Em 1636, numa rua estreita do bairro portuário do Recife, um grupo de judeus sefarditas inaugurou a primeira sinagoga oficial das Américas. Deram a ela o nome de Kahal Zur Israel — "Comunidade Rochedo de Israel" — e ali, sob a proteção da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, praticaram abertamente uma fé que a Inquisição portuguesa perseguia havia mais de um século.
A liberdade religiosa da Nova Holanda
Quando as tropas holandesas tomaram Pernambuco em 1630, trouxeram consigo algo raro para a América colonial: tolerância religiosa. A política adotada pela Companhia das Índias Ocidentais, reforçada durante o governo do conde Maurício de Nassau, abriu espaço para que judeus sefarditas — muitos deles descendentes de famílias que haviam fugido de Portugal e Espanha para os Países Baixos décadas antes — migrassem para o Recife em busca da liberdade de culto que não existia sob domínio português. Estima-se que, no auge, a comunidade judaica somasse mais de mil pessoas na colônia, boa parte concentrada na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife.
Foi ali que a Kahal Zur Israel funcionou como sinagoga entre 1636 e 1654, com escola religiosa e vida comunitária organizada em torno dela. Em 1641, chegou ao Recife o rabino luso-holandês Isaac Aboab da Fonseca, que permaneceu na cidade por 13 anos e é considerado o primeiro rabino a atuar nas Américas — décadas antes de qualquer sinagoga formal existir na América do Norte.
A antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife
A reconquista portuguesa e a rota até Nova York
A tolerância durou pouco menos de duas décadas. Com a derrota holandesa na Insurreição Pernambucana, selada na Batalha dos Guararapes, Portugal retomou o controle da região em 1654 — e trouxe de volta o risco da perseguição religiosa para quem praticava o judaísmo abertamente. A comunidade da Kahal Zur Israel se dispersou às pressas.
- 1630 — tropas holandesas conquistam Pernambuco e instauram a tolerância religiosa
- 1636 — fundação da Kahal Zur Israel, primeira sinagoga das Américas
- 1641 — chegada do rabino Isaac Aboab da Fonseca, que fica 13 anos no Recife
- 1654 — reconquista portuguesa força a dispersão da comunidade judaica
- 1654 — um grupo de 23 refugiados desembarca em Nova Amsterdã, atual Nova York
Parte das famílias retornou à Holanda a bordo de navios como o Valk. Mas um pequeno grupo de 23 refugiados seguiu outro caminho e desembarcou em Nova Amsterdã, colônia holandesa que os ingleses rebatizariam de Nova York uma década depois. Ali, esses judeus recifenses fundaram a Congregation Shearith Israel, a mais antiga comunidade judaica organizada da América do Norte, que segue ativa até os dias de hoje na cidade de Nova York. A sinagoga nascida no Recife colonial teve, assim, um papel direto — e pouco lembrado — na formação da vida judaica nos Estados Unidos.
Da memória soterrada ao museu de hoje
Depois de 1654, o prédio da Kahal Zur Israel foi ocupado por outros usos ao longo dos séculos seguintes, e sua localização exata acabou esquecida pela cidade. A situação só mudou entre 1999 e 2000, quando escavações arqueológicas no número 197 da Rua do Bom Jesus confirmaram o local: os pesquisadores encontraram um poço e um mikvê — banho ritual judaico de purificação — com sete degraus, elementos que comprovaram tratar-se do sítio da antiga sinagoga.
O espaço reconstruído funciona hoje como museu e centro cultural
A descoberta motivou um projeto de restauração que devolveu o edifício ao público em outubro de 2001, agora reconstruído como museu e centro cultural. Hoje, o Centro Cultural Judaico do Recife ocupa o mesmo endereço onde, quase quatro séculos atrás, uma comunidade recém-chegada ergueu a primeira sinagoga das Américas, reunindo painéis, achados arqueológicos e réplicas que contam a curta e intensa passagem judaica pelo Recife holandês — e, sem saber, plantaram também a semente da mais antiga congregação judaica de Nova York.


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