Tem Café Aí Tem Café Aí Guia de destinos, sabores e histórias
Bandeira de Brasil Brasil
📍 Brasília

Catedral Metropolitana de Brasília: as 16 colunas de Niemeyer que formam uma coroa de espinhos

Vista externa da Catedral Metropolitana de Brasília com suas colunas hiperboloides na Esplanada dos Ministérios

Foto: Wikimedia Commons

De longe, antes mesmo de qualquer porta ou fachada, o que se vê é uma coroa. Dezesseis colunas de concreto branco se curvam para cima e se afinam na ponta, como se alguém tivesse cravado espinhos gigantes na Esplanada dos Ministérios. Não há torre, não há nave visível, não há o desenho que qualquer brasileiro reconheceria como "igreja" — e é exatamente por isso que a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida se tornou, para muita gente, o símbolo mais forte de Brasília.

Uma estrutura pensada de baixo para cima

O projeto é de Oscar Niemeyer, mas a obra só existe de pé graças ao engenheiro Joaquim Cardozo, responsável pelo cálculo estrutural que tornou possível erguer pilares de seção parabólica em formato hiperboloide — uma curva que, até então, quase nenhuma construção no mundo tinha ousado em escala tão grande. A pedra fundamental foi lançada em 12 de setembro de 1958, ainda nos primeiros meses de construção da nova capital. Em 1960, quando Brasília foi inaugurada, a estrutura das dezesseis colunas — cada uma pesando 90 toneladas — já estava de pé, formando uma área circular de 70 metros de diâmetro, mas sem vidro, sem acabamento, praticamente um esqueleto exposto ao céu do Planalto Central.

A catedral só ficaria pronta dez anos depois. A inauguração oficial aconteceu em 31 de maio de 1970, já com os painéis de vidro colocados entre as colunas — translúcidos o bastante para deixar a luz entrar e transformar o interior num só ambiente aberto, sem paredes internas dividindo o espaço.

Detalhe das colunas de concreto curvo da Catedral Metropolitana de Brasília

As dezesseis colunas hiperboloides, de 90 toneladas cada, sustentam toda a estrutura sem paredes internas.

A passagem pelo túnel escuro

Poucas igrejas no mundo pensam a chegada do visitante como um percurso dramático, mas a Catedral de Brasília faz exatamente isso. Não se entra pela frente: o acesso à nave é feito por uma rampa que desce ao subsolo, atravessando um túnel escuro e baixo. É só depois desse trecho de penumbra que o espaço se abre repentinamente para cima, inundado pela luz colorida dos vitrais assinados pela artista franco-brasileira Marianne Peretti — um contraste que Niemeyer projetou de propósito, quase como uma travessia entre a terra e o céu. Na entrada, quatro esculturas de bronze representando os Evangelistas, também de autoria de Alfredo Ceschiatti, recebem quem chega.

Os três anjos suspensos

Dentro da nave, presos por cabos de aço quase invisíveis, pairam os anjos mais fotografados do Brasil. São três esculturas de fibra de vidro criadas por Alfredo Ceschiatti, cada uma representando um arcanjo:

  • São Miguel — a maior, com 4,45 metros e cerca de 300 quilos
  • São Gabriel — intermediária, com 3,40 metros e 200 quilos
  • São Rafael — a menor, com 2,20 metros e 100 quilos

Vistos de baixo, contra o fundo azul e amarelo dos vitrais de Marianne Peretti, os anjos parecem flutuar sem apoio algum — efeito que se tornou uma das imagens mais reproduzidas da arquitetura brasileira do século 20.

Os anjos suspensos de Alfredo Ceschiatti no interior da Catedral de Brasília

Os três anjos de fibra de vidro, suspensos por cabos de aço, representam os arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.

Niemeyer nunca escondeu que a forma da catedral admite mais de uma leitura: para uns, as colunas erguidas lembram mãos postas em oração; para outros, é a coroa de espinhos de Cristo desenhada em concreto contra o céu do Planalto. O próprio arquiteto preferia deixar a ambiguidade em aberto — prova de que, mais de meio século depois de pronta, a catedral continua sendo menos uma resposta e mais uma pergunta em forma de arquitetura.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Vá pela experiência sensorial proporcionada pelo teto de vidro.

Onde fica

  • Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida Ponto Turístico
    Catedral Metropolitana de Brasília, Esplanada dos Ministérios, Brasília, Distrito Federal

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.



Continue lendo

Bandeira de Japão Japão
Bandeira de Tóquio Tóquio

Café de l'Ambre: a casa de Ginza que envelhece grãos de café por décadas desde 1948

Fachada do Café de l'Ambre, tradicional casa de café em Ginza, Tóquio

Foto: Wikimedia Commons

Em 1948, em meio à reconstrução de Tóquio no pós-guerra, um ex-operador de projetores de cinema abriu uma porta discreta numa viela perto da estação de Shinbashi, a poucos passos da badalada Ginza-dori. O nome escolhido, Café de l'Ambre, remete à cor âmbar que os grãos de café ganham depois de anos de maturação — um detalhe que, décadas depois, transformou a pequena casa de Ichiro Sekiguchi em um dos endereços mais reverenciados do mundo cafeeiro.

Do balcão entre amigos a uma lenda de Ginza

Sekiguchi não tinha formação em café: trabalhava no setor de projetores de cinema, um dos ramos em expansão durante o período Showa, e preparava a bebida para os colegas nos intervalos de trabalho. O talento amador chamou tanta atenção que os próprios amigos o convenceram a abrir um estabelecimento, já que a região não tinha uma casa de café à altura do que ele servia. Assim nasceu, em plena escassez do pós-guerra, o Café de l'Ambre — parte de uma tradição que já vinha de longe: a primeira kissaten (casa de chá e café) do Japão, a Kahi Chakan, havia aberto em Ueno em 1888, e em 1911 o Café Paulista, batizado em homenagem ao café brasileiro, já servia clientes em Ginza.

Grãos que faltavam — e viraram método

A marca registrada da casa nasceu de uma limitação. Em 1948 era difícil encontrar grãos verdes frescos no Japão, e Sekiguchi conseguiu um lote cobiçado de café Sumatra Mandheling que já tinha, na época, cerca de dez anos. Em vez de descartar o café "velho", percebeu que a maturação prolongada suavizava a acidez e aprofundava o sabor. A partir daí, transformou a limitação em especialidade: passou a envelhecer deliberadamente os grãos verdes por no mínimo uma década, chegando a servir cafés com 21 e 23 anos de maturação, com lotes colombianos e cubanos guardados desde os anos 1970.

Esquina iluminada do bairro de Ginza, em Tóquio, onde fica o Café de l'Ambre

O bairro de Ginza, em Tóquio, onde o Café de l'Ambre funciona desde 1948

"Coffee only": uma casa que só serve café

Uma placa na entrada avisa: "coffee only". O cardápio, com cerca de trinta variedades de origem única, gira inteiramente em torno do grão — quente, gelado, em blends ou nas raras sobremesas à base de café, como pudins e gelatinas. Sekiguchi torrava pessoalmente os lotes em pequenas quantidades para preservar o ponto exato de maturação, e cada xícara era moída e preparada na hora, com intensidade e tamanho definidos a pedido do cliente, sempre acompanhada de um copo d'água — o ritual clássico dos kissaten, que viveram sua era de ouro no Japão do pós-guerra e chegaram a somar mais de 154 mil casas pelo país no auge, em 1981.

Rua de Ginza com uma tradicional casa de café (kissaten) japonesa

Ginza reúne diversas casas de café tradicionais, parte da mesma cultura kissaten do Café de l'Ambre

Setenta anos de continuidade

Ichiro Sekiguchi morreu em 2018, aos 104 anos, depois de décadas à frente do próprio balcão. A casa que abriu como um experimento entre amigos no pós-guerra segue funcionando no mesmo bairro de Ginza, mantendo o método artesanal de torra e maturação que a tornou referência obrigatória para quem estuda a história do café no Japão. Em meio às vitrines de luxo e às lojas de departamento que hoje dominam a região, o Café de l'Ambre permanece como um dos poucos lugares de Tóquio onde é possível provar, na mesma xícara, o sabor de décadas de espera.

Onde fica

  • Café de l'Ambre Cafeteria
    Café de l'Ambre, Ginza, Tóquio, Japão

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.


Bandeira de Brasil Brasil
Bandeira de Rio de Janeiro Rio de Janeiro

Rio Minho: o restaurante mais antigo do Rio de Janeiro ainda serve a sopa criada por um embaixador

Praça XV de Novembro, no Centro do Rio de Janeiro, onde fica o restaurante Rio Minho

Foto: Wikimedia Commons

São seis da tarde na Praça XV, no Centro do Rio, e um cheiro de caldo de peixe escapa por uma porta de madeira na Rua do Ouvidor. Do lado de dentro, garçons de paletó branco circulam entre toalhas engomadas e paredes com azulejos portugueses, servindo o mesmo prato que ambientava as mesas ali há mais de cem anos. É o Rio Minho, considerado o restaurante mais antigo em atividade ininterrupta da cidade, funcionando no mesmo endereço desde 1884.

Um sobrevivente da Rua do Ouvidor

O Rio Minho foi inaugurado por comerciantes portugueses no número 1 da Rua do Ouvidor — endereço que, com a renumeração da rua ao longo do século XX, corresponde hoje ao número 10, na esquina com a Praça XV de Novembro. Batizado em homenagem à província do Minho, no norte de Portugal, de onde vieram muitos de seus fundadores, o restaurante já teve diferentes donos ao longo de mais de 140 anos, mas nunca deixou de funcionar como restaurante — um recorde raro em uma região do Centro do Rio que viu desaparecer boa parte do comércio da era imperial e republicana.

A especialidade da casa sempre foi peixes e frutos do mar, num cardápio que atravessou o Império, a Proclamação da República e todas as reformas urbanas que remodelaram a Rua do Ouvidor — via que, no fim do século XIX, era o centro da vida elegante, política e boêmia da capital do país.

A sopa que virou lenda

Nenhum prato está mais associado ao Rio Minho do que a Sopa Leão Veloso. A receita nasceu no início do século XX a partir da experiência do diplomata Pedro Leão Velloso Neto (1887–1947), que, durante uma viagem à França, provou a bouillabaisse marselhesa e trouxe a ideia para o Rio de Janeiro. Adaptada pela cozinha do Rio Minho com peixes e frutos do mar locais, a sopa cremosa e encorpada recebeu o nome do embaixador e virou um clássico da gastronomia carioca, servida até hoje praticamente sem alterações na receita.

Retrato do Barão do Rio Branco, diplomata que frequentava o Rio Minho

O Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, tinha mesa cativa no Rio Minho.

Mesa de diplomatas e intelectuais

Por sua localização a poucos passos do antigo Ministério das Relações Exteriores e dos prédios públicos que cercavam a Praça XV, o Rio Minho tornou-se ponto de encontro de figuras da política e das letras desde o início do século XX. Entre os frequentadores mais célebres estão:

  • O Barão do Rio Branco, considerado o patrono da diplomacia brasileira, que tinha mesa cativa no restaurante e ali recebia colegas de trabalho e amigos;
  • O filólogo e lexicógrafo Antônio Houaiss, um dos frequentadores assíduos nas décadas seguintes;
  • Gerações de diplomatas do Itamaraty, que fizeram do salão uma extensão informal de suas reuniões de trabalho.
Sopa de peixes no estilo bouillabaisse, base da receita da Sopa Leão Veloso

A bouillabaisse marselhesa inspirou a criação da Sopa Leão Veloso.

O prédio onde o restaurante funciona também guarda parte dessa memória: o salão principal preserva móveis, azulejaria e uma atmosfera que remetem diretamente ao Rio de Janeiro do fim do século XIX, quando a Rua do Ouvidor concentrava confeitarias, livrarias e redações de jornal — um circuito que hoje sobrevive quase só em fotografias e nas paredes do Rio Minho. Reconhecido como parte do patrimônio histórico e cultural do Centro do Rio, o restaurante segue como um dos poucos elos ainda em funcionamento entre a cidade de hoje e a que existia antes das grandes reformas urbanas do início do século XX — prova de que, na culinária carioca, tradição e permanência também podem ser servidas à mesa.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Fundado em 1884, e ainda é o melhor lugar pra comer frutos do mar. A sopa leão veloso foi inventada lá.

Onde fica

  • Rio Minho Restaurante
    R. do Ouvidor, 10 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20010-150

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.


Bandeira de Brasil Brasil
Bandeira de São Paulo São Paulo

Mercadão de São Paulo: o templo do sanduíche de mortadela dentro de um mercado centenário

Fachada do Mercado Municipal de São Paulo

Foto: Wikimedia Commons

Inaugurado em 1933 no centro de São Paulo, o Mercado Municipal — carinhosamente apelidado de Mercadão pelos paulistanos — nasceu como um grande entreposto de alimentos e, quase um século depois, se tornou também um destino gastronômico por conta própria, famoso principalmente por um sanduíche específico: o de mortadela, servido em fatias generosas o suficiente para render fotos e filas quase o dia inteiro.

Arquitetura eclética e vitrais importados

O prédio, projetado pelo arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, é um exemplo de arquitetura eclética do início do século XX, com estrutura metálica e vitrais que retratam cenas de agricultura e comércio de alimentos, importados da França. A cúpula de vidro colorido que cobre boa parte do salão principal é um dos elementos mais fotografados do mercado, criando um jogo de luzes que muda ao longo do dia.

O sanduíche que virou símbolo

Embora o Mercadão sempre tenha vendido frutas, temperos e frios, foi o sanduíche de mortadela — criado por comerciantes do próprio mercado décadas atrás — que se transformou no maior chamariz turístico do local. Feito com pão francês e uma quantidade generosa de fatias de mortadela, o sanduíche atrai filas constantes nos bares em frente às bancas de frios, especialmente aos sábados.

Bancas de frios no Mercado Municipal de São Paulo

As bancas de frios são a origem do famoso sanduíche de mortadela.

De abastecimento popular a ponto turístico

Originalmente concebido para abastecer a cidade em expansão do início do século XX, com frutas, verduras, carnes e peixes, o Mercadão passou por uma reforma nos anos 2000 que ajudou a consolidá-lo como atração turística, sem perder a função original de comércio de alimentos. Hoje convivem lado a lado bancas tradicionais de temperos e frutas exóticas com restaurantes e bares voltados a turistas.

Interior amplo do Mercado Municipal de São Paulo

Os vitrais franceses e a cúpula de vidro colorido marcam a arquitetura do salão principal.

Dicas para a visita

Vale ir num dia de semana pela manhã para evitar as maiores filas do sanduíche de mortadela, e reservar tempo para caminhar entre as bancas de frutas exóticas da Amazônia, muitas vezes desconhecidas até por paulistanos. O mercado fica a poucos minutos a pé da Praça da Sé e do centro histórico da cidade.

Onde fica

  • Mercado Municipal de São Paulo Restaurante
    Rua da Cantareira, 306, Centro, São Paulo - SP

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.


Carregando mais destinos…