Dentro do Savoy Hotel, o primeiro hotel de luxo de Londres a ter eletricidade e água encanada em todos os quartos, existe um bar que ajudou a moldar a coquetelaria moderna. O American Bar abriu as portas em 1889 e é considerado o bar de coquetéis mais antigo em funcionamento contínuo da cidade. O nome vem dos bartenders americanos contratados pelo hotel no fim do século 19 para atender viajantes que chegavam à Europa já acostumados aos drinks elaborados que se popularizavam nos Estados Unidos. Mais de um século depois, o salão de madeira escura e luzes baixas às margens do Tâmisa segue servindo clássicos ao lado de criações autorais, mantendo viva uma tradição que passou pelas mãos de alguns dos bartenders mais influentes da história.
A única mulher a comandar o bar mais famoso de Londres
Entre os nomes que definiram o American Bar está o de Ada Coleman, nascida em 1875, filha de um zelador que trabalhava para o hoteleiro Rupert D'Oyly Carte, dono do Savoy. Depois da morte do pai, Coleman começou a trabalhar como bartender no Claridge's, outro hotel de D'Oyly Carte, em 1899. Em 1903, foi promovida a chefe de bar do American Bar do Savoy — posto que ocupou por 23 anos, até 1926, tornando-se a única mulher a chefiar o bar em toda a sua história. Apelidada de "Coley" pelos clientes, ela era conhecida tanto pela habilidade atrás do balcão quanto pela conversa afiada, e atendeu nomes como Mark Twain, Charlie Chaplin, Marlene Dietrich e o próprio Príncipe de Gales.

Ada Coleman, chefe de bar do American Bar entre 1903 e 1926
O nascimento do Hanky Panky
Foi no início dos anos 1920 que Ada Coleman criou sua receita mais duradoura. Segundo o relato que ela mesma contou décadas depois, o ator Charles Hawtrey, cliente frequente do bar, pediu um drinque que fosse "revigorante o suficiente para acordar os mortos" antes de subir ao palco. Coleman testou uma combinação de gim, vermute doce e um toque do amaro italiano Fernet-Branca. Ao experimentar o resultado, Hawtrey teria exclamado que aquilo era "hanky panky" — expressão que, na gíria inglesa da época, remetia a truque ou feitiçaria. O nome colou, e o coquetel entrou para a história: o bartender Harry Craddock, sucessor de Coleman no Savoy, incluiu a receita do Hanky Panky no influente "Savoy Cocktail Book", publicado em 1930, garantindo que a fórmula atravessasse gerações.
Um legado que segue no cardápio
Depois de deixar o posto no Savoy em 1926, Ada Coleman passou a trabalhar meio período cuidando do vestiário feminino do hotel The Berkeley, também em Londres, e viveu até os 91 anos, morrendo em 1966. O American Bar, por sua vez, seguiu sendo palco de outras passagens marcantes na história da coquetelaria — incluindo a de Harry Craddock, que também é lembrado por popularizar drinques como o White Lady. Hoje o Hanky Panky continua no cardápio do bar, servido no mesmo salão onde Ada Coleman trabalhou por mais de duas décadas, um dos poucos elos físicos diretos entre o Londres eduardiano e a coquetelaria contemporânea.

Detalhe da fachada do Savoy Hotel, no Strand