Sete corvos vivem hoje dentro dos muros da Torre de Londres, alimentados e cuidados por um funcionário com o cargo oficial de Ravenmaster. Segundo a lenda, se os corvos deixarem a fortaleza, ela cairá — e o reino junto com ela. Na Segunda Guerra Mundial, um bombardeio alemão matou quase todas as aves, deixando apenas uma viva, e Winston Churchill teria ordenado que o grupo fosse reposto às pressas. É só uma história entre as centenas que essa construção de quase mil anos acumulou.
Uma fortaleza normanda no coração de Londres
A Torre de Londres começou a ser erguida pouco depois da conquista normanda de 1066, quando Guilherme, o Conquistador, precisava deixar clara sua autoridade sobre uma cidade recém-subjugada. Por volta de 1078, ele ordenou a construção da Torre Branca (White Tower), o núcleo original do complexo, com blocos de pedra calcária trazidos de Caen, na Normandia. A torre chega a cerca de 27 metros de altura e, por séculos, foi a estrutura mais imponente e ameaçadora que os londrinos podiam ver do outro lado do rio Tâmisa.
Ao longo dos séculos seguintes, monarcas sucessivos expandiram o complexo, que passou a ocupar cerca de 12 acres às margens do rio. A Torre de Londres nunca teve uma única função: foi residência real, arsenal, casa da moeda (Royal Mint), zoológico real (menagerie) com leões e ursos polares recebidos como presentes diplomáticos, e, principalmente, prisão de estado.
Entrada da exposição das Joias da Coroa, guardadas na Torre desde o século 17
Prisioneiros, rainhas e execuções
Nenhuma outra construção na Inglaterra concentra tantas histórias de queda de poder. Quatro rainhas inglesas foram presas na Torre, e três delas foram decapitadas ali mesmo, na Tower Green: Ana Bolena, segunda esposa de Henrique VIII, executada em 1536 sob acusações de adultério e traição hoje consideradas fabricadas; Catarina Howard, quinta esposa do mesmo rei; e Jane Grey, que reinou por apenas nove dias em 1553. Outros nomes famosos passaram pelas celas da Torre, como o estadista Thomas More, o explorador Sir Walter Raleigh e Guy Fawkes, capturado após a tentativa de explodir o Parlamento em 1605.
As Joias da Coroa e o status atual
Depois da Restauração da monarquia em 1660, um novo conjunto de Joias da Coroa foi criado em 1661 — as peças originais haviam sido derretidas ou vendidas durante o período republicano de Oliver Cromwell. Esse conjunto, com peças como a Coroa de Santo Eduardo e a Coroa Imperial do Estado, reúne hoje 23.578 pedras preciosas e continua guardado na Torre, protegido dentro da Waterloo Barracks. Em 1988, a Torre de Londres foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, que destacou o conjunto como um dos exemplos mais completos de arquitetura militar normanda ainda em pé.
Os corvos residentes são cuidados por um Yeoman Warder com o título oficial de Ravenmaster
Quase mil anos depois de Guilherme ordenar as primeiras pedras, a Torre de Londres segue como um símbolo ambíguo: ao mesmo tempo palácio e masmorra, tesouro e cadafalso. Poucos monumentos no mundo carregam de forma tão literal a história de um país inteiro dentro dos próprios muros.
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