Poucas cidades brasileiras carregam o próprio destino dentro do nome. Fortaleza é uma delas: a capital do Ceará se chama assim por causa de uma construção militar erguida por holandeses em pleno século XVII, quase duzentos anos antes de a cidade existir como núcleo urbano relevante. O prédio que deu origem a esse nome ainda está de pé — e continua em uso até hoje.
Um forte holandês batizado em homenagem a um governador
Em 3 de abril de 1649, o capitão holandês Matias Beck desembarcou na enseada do Mucuripe com três iates e dois botes, transportando 298 homens. A missão era ocupar o território do Ceará em nome da Companhia das Índias Ocidentais, que já controlava boa parte do litoral de Pernambuco. Seguindo a planta do engenheiro Ricardo Carr, os holandeses ergueram ali uma fortificação de terra e madeira batizada de Forte Schoonenborch, em homenagem ao governador de Pernambuco e presidente do Alto Conselho da Holanda no Brasil.
Modesto perto dos padrões europeus, o Schoonenborch foi, ainda assim, o primeiro núcleo defensivo permanente do território — e é dele que historiadores locais fazem derivar o início da história de Fortaleza como localidade fixada no mapa.

A fortificação atual, concluída em 1817, ocupa o mesmo terreno do antigo forte holandês Schoonenborch.
Da ruína holandesa à fortaleza portuguesa de pedra e cal
A presença neerlandesa no Nordeste durou pouco. Expulsos do Brasil em 1654, os holandeses deixaram o Schoonenborch para os portugueses, que retomaram a estrutura e a rebatizaram de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Sem manutenção constante, porém, o forte original foi se deteriorando ao longo do século seguinte, até restar pouco mais que uma bateria em ruínas.
A reconstrução que resultou no prédio visto hoje só começou décadas depois. Em 12 de outubro de 1812, o governador da capitania do Ceará, Manoel Inácio de Sampaio, lançou a pedra fundamental da nova fortaleza sobre o mesmo terreno. O projeto ficou a cargo do tenente-coronel de engenharia Antônio José da Silva Paulet, responsável também pelo primeiro traçado urbano da vila de Fortaleza e por sua primeira fonte pública. As obras terminaram em 1817: um quadrado de 90 metros de lado, com quatro baluartes nos vértices — o de Nossa Senhora da Assunção ao norte, o de São José a sudeste, o do Príncipe da Beira a sudoeste e o de Dom João a nordeste.
Curiosidades que atravessaram quase quatro séculos
- O nome "Fortaleza" só passou a designar oficialmente a cidade depois que o forte já era uma referência geográfica consolidada na região.
- A fortificação fica na margem esquerda da foz do riacho Pajeú, no monte conhecido como Marajaitiba — posição estratégica para vigiar a entrada de embarcações.
- Desde o século XX, o prédio funciona como sede do Comando da 10ª Região Militar do Exército Brasileiro, no Centro da capital cearense.
- O conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio histórico federal.
- Em 2021, um trecho da muralha do baluarte nordeste desabou; o reparo, aprovado pelo Iphan, começou a ser executado anos depois, já em 2024.
Os quatro baluartes do desenho de 1812 ainda demarcam o perímetro quadrado da fortificação.
Hoje cercada pelo ritmo de uma capital de mais de dois milhões de habitantes, a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção segue como sede militar e, ao mesmo tempo, como o documento de pedra mais antigo da cidade que a batizou. Poucos monumentos no Brasil resumem tão diretamente a relação entre um edifício e o lugar que ele fundou: antes de existir a metrópole, existiu o forte — e é dele, e não o contrário, que a capital do Ceará herdou o nome.



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