Em 1965, jornalistas do Orlando Sentinel passaram meses tentando descobrir quem estava comprando, silenciosamente, dezenas de fazendas e pântanos no centro da Flórida através de empresas com nomes genéricos como "Reedy Creek Ranch Corporation" e "Ayefour Corporation". A resposta, quando veio, explicava tudo: era a Walt Disney Productions, e o comprador misterioso mudaria para sempre o mapa turístico dos Estados Unidos.
Um segredo bem guardado
Depois do sucesso da Disneylândia na Califórnia, aberta em 1955, Walt Disney percebeu um problema: o parque tinha pouco espaço para crescer, e hotéis e atrações concorrentes brotavam ao redor sem que a empresa lucrasse com eles. Para o novo projeto, batizado internamente de "Florida Project", Walt queria terreno de sobra — e comprou com discrição justamente para evitar que a especulação imobiliária disparasse os preços antes da hora.
A estratégia funcionou por um bom tempo: a Disney adquiriu cerca de 11 mil hectares a valores que chegavam a apenas 90 dólares o hectare. Quando o Orlando Sentinel publicou a manchete revelando a empresa por trás das compras, em outubro de 1965, o preço da terra na região disparou da noite para o dia. Um mês depois, em 15 de novembro de 1965, Walt Disney e seu irmão Roy anunciaram oficialmente o projeto ao lado do governador da Flórida, Haydon Burns.

Walt Disney apresentou o projeto da Flórida a jornalistas nos anos 1960.
Da cidade do amanhã ao Reino Mágico
O sonho original de Walt ia muito além de um parque temático. Ele imaginava a EPCOT — sigla para "Experimental Prototype Community of Tomorrow" — como uma cidade de verdade, habitada por 20 mil moradores, com centro urbano coberto, transporte público que dispensaria carros e um design radial inspirado nas ideias urbanísticas mais avançadas da época. Walt chegou a gravar um filme de 25 minutos explicando o projeto aos investidores, em outubro de 1966. Dois meses depois, em 15 de dezembro de 1966, ele morreu de câncer no pulmão, aos 65 anos, sem ver nenhuma pá de terra revirada na Flórida.
Coube ao irmão mais velho, Roy O. Disney, adiar a própria aposentadoria para tocar a obra adiante. Roy simplificou o projeto: a cidade-conceito de Walt se tornaria, décadas depois, o parque Epcot, enquanto a prioridade imediata virou um parque de diversões nos moldes da Disneylândia. Em maio de 1967, o estado da Flórida criou o Reedy Creek Improvement District, um distrito especial que deu à Disney poderes quase municipais sobre suas próprias terras — de zoneamento a serviços públicos. A construção começou em 1967, e o Castelo da Cinderela, símbolo do futuro Magic Kingdom, só ficou pronto três meses antes da inauguração, em 1º de outubro de 1971.
De um parque a quatro portões
O Magic Kingdom foi só o começo. Nas décadas seguintes, o resort ganhou mais três parques temáticos:
- Epcot (1982) — a versão final, e bem diferente da original, do sonho urbano de Walt, com a esfera geodésica Spaceship Earth como ícone.
- Disney-MGM Studios (1989), renomeado Disney's Hollywood Studios em 2008 — dedicado ao cinema e à televisão.
- Disney's Animal Kingdom (1998) — parque de conservação e vida selvagem, o maior dos quatro em área.
Hoje o Walt Disney World Resort ocupa cerca de 100 quilômetros quadrados em Orlando e Lake Buena Vista — uma área maior do que a ilha de Manhattan, em Nova York — com dezenas de hotéis, dois parques aquáticos e um distrito de compras e entretenimento.

O resort hoje ocupa uma área maior do que a ilha de Manhattan.
Foi Roy quem decidiu, pouco antes da inauguração, que o parque não se chamaria apenas "Disney World", mas "Walt Disney World" — para que ninguém esquecesse de quem tinha sido aquele sonho. Roy dedicou o resort ao irmão em uma cerimônia em outubro de 1971 e morreu menos de três meses depois, em 20 de dezembro daquele ano, encerrando pessoalmente o capítulo que Walt não viveu para ver completo.
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