Numa rua lateral do bairro de Sint-Anna, longe do circuito da Markt, fica o bar mais antigo de Bruges ainda em funcionamento. O primeiro registro escrito do Café Vlissinghe é de 1515 — e desde então a casa nunca deixou de servir.
O prédio é ainda mais velho que o documento. São duas casas do fim do século XV que foram unidas; a fachada original, de madeira, acabou substituída por pedra, e sucessivas reformas fizeram com que a estrutura visível hoje seja em boa parte do século XVII.
A parte curiosa é que o interior "antigo" que encanta o visitante é, em grande medida, uma encenação do século XIX — e uma encenação assumida. Em 1855 o Vlissinghe foi comprado por Jacques De Meulemeester, dono da cervejaria De Arend. Seu filho Leon assumiu a cervejaria em 1869, e sob essa gestão a casa foi remontada num estilo "flamengo antigo": lareira de mármore preto, mobiliário neobarroco feito na época, pinturas e objetos escolhidos para compor o conjunto. Ou seja: um bar de 1515 que, trezentos e poucos anos depois, resolveu se vestir de bar de 1515.
O Vlissinghe também virou ponto de artistas. A associação Art Genegen, fundada em 1894 por professores e alunos da Academia de Belas Artes, reunia-se ali com regularidade. A sala que o grupo decorou continua de pé e funciona hoje como um pequeno museu dentro do próprio café.
Vale como parada exatamente por não estar no meio do fluxo turístico: é um café de bairro, com cerveja belga servida em cálice, mesas de madeira e o tipo de silêncio que a Markt não oferece em nenhum horário.
Foto: Marc Ryckaert / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
Um roteiro com 5 paradas em Lisboa, Portugal: o que visitar, onde comer, onde tomar café e onde beber. Cada parada traz o endereço completo e o motivo de valer o desvio, para você montar o dia na ordem que fizer sentido.
Erguido sobre uma colina com ocupação desde a Antiguidade, o Castelo de São Jorge foi cidadela moura antes de ser conquistado por Dom Afonso Henriques em 1147 e servir como residência real. Hoje suas muralhas e terraços oferecem uma das vistas mais completas sobre o Tejo e a Baixa.
Endereço: Rua de Santa Cruz do Castelo, Lisboa, Portugal
2. Miradouro da Senhora do Monte
Foto: Wikimedia Commons
No topo da colina da Graça, o Miradouro da Senhora do Monte é considerado o mirante mais alto e panorâmico de Lisboa. Dali se vê Alfama, o Castelo de São Jorge, o rio Tejo e a Ponte 25 de Abril ao fundo, principalmente ao pôr do sol.
Endereço: Rua da Senhora do Monte, Lisboa, Portugal
Onde comer
3. Time Out Market Lisboa
Foto: Wikimedia Commons
Instalado no salão do Mercado da Ribeira, de 1892, o Time Out Market reúne desde 2014 dezenas de bancas de restaurantes, bares e confeitarias selecionados pela revista Time Out. É parada certa para provar várias cozinhas lisboetas em uma só mesa comunitária.
Endereço: Avenida 24 de Julho 49, Lisboa, Portugal
Onde tomar café
4. Pastelaria Versailles
Foto: Wikimedia Commons
Aberta em 1922, a Pastelaria Versailles é um dos grandes cafés de estilo Belle Époque de Lisboa, com tetos ornamentados, vitrais e garçons de colete servindo chá da tarde. Continua sendo um ponto de encontro de bairro, cheio de estudantes e moradores das Avenidas Novas.
Endereço: Avenida da República 15A, Lisboa, Portugal
Onde beber
5. Pavilhão Chinês
Foto: Wikimedia Commons
Aberto em 1986 numa antiga mercearia do início do século 20, o Pavilhão Chinês esconde vários salões lotados de bonecos, brinquedos antigos e curiosidades reunidas pelo próprio dono. A entrada é por uma porta vermelha, tocando a campainha, no Príncipe Real.
Criada pelo artista chileno Jorge Selarón a partir de 1990, a escadaria liga os bairros da Lapa e Santa Teresa com 215 degraus cobertos por azulejos vindos de mais de 120 países. Está aberta 24 horas e é um dos símbolos mais fotografados do Rio.
Foto: Rjcastillo / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Um ponto bem instagramável
Onde fica
Escadaria SelarónPonto Turístico Rua Manuel Carneiro, Santa Teresa, Rio de Janeiro, Brasil
Um roteiro com 4 paradas em Cracóvia, Polônia: o que visitar, onde comer, onde tomar café e onde beber. Cada parada traz o endereço completo e o motivo de valer o desvio, para você montar o dia na ordem que fizer sentido.
Fique na Praça Principal de Cracóvia esperando dar a hora cheia. Do alto da torre mais alta da Basílica de Santa Maria, uma janela se abre e um trompetista toca uma melodia curta. Você vai ouvi-la duas, três vezes — e nas quatro direções. E as quatro vezes vão terminar do mesmo jeito estranho: no meio de uma nota, sem resolução, como se alguém tivesse arrancado o instrumento da boca do músico.
É o hejnał mariacki, e ele acontece a cada hora, 24 horas por dia, 365 dias por ano. A interrupção não é falha nem estilo: segundo a tradição, ela lembra um trompetista do século XIII que tocava o alarme para avisar a cidade de um ataque mongol e foi atingido na garganta por uma flecha antes de terminar. A cidade foi avisada. Ele, não terminou.
A basílica ao redor dessa cena tem outro tesouro, este perfeitamente documentado. No altar-mor está o retábulo esculpido em madeira por Veit Stoss — Wit Stwosz, para os poloneses —, entalhado entre 1477 e 1489. Stoss era alemão de nascimento, mas morou e trabalhou em Cracóvia por mais de vinte anos, e a obra que deixou é uma das peças-chave da escultura gótica europeia: figuras em tamanho quase natural, dobras de tecido que parecem pesar, rostos que não idealizam nada.
Repare também nas duas torres da fachada, de alturas visivelmente diferentes — a assimetria é uma das assinaturas visuais da cidade. Em 1978, a basílica entrou para o Patrimônio Mundial da UNESCO junto com todo o Centro Histórico de Cracóvia.
Vale programar a visita para chegar alguns minutos antes da hora cheia, na praça, e só depois entrar. O interior explica a arquitetura; a trombeta explica a cidade.
Sobre a porta de um sobrado da Praça Principal de Cracóvia está gravada uma data: 1364. É o ano em que, segundo a tradição, o rico comerciante Mikołaj Wierzynek ofereceu ali um banquete em nome do rei Casimiro III, o Grande — a ocasião era o casamento de uma neta do rei com Carlos IV de Luxemburgo, e à mesa teriam se sentado, entre outros, o rei Luís da Hungria, Valdemar IV da Dinamarca e Pedro de Chipre.
É a festa mais famosa da história polonesa. E é justo dizer o que a maioria dos folhetos omite: a única fonte que a descreve é uma crônica de Jan Długosz, escrita cerca de um século depois do evento. O banquete pode muito bem ter acontecido; provado documentalmente, na acepção estrita, ele não está. Vale também não confundir as coisas — o restaurante atual não funciona ininterruptamente desde o século XIV. O que ele herdou foi o endereço, o nome e a história.
Se a lenda ganhou vida própria, boa parte do crédito é de Jan Matejko, que em 1877 pintou Uczta u Wierzynka, "O Banquete em Wierzynek", em óleo sobre painel — a imagem que fixou a cena na cabeça de gerações de poloneses.
A casa de hoje ocupa quatro andares, com capacidade para cerca de 200 pessoas distribuídas em oito salas de nomes próprios: os Salões Pompeianos italianos, a Sala Tatra, a Sala do Relógio, a Sala dos Cavaleiros, a Câmara da Imaginação. A cozinha é polonesa de tradição, com apresentação contemporânea.
Reserve com antecedência e peça uma sala específica ao reservar — a diferença entre os ambientes é grande, e é para isso que se vai a um lugar que decidiu vender 660 anos de história junto com o jantar.
Endereço: Rynek Główny 16, 31-008 Cracóvia, Polônia
Em 1895, um confeiteiro chamado Jan Apolinary Michalik abriu na rua Floriańska, em Cracóvia, um estabelecimento que registrou como Cukiernia Lwowska — a Confeitaria de Lviv. O nome oficial não pegou. O que pegou foi o apelido, porque no começo Michalik só tinha dinheiro para alugar uma única sala nos fundos, sem nenhuma janela. Os fregueses passaram a chamar aquilo de Jama Michalika: a Toca do Michalik. É assim que a casa se chama até hoje.
A localização era estratégica: a poucos passos ficava a Academia de Belas-Artes. Michalik teve então a ideia que definiria o lugar — convidou os estudantes a comer de graça, em troca de pequenos trabalhos deles. Os alunos pagavam a conta em desenhos, caricaturas, painéis. O café foi se cobrindo por dentro com o que os artistas deixavam, e o que era um arranjo de sobrevivência virou acervo.
Em 1905, o salão recebeu o cabaré Zielony Balonik — o Balão Verde —, que se apresentou regularmente ali até 1912 e esporadicamente até 1915. Foi um dos pontos altos do movimento Młoda Polska, a Jovem Polônia, e um dos raros espaços em que a boemia local pôde satirizar quase tudo à vontade.
O interior continua sendo o argumento principal. É Art Nouveau de verdade, com peças de artistas como Karol Frycz e Kazimierz Sichulski: espelhos ornamentados, vitrais, luminárias de época, marcenaria escura. Boa parte da atmosfera é a mesma do início dos anos 1900.
Vá pelo salão antigo, não pela parte da frente. E aceite que aqui o café custa o preço de um endereço histórico — o que você está comprando, além da bebida, é uma sala que nunca foi redecorada.
Endereço: ul. Floriańska 45, 31-019 Cracóvia, Polônia
Onde beber
4. Piwnica pod Baranami
Foto: Zygmunt Put / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
No número 27 da Praça Principal de Cracóvia fica o Palácio Pod Baranami — "Sob os Carneiros". Quem passa vê uma fachada nobre e um portão. O que interessa está embaixo: os porões abobadados onde, em 1956, um jovem de 26 anos chamado Piotr Skrzynecki montou um clube estudantil que viraria a instituição mais insolente da Polônia comunista.
A Piwnica pod Baranami — literalmente "o Porão sob os Carneiros" — começou a funcionar em 26 de maio de 1956, e a primeira apresentação aconteceu em dezembro daquele ano. Por mais de três décadas, foi o cabaré político mais conhecido do país: canção, dança e esquete usados sistematicamente para ridicularizar o regime, num período em que fazer isso em público exigia cálculo fino sobre o que a censura toleraria naquela semana.
Skrzynecki (1930–1997) era o mestre de cerimônias e a alma do lugar, e sua morte gerou o boato — repetido até hoje — de que a Piwnica havia fechado. Não fechou. O cabaré continua em atividade nos mesmos porões.
Hoje o endereço funciona em duas camadas: o cabaré, com programação própria, e o bar no subsolo, onde dá para beber sob as abóbadas de pedra sem compromisso com nenhum espetáculo. O ambiente é escuro, apinhado de cartazes e retratos, e não faz o menor esforço para parecer moderno — o que, aqui, é exatamente o ponto.
Confira a programação antes de ir: noite de cabaré e noite de bar comum são experiências bem diferentes, e a primeira costuma exigir ingresso.
Endereço: Rynek Główny 27, 31-010 Cracóvia, Polônia
Seja o primeiro a comentar.