Na esquina da Chestnut Street com a Quinta Avenida, no centro histórico da Filadélfia, um edifício georgiano de tijolos vermelhos e torre branca guarda, atrás de portas simples de madeira, a sala onde dois dos documentos mais influentes da história moderna foram debatidos, votados e assinados. É ali, no Independence Hall, que nasceram tanto a Declaração de Independência dos Estados Unidos quanto a Constituição americana — dois textos separados por apenas onze anos, redigidos sob o mesmo teto e, segundo o relato de um dos presentes, sob o mesmo sol entalhado numa cadeira de espaldar alto.
De sede do governo colonial a palco da ruptura com a Inglaterra
O prédio não nasceu como monumento: foi erguido entre 1732 e 1756 para abrigar a Assembleia da Província da Pensilvânia. O conceito arquitetônico partiu do advogado Andrew Hamilton, então presidente da Assembleia, enquanto o mestre-de-obras Edmund Woolley desenhou os detalhes do estilo georgiano que o edifício mantém até hoje. Por quase quatro décadas, o chamado Pennsylvania State House cumpriu função burocrática comum, até que a tensão entre as treze colônias e a coroa britânica o transformou em palco de história.
A partir de maio de 1775, o Segundo Congresso Continental passou a se reunir na sala leste do térreo. Foi ali que, em 2 de julho de 1776, os delegados votaram pela ruptura formal com a Grã-Bretanha — e dois dias depois, em 4 de julho, aprovaram o texto final da Declaração de Independência, redigido majoritariamente por Thomas Jefferson. A data virou o feriado nacional americano, ainda que a assinatura do documento pela maioria dos delegados só tenha se completado em agosto daquele ano.
Independence Hall, na Filadélfia, sede da Declaração de Independência e da Constituição dos EUA
1787: os debates que resultaram na Constituição dos Estados Unidos
Onze anos depois de declarar a independência, o mesmo salão recebeu outro capítulo decisivo. Entre maio e setembro de 1787, delegados dos treze estados se reuniram na Convenção Constitucional para revisar os frágeis Artigos da Confederação — e acabaram redigindo, do zero, a Constituição dos Estados Unidos. George Washington presidiu as sessões, realizadas a portas fechadas e janelas trancadas para impedir vazamentos, num verão notoriamente quente na Filadélfia. O texto final foi assinado em 17 de setembro de 1787 por 39 dos 55 delegados presentes, estabelecendo os três poderes e o sistema de freios e contrapesos que o país usa até hoje.
Ao final dos trabalhos, o inventor e delegado Benjamin Franklin comentou sobre a cadeira usada por Washington durante os debates, decorada com um sol meio encoberto no horizonte. Segundo o registro de James Madison, Franklin disse que, ao longo da convenção, olhara várias vezes para aquele sol sem saber se nascia ou se punha — e que, com a Constituição assinada, finalmente sabia tratar-se de um sol nascente.
Marcos que transformaram o prédio em patrimônio da humanidade
- 1732–1756: construção do edifício como sede da Assembleia da Pensilvânia.
- 1776: aprovação da Declaração de Independência na sala leste do térreo.
- 1787: assinatura da Constituição dos Estados Unidos, sob a presidência de George Washington.
- 1948: criação do Independence National Historical Park pelo governo federal, incorporando o prédio e seu entorno.
- 1979: Independence Hall se torna o primeiro local ligado à história dos Estados Unidos a integrar a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.
Fila de visitantes em frente ao Independence Hall
Hoje o acesso ao interior só é permitido em visitas guiadas gratuitas organizadas pelo National Park Service, com ingressos de horário marcado por causa da fila diária de visitantes em frente à fachada. Ao lado do prédio, no Liberty Bell Center, está exposto o outro símbolo do local: o sino que teria tocado para anunciar a primeira leitura pública da Declaração e que hoje exibe a rachadura que o silenciou de vez em 1846, depois de décadas de uso em cerimônias oficiais. É uma coincidência simbólica que o sino da liberdade tenha emudecido justamente quando o país que ajudou a anunciar já caminhava para sua maior crise interna, a Guerra Civil, que estourou quinze anos depois.



Seja o primeiro a comentar.