Em 21 de fevereiro de 1978, uma equipe de eletricistas abria uma vala perto da Catedral Metropolitana da Cidade do México quando a picareta bateu em algo duro demais para ser terra. Era um disco de pedra de 3,25 metros de diâmetro e oito toneladas, esculpido com o corpo desmembrado de uma mulher. Ninguém ali sabia, mas aquele achado acidental estava prestes a trazer de volta à luz o templo mais sagrado do império mexica, soterrado havia quase 460 anos sob o centro da capital mexicana.
- 1325 – fundação de Tenochtitlan e primeira versão do templo.
- 1487 – grande reconsagração sob o imperador Ahuítzotl.
- 1521 – destruição da estrutura durante o cerco espanhol.
- 1913-1917 – Manuel Gamio localiza o canto sudeste do templo.
- 1978 – achado acidental da pedra de Coyolxauhqui.
- 1987 – inauguração do Museu do Templo Mayor.
Um santuário para dois deuses
O Templo Mayor foi erguido em 1325, o mesmo ano em que, segundo a tradição mexica, os astecas fundaram Tenochtitlan após avistarem uma águia pousada sobre um cacto — o mito de origem que hoje ilustra a bandeira do México. A primeira estrutura era simples, dedicada a Huitzilopochtli, deus da guerra e do sol. Ao longo de quase dois séculos, os governantes mexicas reconstruíram o templo sete vezes, cada nova camada envolvendo por completo a anterior, como as cascas de uma cebola.
Na versão final, vista pelos primeiros espanhóis a chegar à cidade, a pirâmide dupla media cerca de 100 por 80 metros na base e chegava a 30 metros de altura, com duas escadarias monumentais levando a dois santuários no topo: um para Huitzilopochtli, outro para Tláloc, deus da chuva. A reconsagração mais lembrada da estrutura aconteceu em 1487, quando o imperador Ahuítzotl celebrou uma grande ampliação do templo com uma cerimônia que cronistas espanhóis, décadas mais tarde, descreveriam como um dos maiores sacrifícios já registrados — números que a historiografia atual considera exagerados, mas que dão a medida do peso simbólico do lugar para os mexicas.
Da destruição ao primeiro indício, escondido por séculos
Em 1521, durante o cerco final a Tenochtitlan, as tropas de Hernán Cortés destruíram o Templo Mayor pedra por pedra. Os blocos de basalto e andesito foram reaproveitados na construção da Catedral Metropolitana e dos primeiros prédios coloniais, e o antigo centro cerimonial mexica desapareceu sob o novo traçado urbano espanhol. Por quase quatro séculos, sua localização exata virou motivo de especulação entre historiadores.
A primeira confirmação séria só veio em 1913, quando o arqueólogo Manuel Gamio soube que um prédio em ruínas na esquina das ruas Seminario e Santa Teresa — hoje Guatemala — seria demolido. Gamio acompanhou a demolição e, entre 1913 e 1917, expôs o canto sudeste do templo e uma das cabeças de serpente que ladeavam a escadaria de Huitzilopochtli: a primeira prova física de que o templo estava, literalmente, sob os pés da cidade colonial. Uma pequena praça do Centro Histórico leva hoje o nome de Plaza Manuel Gamio em sua homenagem, com trechos das ruínas expostos ao nível da rua.
A Plaza Manuel Gamio homenageia o arqueólogo que localizou o Templo Mayor em 1913.
O acidente que virou o maior projeto arqueológico do México
Passaram-se mais 60 anos até que o templo completo viesse à luz. O disco de pedra encontrado pelos eletricistas em fevereiro de 1978 foi identificado pelo arqueólogo Felipe Solís como Coyolxauhqui, a deusa lua esquartejada pelo irmão Huitzilopochtli na mitologia mexica — a mesma cena que, segundo os relatos astecas, se repetia ao pé da escadaria do templo após cada sacrifício. O achado foi tão significativo que o Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) abandonou um projeto de museu menor e lançou o Proyecto Templo Mayor, uma escavação em larga escala liderada pelo arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma entre 1978 e 1982.
A escavação removeu prédios coloniais inteiros no coração da capital para expor as sete camadas sobrepostas do templo e recuperou mais de 7 mil objetos — máscaras, oferendas, ornamentos e esculturas enterrados havia cerca de cinco séculos. Para abrigar esse acervo, o Museu do Templo Mayor foi inaugurado em 12 de outubro de 1987, ao lado das próprias ruínas, que seguem expostas a céu aberto a poucos metros da Catedral e do Palácio Nacional.
A pedra de Coyolxauhqui, achada por acaso, deu origem ao Proyecto Templo Mayor.
Hoje, caminhar pelo Zócalo da Cidade do México é caminhar sobre duas cidades sobrepostas: a capital colonial e barroca construída por cima, e o centro cerimonial mexica que só voltou a ver a luz porque um grupo de eletricistas, quase por acaso, bateu a picareta no lugar certo.



Seja o primeiro a comentar.