Há mais de cem anos, uma bala de revólver segue alojada no teto dourado de um bar no coração da Cidade do México — e, de propósito, ninguém jamais a removeu. O buraco pertence ao Bar La Ópera, uma cantina que resiste desde o século 19 na Avenida 5 de Mayo, no Centro Histórico, e que viu passar tanto jantares da elite porfirista quanto tropas revolucionárias armadas.
De confeitaria francesa a ponto de encontro da elite
O endereço não nasceu como bar. Em 1876, as irmãs francesas Boulangeot abriram ali uma confeitaria de luxo na esquina da antiga rua San Juan de Letrán com a Avenida Juárez — terreno onde hoje se ergue a Torre Latinoamericana. Em 1895, o negócio mudou de local e de vocação: passou a funcionar na esquina da Avenida 5 de Mayo com a rua Filomeno Mata, endereço que ocupa até hoje, já como cantina voltada à clientela mais refinada da capital.
Entre os frequentadores da nova fase estavam o presidente Porfirio Díaz e sua esposa, Carmelita Romero Rubio, além do então ministro da Fazenda, José Ives Limantour. O bar tornou-se um símbolo do chamado Porfiriato, período de mais de três décadas de governo de Díaz marcado pela tentativa de europeizar os costumes da capital mexicana — daí o nome "La Ópera" e a decoração que remete aos teatros de espetáculo da Europa do fim do século 19.
A noite em que Pancho Villa disparou no teto
Em dezembro de 1914, tropas de Francisco "Pancho" Villa e Emiliano Zapata ocuparam a Cidade do México após a queda do governo de Victoriano Huerta, no auge da Revolução Mexicana. Segundo o relato mais repetido sobre o episódio, transmitido de geração em geração pelos próprios funcionários do bar, Villa entrou no La Ópera, sentou-se para conversar com seus homens e, incomodado por não conseguir atenção, sacou a arma e disparou um tiro para o alto. A bala nunca foi retirada do teto ornamentado e segue visível até hoje, próxima a um pequeno letreiro que conta a história aos visitantes.
Há uma ironia conhecida pelos guias locais: ao contrário da fama de bebedor pesado que o cinema atribuiu a outros líderes revolucionários, Villa era abstêmio — seu vício declarado era milk-shake de morango, não tequila ou pulque.

O salão interno do Bar La Ópera, com teto ornamentado e balcão de madeira.
Um teto de folha de ouro e um balcão vindo de Nova Orleans
A decoração do La Ópera segue o estilo afrancesado que dominava a arquitetura da capital mexicana na virada do século 19 para o 20, misturando traços barrocos com o Art Nouveau então em voga. Entre os elementos que sobrevivem até hoje estão:
- Um teto trabalhado com molduras cobertas por folha de ouro;
- Um balcão esculpido em madeira maciça de nogueira, encomendado e transportado de Nova Orleans;
- Espelhos de vidro biselado emoldurados por talha em madeira escura;
- Detalhes metálicos e vitrines que reforçam a atmosfera de teatro de ópera europeu.
Com o avanço da Revolução, o bar deixou de ser um espaço fechado à elite porfirista e passou a servir também tequila e pulque a um público mais amplo, consolidando-se como uma das cantinas mais tradicionais do Centro Histórico da capital mexicana — categoria de bar que, no México, guarda rituais e regras de sociabilidade próprios há mais de um século.
A rua 5 de Mayo, no Centro Histórico da Cidade do México.
O escritor mexicano Salvador Novo definiu as cantinas tradicionais da capital como "templos de duas portas", numa referência às entradas duplas que antigamente separavam o acesso de homens e mulheres nesses espaços de socialização. O Bar La Ópera, com suas portas na esquina de 5 de Mayo com Filomeno Mata, segue aberto como bar e restaurante mais de cento e trinta anos depois de virar cantina — mantendo, no teto dourado do salão principal, a mesma bala que um disparo de revólver transformou em parte permanente da sua história.