Em poucas horas dá para percorrer os salões mais famosos do Palácio Real de Madrid — mas para dormir uma noite em cada um dos 3.418 cômodos do prédio, seriam necessários quase dez anos. Com 135 mil metros quadrados, ele é hoje a maior residência real em uso da Europa, à frente até do Palácio de Versalhes em número de salas. E só existe porque o palácio anterior, o Alcázar dos Áustrias, virou cinzas numa véspera de Natal.
O incêndio que mudou a história de Madri
Na noite de 24 de dezembro de 1734, um incêndio começou no Alcázar Real de Madrid, a antiga fortaleza de origem mourisca que os reis da Casa de Áustria haviam transformado em palácio ao longo de séculos. As chamas se alastraram pelas galerias de madeira do edifício e levaram quatro dias para serem controladas, destruindo boa parte do acervo artístico da coroa espanhola — entre as perdas estão obras de Velázquez, Ticiano e Rubens que nunca puderam ser recuperadas. O rei Felipe V, que estava com a corte no Palácio de El Pardo quando recebeu a notícia, decidiu não reconstruir o Alcázar no mesmo estilo: no mesmo terreno, encomendou um palácio novo, maior e, sobretudo, incombustível.
O palácio ocupa o mesmo terreno onde ficava o antigo Alcázar dos Áustrias, destruído pelo fogo em 1734.
Uma reconstrução pensada para nunca mais pegar fogo
O primeiro projeto do novo palácio ficou a cargo do arquiteto italiano Filippo Juvarra, convidado pessoalmente por Felipe V, mas ele morreu em 1736 antes de a obra sequer começar. Seu discípulo, o também italiano Giovanni Battista Sacchetti, assumiu o projeto com um desenho mais contido que o original e lançou a primeira pedra em 6 de abril de 1738. Para evitar uma tragédia como a de 1734, Sacchetti eliminou a madeira da estrutura sempre que possível: as paredes foram erguidas em granito da serra de Guadarrama e pedra branca de Colmenar, e os tetos ganharam abóbadas de alvenaria em vez de vigas de madeira. O material só aparece em portas, janelas e na armação do telhado. A obra levou 17 anos e ficou tecnicamente concluída em 1755, embora o palácio só fosse efetivamente ocupado quase uma década mais tarde.
- 3.418 cômodos distribuídos em 135.000 m² de área construída
- 17 anos de obra, entre o lançamento da primeira pedra em 1738 e a conclusão em 1755
- Estrutura erguida quase inteiramente em pedra e tijolo, sem madeira nas paredes e tetos
- Considerado o maior palácio real em uso da Europa em número de salas, à frente de Versalhes
De residência real a palco de cerimônias
O primeiro monarca a efetivamente morar no novo palácio foi Carlos III, filho de Felipe V, que o inaugurou em 1º de dezembro de 1764 e se tornou seu primeiro morador oficial. Dali em diante, o edifício foi residência da família real espanhola por mais de um século e meio, até 14 de abril de 1931, quando o rei Afonso XIII deixou o país às pressas após a proclamação da Segunda República Espanhola — episódio que marcou o fim do uso do palácio como moradia efetiva de um monarca. Com a restauração da monarquia em 1975, o rei Juan Carlos I optou por não voltar a residir ali, instalando-se no mais modesto Palácio da Zarzuela, na periferia de Madri, decisão mantida até hoje pelo rei Felipe VI.
Hoje o palácio não tem moradores: é usado apenas para cerimônias oficiais do Estado espanhol.
Hoje o Palácio Real de Madrid não abriga nenhum morador: é usado exclusivamente para cerimônias de Estado, recepções a chefes de governo estrangeiros e eventos oficiais da coroa espanhola, enquanto a maior parte de suas salas — incluindo a Armaria Real e a Farmácia Real, ambas remontando ao século 18 — permanece aberta à visitação pública. Menos de dois séculos depois de ter sido erguido para nunca mais queimar, o palácio que nasceu das cinzas de um incêndio se tornou um dos maiores museus vivos da monarquia europeia.



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