No cruzamento do Boulevard Saint-Germain com a Rue Saint-Benoît, no coração do 6º arrondissement de Paris, uma marquise vermelha e um toldo discreto marcam a entrada de um dos cafés mais famosos do mundo. Aberto por volta de 1887 e batizado em homenagem a uma estátua da deusa romana Flora que ficava próxima dali, o Café de Flore passou por mais de um século sem perder a essência: mesas de mármore, bancos de veludo vermelho e garçons de avental branco atendendo clientes que vão do turista de primeira viagem ao parisiense que frequenta a casa há décadas.
O point de Sartre e Simone de Beauvoir
A fama internacional do Flore se consolidou durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos seguintes, quando o filósofo Jean-Paul Sartre e a escritora Simone de Beauvoir praticamente se mudaram para uma mesa do café — em parte porque, em uma Paris ocupada e com escassez de combustível, o Flore era um dos poucos lugares aquecidos da região onde se podia escrever, ler e discutir por horas. Foi ali que boa parte do existencialismo francês tomou forma, entre xícaras de café e cigarros, discussões que se estendiam noite adentro.
Sartre e Beauvoir não estavam sozinhos. Ao longo do século XX, o Flore recebeu nomes como Albert Camus, Pablo Picasso, Guillaume Apollinaire e, em temporadas parisienses, escritores americanos como Ernest Hemingway. Essa combinação de literatura, filosofia e boemia deu ao café um status que vai muito além de simplesmente servir bebidas quentes — o Flore virou personagem da própria história cultural de Paris.
As mesas na calçada seguem disputadas em qualquer horário do dia.
Um prêmio literário próprio
Em 1994, o Café de Flore criou o Prix de Flore, uma premiação literária concedida anualmente a um jovem escritor francês — uma forma de manter viva a ligação da casa com o mundo das letras, décadas depois do auge existencialista. O prêmio é entregue no próprio café, reforçando o papel do Flore como uma espécie de salão literário informal que nunca deixou de funcionar.
Visitar o Flore hoje
Hoje o Café de Flore é, ao mesmo tempo, ponto turístico e café de bairro. Pela manhã, é possível pedir o tradicional chocolat chaud (chocolate quente) ou um café com croissant sentado nas mesinhas da calçada, observando o movimento do Boulevard Saint-Germain. À noite, o salão interno, com seus espelhos e madeira escura praticamente intactos desde meados do século XX, mantém o clima que atraiu gerações de escritores.
O Flore fica no boulevard Saint-Germain, bem em frente ao seu tradicional rival, Les Deux Magots.
Vale lembrar que, por ser uma instituição turística, os preços do Flore são mais altos que os de um café comum de bairro parisiense — parte do que se paga ali é, literalmente, décadas de história. Ainda assim, para quem gosta de literatura e história cultural, sentar por meia hora numa mesa que já recebeu Sartre e Beauvoir é uma experiência difícil de replicar em qualquer outro lugar de Paris.