De longe, antes mesmo de qualquer porta ou fachada, o que se vê é uma coroa. Dezesseis colunas de concreto branco se curvam para cima e se afinam na ponta, como se alguém tivesse cravado espinhos gigantes na Esplanada dos Ministérios. Não há torre, não há nave visível, não há o desenho que qualquer brasileiro reconheceria como "igreja" — e é exatamente por isso que a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida se tornou, para muita gente, o símbolo mais forte de Brasília.
Uma estrutura pensada de baixo para cima
O projeto é de Oscar Niemeyer, mas a obra só existe de pé graças ao engenheiro Joaquim Cardozo, responsável pelo cálculo estrutural que tornou possível erguer pilares de seção parabólica em formato hiperboloide — uma curva que, até então, quase nenhuma construção no mundo tinha ousado em escala tão grande. A pedra fundamental foi lançada em 12 de setembro de 1958, ainda nos primeiros meses de construção da nova capital. Em 1960, quando Brasília foi inaugurada, a estrutura das dezesseis colunas — cada uma pesando 90 toneladas — já estava de pé, formando uma área circular de 70 metros de diâmetro, mas sem vidro, sem acabamento, praticamente um esqueleto exposto ao céu do Planalto Central.
A catedral só ficaria pronta dez anos depois. A inauguração oficial aconteceu em 31 de maio de 1970, já com os painéis de vidro colocados entre as colunas — translúcidos o bastante para deixar a luz entrar e transformar o interior num só ambiente aberto, sem paredes internas dividindo o espaço.
As dezesseis colunas hiperboloides, de 90 toneladas cada, sustentam toda a estrutura sem paredes internas.
A passagem pelo túnel escuro
Poucas igrejas no mundo pensam a chegada do visitante como um percurso dramático, mas a Catedral de Brasília faz exatamente isso. Não se entra pela frente: o acesso à nave é feito por uma rampa que desce ao subsolo, atravessando um túnel escuro e baixo. É só depois desse trecho de penumbra que o espaço se abre repentinamente para cima, inundado pela luz colorida dos vitrais assinados pela artista franco-brasileira Marianne Peretti — um contraste que Niemeyer projetou de propósito, quase como uma travessia entre a terra e o céu. Na entrada, quatro esculturas de bronze representando os Evangelistas, também de autoria de Alfredo Ceschiatti, recebem quem chega.
Os três anjos suspensos
Dentro da nave, presos por cabos de aço quase invisíveis, pairam os anjos mais fotografados do Brasil. São três esculturas de fibra de vidro criadas por Alfredo Ceschiatti, cada uma representando um arcanjo:
- São Miguel — a maior, com 4,45 metros e cerca de 300 quilos
- São Gabriel — intermediária, com 3,40 metros e 200 quilos
- São Rafael — a menor, com 2,20 metros e 100 quilos
Vistos de baixo, contra o fundo azul e amarelo dos vitrais de Marianne Peretti, os anjos parecem flutuar sem apoio algum — efeito que se tornou uma das imagens mais reproduzidas da arquitetura brasileira do século 20.
Os três anjos de fibra de vidro, suspensos por cabos de aço, representam os arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.
Niemeyer nunca escondeu que a forma da catedral admite mais de uma leitura: para uns, as colunas erguidas lembram mãos postas em oração; para outros, é a coroa de espinhos de Cristo desenhada em concreto contra o céu do Planalto. O próprio arquiteto preferia deixar a ambiguidade em aberto — prova de que, mais de meio século depois de pronta, a catedral continua sendo menos uma resposta e mais uma pergunta em forma de arquitetura.

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