Por quase quatrocentos anos depois da conquista espanhola, uma das cidades mais impressionantes do império inca nunca esteve, de fato, "perdida". Famílias de agricultores quéchuas cultivavam havia gerações as antigas terraças de pedra empoleiradas entre duas montanhas dos Andes peruanos. O que faltava era o resto do mundo saber que aquilo existia — e foi um professor de Yale, em 24 de julho de 1911, quem transformou esse segredo local em uma das maiores sensações arqueológicas do século 20.
Um guia, dois fazendeiros e um menino descalço
Hiram Bingham III não era arqueólogo de formação: era professor assistente de história latino-americana em Yale e vinha ao Peru em busca de outra cidade perdida, Vilcabamba, o último refúgio dos incas contra os espanhóis. Sua Yale Peruvian Expedition, financiada pela própria universidade e pela National Geographic Society, avançava pelo vale do rio Urubamba quando Bingham conheceu Melchor Arteaga, um agricultor quéchua que morava na região havia toda a vida e vendia mantimentos a viajantes.
Arteaga sabia exatamente do que Bingham falava. Cansado da subida, repassou a tarefa de guiá-lo a dois moradores que já cultivavam as terraças no alto do morro havia anos: Toribio Richarte e Anacleto Álvarez. Foram eles, por sua vez, que confiaram a missão final a Pablito, filho de Richarte, um menino descalço de cerca de oito anos, que caminhou na frente de Bingham até os muros de pedra encobertos pela vegetação. A "descoberta científica" que entraria para os livros, portanto, começou como um favor entre vizinhos.

Hiram Bingham durante uma das expedições de escavação em Machu Picchu, por volta de 1912.
De achado obscuro a fenômeno mundial
Bingham entendeu rapidamente o valor do que tinha diante dos olhos. Voltou ao Peru com apoio de Yale e da National Geographic Society em 1912, 1914 e 1915 para mapear, fotografar e escavar o sítio. Em abril de 1913, a revista da National Geographic Society dedicou uma edição inteira a Machu Picchu, estampando cerca de 244 fotografias da expedição — um feito editorial inédito até então para a publicação e que projetou o nome de Bingham (e o de Machu Picchu) para o mundo.
O preço dessa fama, porém, recaiu sobre o próprio sítio. Durante as escavações, milhares de peças — cerâmicas, ossos humanos, restos de animais e objetos rituais — foram catalogadas e embarcadas para os Estados Unidos, com autorização do governo peruano da época, mas sob a promessa de que seriam devolvidas depois de estudadas. A promessa demorou quase um século para ser cumprida.
A dívida que levou cem anos para ser paga
Ao longo do século 20, o acervo retirado de Machu Picchu ficou guardado no Museu Peabody de História Natural, em Yale, alimentando um dos litígios culturais mais longos entre um país latino-americano e uma universidade norte-americana. O Peru reivindicava a posse; Yale alegava ter cumprido os termos originais da autorização. A disputa só começou a se resolver em novembro de 2010, quando as duas partes fecharam um acordo histórico para a devolução integral do material.
- Dezembro de 2011: primeiro lote de peças, incluindo fragmentos cerâmicos e ossos, retorna ao Peru.
- 2012: Yale devolve o restante do acervo em 127 caixas, transportadas a Cusco a bordo de um avião da Força Aérea Peruana.
- 2015: Yale e a Universidade Nacional San Antonio Abad del Cusco inauguram um centro internacional conjunto para o estudo de Machu Picchu e da cultura inca.

Bingham entre ruínas incas durante a mesma expedição de 1911 que o levou a Machu Picchu.
Hoje, os objetos reunidos por Bingham fazem parte das coleções do Museu Machu Picchu, em Cusco, administrado pela própria UNSAAC. O nome de Bingham segue ligado para sempre ao sítio — a estrada sinuosa que leva os ônibus até a entrada das ruínas se chama Hiram Bingham Highway —, mas a história por trás da fama é mais complicada do que a palavra "descoberta" sugere: antes de virar Patrimônio Mundial da UNESCO e um dos destinos mais visitados da América do Sul, Machu Picchu já era, para quem morava ali, simplesmente casa.


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