Em 1922, para celebrar o centenário da independência, uma comitiva oficial cravou uma pedra fundamental no meio do cerrado goiano, perto do arraial de Planaltina. Era o marco simbólico de uma capital que a Constituição de 1891 já previa erguer no Planalto Central. E então, nada aconteceu. A pedra ficou ali, isolada, por 34 anos, enquanto o Rio de Janeiro seguia sendo a sede do governo brasileiro. Foi só com um presidente recém-eleito e uma promessa de campanha que aquele pedaço de chão viraria a Praça dos Três Poderes, o coração político do Brasil.
Uma promessa de campanha vira decreto
Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência em 1956 com o lema "cinquenta anos em cinco" e incluiu a mudança da capital como uma das metas de seu governo. Em 19 de setembro daquele ano, a Lei nº 2.874 criou a Novacap — a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil — e definiu oficialmente o nome da cidade que ainda não existia: Brasília. Onze dias depois, em 30 de setembro de 1956, saiu no Diário Oficial o edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital, convocando urbanistas de todo o país a desenhar a cidade do zero.

Palácio do Planalto, projetado por Oscar Niemeyer
Em março de 1957, um júri internacional — do qual participava o próprio Oscar Niemeyer — escolheu o projeto do urbanista carioca Lúcio Costa, batizado de Plano Piloto. A Niemeyer coube o desenho dos principais edifícios públicos; ao engenheiro Joaquim Cardozo, os cálculos estruturais que tornaram possíveis as formas curvas e as colunas finas que Niemeyer imaginava. As obras começaram ainda em 1957, tocadas por milhares de trabalhadores vindos principalmente do Nordeste, os chamados candangos, que primeiro se instalaram num povoado provisório conhecido como Cidade Livre — hoje o bairro de Núcleo Bandeirante.
O desenho de Lúcio Costa organizava a cidade em torno de dois eixos que se cruzam, lembrando a silhueta de um avião: no eixo Monumental ficariam os prédios do governo, terminando na própria Praça dos Três Poderes; no eixo Rodoviário-Residencial, em curva, as superquadras onde a população viveria. Foi um desenho pensado para uma cidade nova, sem o traçado orgânico das capitais que cresceram ao longo de séculos — e por isso mesmo, décadas depois, ainda seria estudado como um dos maiores experimentos de urbanismo modernista do mundo.
Marcos de uma construção em tempo recorde
- 19/09/1956 — Lei nº 2.874 cria a Novacap e batiza a cidade de Brasília
- 30/09/1956 — publicado o edital do Concurso Nacional do Plano Piloto
- Março de 1957 — júri escolhe o projeto de Lúcio Costa
- 1957 — início das obras e chegada dos primeiros candangos
- 21/04/1960 — inauguração oficial de Brasília
Em menos de quatro anos, o que era um planalto vazio ganhou avenidas, o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e a praça que reuniria, lado a lado, as sedes dos três poderes da República — daí o nome que ficaria: Praça dos Três Poderes.
21 de abril de 1960: o dia da inauguração
A data não foi escolhida ao acaso. Kubitschek entregou a nova capital no Dia de Tiradentes, símbolo da luta republicana brasileira. Diante de uma multidão, ele hasteou pela primeira vez a bandeira nacional na praça recém-erguida e declarou: "Declaro, sob a proteção de Deus, inaugurada a cidade de Brasília, capital dos Estados Unidos do Brasil". Seguiram-se missa, desfiles, bailes e fogos de artifício — tudo isso cercado por prédios que, em muitos casos, ainda estavam sendo terminados enquanto a festa acontecia.

Congresso Nacional, um dos edifícios que compõem a Praça dos Três Poderes
Hoje, a praça reúne o Palácio do Planalto (Poder Executivo), o Congresso Nacional (Poder Legislativo) e o Supremo Tribunal Federal (Poder Judiciário), além de monumentos como o Panteão da Pátria e a escultura "A Justiça", de Alfredo Ceschiatti. Em 1987, aos 27 anos de idade, Brasília se tornou o primeiro bem do século XX a ser reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade — um símbolo raro entre as cidades premiadas, quase todas construções seculares. A pedra de 1922 acabou esquecida em Planaltina, a poucos quilômetros dali — enquanto a praça que a substituiu como símbolo se tornou o palco de todas as posses presidenciais do Brasil desde então.


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