Há uma elevação de calcário à beira do rio Vístula, no sul de Cracóvia, que a Polônia trata como se fosse um documento constitucional feito de pedra. Chama-se Wawel. Sobre ela ficam uma catedral e um castelo, e não é exagero dizer que quase tudo o que o país entende por si mesmo passou por ali: as coroações, os enterros, a humilhação da ocupação estrangeira e a decisão nacional de reconstruir tudo, tijolo por tijolo.
A diocese de Cracóvia foi fundada por volta do ano 1000, e desde então houve igreja em Wawel. A que se vê hoje é essencialmente gótica, do século XIV, mas o prédio não esconde as camadas: restam vestígios românicos das construções anteriores, e sobre o gótico vieram capelas renascentistas, acréscimos barrocos e intervenções neoclássicas. É menos um edifício do que uma pilha cronológica.
A catedral onde se virava rei
A Catedral de Wawel foi o palco da maioria das coroações e dos funerais reais da Polônia. Nas criptas repousam monarcas que qualquer estudante polonês reconhece de imediato: Casimiro III, o Grande, que reformou o direito e a economia do reino no século XIV; Vladislau II Jagelão, fundador da dinastia que uniu Polônia e Lituânia; João III Sobieski, o rei que comandou a cavalaria em Viena, em 1683.
Essa concentração faz da catedral algo que poucos países têm num só endereço: uma necrópole real e, ao mesmo tempo, um panteão nacional. Não é um museu de reis mortos — é onde a continuidade do Estado polonês foi encenada, século após século, diante de quem importava.
Zygmunt, o sino de onze toneladas
Na torre do sino da catedral está pendurado o objeto mais famoso da colina. O Dzwon Zygmunt, o sino Zygmunt, foi fundido em Cracóvia em 1520 pelo fundidor Hans Behem, vindo de Nuremberg. Tem cerca de 2,5 metros de diâmetro, 2 metros de altura e pesa aproximadamente 11 toneladas — desde a fundição, foi o maior sino da Polônia.
Quem o encomendou foi o rei Sigismundo I, o Velho, com uma instrução registrada: que o sino tocasse não só para a glória de Deus, mas também para a glória da Casa dos Jagelões e do Reino da Polônia. Era propaganda de Estado em bronze, e funcionou. Zygmunt não toca por hora nem por missa comum. Soa nas grandes festas religiosas e em momentos de peso nacional. No passado, anunciava o nascimento de filhos dos reis e se despedia dos monarcas que partiam para a última viagem. Quando os poloneses ouvem Zygmunt, sabem que algo aconteceu.
Quando Wawel virou quartel
A parte da história que os folhetos costumam abreviar é a do século XIX. Em 1846, com a extinção da Cidade Livre de Cracóvia, Wawel foi convertido em cidadela austríaca. A colina real virou instalação militar: primeiro hospital, depois quartel. O exército austríaco levantou estruturas defensivas e demoliu boa parte do casario medieval que existia no alto da colina. O símbolo máximo da soberania polonesa passou décadas ocupado pela tropa de um império que havia repartido o país.
Os austríacos deixaram Wawel entre 1905 e 1911, e começou então uma das maiores obras de restauro da Europa Central. A catedral foi restaurada na virada do século; a conservação do castelo, conduzida primeiro pelo arquiteto Zygmunt Hendel, depois por Adolf Szyszko-Bohusz de 1916 até a Segunda Guerra, e mais tarde sobretudo por Alfred Majewski, se estendeu por décadas. O castelo se tornou museu em 1930. Em 1978, o Centro Histórico de Cracóvia — Wawel incluído — entrou na primeira lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.
Perguntas frequentes
Quantos reis poloneses estão sepultados em Wawel? A catedral abriga a maior parte dos monarcas da Polônia, entre eles Casimiro III, o Grande, Vladislau II Jagelão e João III Sobieski, além de figuras nacionais posteriores. É o principal panteão do país.
Dá para ouvir o sino Zygmunt em qualquer visita? Não. Ele é tocado apenas nas festas religiosas mais importantes e em ocasiões de significado nacional. Fora dessas datas, é possível subir à torre e ver o sino, mas não ouvi-lo em funcionamento.
E a lenda do dragão de Wawel? A história do Smok Wawelski, o dragão que viveria numa caverna sob a colina, é folclore polonês antigo, não registro histórico. A caverna existe de verdade e pode ser visitada; o dragão, não.



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