcides Ghiggia viraram o jogo, selando a vitória por 2 a 1. O número oficial da FIFA registra 173.850 pagantes — recorde de público em uma final de Copa do Mundo até hoje —, enquanto estimativas de público total, somando não pagantes, chegam a quase 200 mil pessoas nas arquibancadas. O resultado ficou conhecido como "Maracanaço" e é tratado até hoje como um dos episódios mais traumáticos da história esportiva brasileira.

O Maracanã lotado às vésperas da Copa do Mundo de 1950
Treze anos depois, em 15 de dezembro de 1963, o estádio bateu outro recorde que jamais poderá ser repetido: 194.603 pessoas presentes, sendo 177.020 pagantes, assistiram ao clássico Flamengo 0 x 0 Fluminense pela decisão do Campeonato Carioca — até hoje considerado o maior público já registrado em uma partida entre clubes de futebol no mundo.
De templo do futebol a palco olímpico
Entre 2010 e 2013, o Maracanã passou por uma reforma completa para a Copa do Mundo de 2014, sob responsabilidade do escritório Fernandes Arquitetos Associados em parceria com a empresa alemã Schlaich Bergermann und Partner, que desenhou a nova cobertura em membrana. O projeto trocou as arquibancadas populares por assentos numerados, reduzindo a capacidade máxima para 78.838 lugares — o preço definitivo da era dos grandes públicos de outrora. Em 2016, o estádio ganhou um novo capítulo ao sediar as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio, em 5 e 21 de agosto, com direção artística de nomes como Fernando Meirelles e Deborah Colker.
Ao longo de mais de sete décadas, o gramado e as arquibancadas do Maracanã viram muito além de futebol:
- Em 19 de novembro de 1969, Pelé marcou seu milésimo gol oficial, de pênalti contra o Vasco, diante de 65.157 torcedores;
- Em 21 de abril de 1990, Paul McCartney reuniu 184 mil pessoas em um único show, recorde mundial do Guinness Book que durou 27 anos;
- Os Rolling Stones se apresentaram no local em duas noites, 2 e 4 de fevereiro de 1995;
- O Papa João Paulo II celebrou missas multitudinárias no estádio em 1980 e 1997.

O Maracanã hoje, após a reforma para a Copa de 2014
Mais que um estádio, o Maracanã se tornou um personagem da história recente do Brasil — testemunha de uma tragédia esportiva que ainda ecoa no imaginário nacional e, ao mesmo tempo, palco de alguns dos maiores momentos de celebração coletiva do país.
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