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📍 Cracóvia
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A trombeta que para no meio em Cracóvia, de hora em hora, há séculos

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Fique na Praça Principal de Cracóvia esperando dar a hora cheia. Do alto da torre mais alta da Basílica de Santa Maria, uma janela se abre e um trompetista toca uma melodia curta. Você vai ouvi-la duas, três vezes — e nas quatro direções. E as quatro vezes vão terminar do mesmo jeito estranho: no meio de uma nota, sem resolução, como se alguém tivesse arrancado o instrumento da boca do músico.

É o hejnał mariacki, e ele acontece a cada hora, 24 horas por dia, 365 dias por ano. A interrupção não é falha nem estilo: segundo a tradição, ela lembra um trompetista do século XIII que tocava o alarme para avisar a cidade de um ataque mongol e foi atingido na garganta por uma flecha antes de terminar. A cidade foi avisada. Ele, não terminou.

A basílica ao redor dessa cena tem outro tesouro, este perfeitamente documentado. No altar-mor está o retábulo esculpido em madeira por Veit Stoss — Wit Stwosz, para os poloneses —, entalhado entre 1477 e 1489. Stoss era alemão de nascimento, mas morou e trabalhou em Cracóvia por mais de vinte anos, e a obra que deixou é uma das peças-chave da escultura gótica europeia: figuras em tamanho quase natural, dobras de tecido que parecem pesar, rostos que não idealizam nada.

Repare também nas duas torres da fachada, de alturas visivelmente diferentes — a assimetria é uma das assinaturas visuais da cidade. Em 1978, a basílica entrou para o Patrimônio Mundial da UNESCO junto com todo o Centro Histórico de Cracóvia.

Vale programar a visita para chegar alguns minutos antes da hora cheia, na praça, e só depois entrar. O interior explica a arquitetura; a trombeta explica a cidade.

Fachada e torres desiguais da Basílica de Santa Maria, em Cracóvia

Foto: Jar.ciurus / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 pl)

Onde fica

  • Basílica de Santa Maria (Kościół Mariacki) Ponto Turístico
    plac Mariacki 5, 31-042 Cracóvia, Polônia
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📍 Praga
📍 Dica rápida

O Relógio Astronômico de Praga: 600 anos batendo as horas sem parar

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Na parede sul da Prefeitura da Cidade Velha de Praga, um mostrador de bronze e madeira entalhada mede o tempo do jeito que os astrônomos medievais entendiam o universo — com a Terra parada no centro e o Sol girando ao redor dela. É o Orloj, o relógio astronômico mais antigo do mundo ainda em funcionamento, instalado em 1410.

O mecanismo original saiu das mãos do relojoeiro Mikuláš de Kadaň, com projeto do professor de matemática e astronomia Jan Šindel, da Universidade Carolina. Décadas depois, por volta de 1490, ganhou o calendário na parte inferior e os relevos góticos que hoje decoram a fachada; as 12 estatuetas dos apóstolos, que desfilam em uma pequena janela a cada hora cheia, só foram incorporadas entre 1787 e 1791.

Existe uma lenda sombria ligada ao relógio: contam que os conselheiros da cidade, temendo que o relojoeiro construísse uma obra igual para outra cidade, mandaram cegá-lo assim que terminou o trabalho — sem qualquer registro histórico que confirme a história, que segue repetida por guias turísticos até hoje.

A cada hora, entre 9h e 21h, o mostrador ganha vida: a Morte, representada por um esqueleto, puxa uma corda para tocar um sino, enquanto os apóstolos desfilam na janelinha acima do relógio — um espetáculo mecânico que atrai multidões na Praça da Cidade Velha há séculos.

Relógio Astronômico de Praga (Orloj) na fachada da Prefeitura da Cidade Velha

Foto: Foto: AlfvanBeem / Wikimedia Commons (CC0)

Onde fica

  • Relógio Astronômico de Praga (Orloj) — Prefeitura da Cidade Velha Ponto Turístico
    Staroměstské náměstí 1/3, 110 00 Praha 1, República Tcheca
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📍 Marrakech
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Madrasa Ben Youssef: a maior escola corânica do Magrebe tinha 900 alunos em 130 celas

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Por mais de quatro séculos, a Madrasa Ben Youssef foi a maior escola islâmica do Magrebe — chegou a abrigar até 900 estudantes distribuídos em apenas 130 celas-dormitório. Hoje, o que resta é um dos exemplos mais completos de arquitetura saadiana do Marrocos, coberto do chão ao teto por talha em gesso e mosaico de azulejos.

Fundada no século XIV, reconstruída no século XVI

A primeira madrasa no local remonta ao século XIV, época da dinastia merínida. O edifício que existe hoje, no entanto, é obra do sultão saadiano Abdallah al-Ghalib, que encomendou sua reconstrução completa entre 1564 e 1565.

A maior escola corânica do Magrebe

Depois da reconstrução saadiana, a Ben Youssef se tornou o maior colégio islâmico do Magrebe, formando estudantes em estudos corânicos, direito islâmico e outras disciplinas. Em seu auge, chegou a abrigar até 900 alunos, alojados em 130 pequenas celas distribuídas ao redor do pátio central — uma densidade que hoje impressiona qualquer visitante.

Do fechamento à restauração

A madrasa deixou de funcionar como colégio islâmico em 1960, mas permaneceu aberta à visitação como um dos edifícios mais bem preservados de Marrakech. Fechou para uma nova restauração em novembro de 2018 e reabriu ao público em abril de 2022.

Pátio central da Madrasa Ben Youssef, em Marrakech

Foto: Ymblanter / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Onde fica

  • Madrasa Ben Youssef Histórico
    Place Ben Youssef, Marrakech 40000, Marrocos
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Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim: a ilha do diabo que guardava Florianópolis dos espanhóis

Vista panorâmica da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim na Baía Norte de Florianópolis

Foto: Rodbats / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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"Pequena ilha do diabo" — é isso, aproximadamente, o que significa Anhatomirim em tupi. O nome sombrio acabou sendo profético: a fortaleza erguida nessa ilhota da Baía Norte, na Grande Florianópolis, passaria por um dos episódios mais sangrentos da história catarinense antes de se tornar o sítio histórico tranquilo que hoje recebe visitantes de escuna.

Um brigadeiro português contra a ameaça espanhola

A construção da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim começou em 1739, sob o comando do brigadeiro português José da Silva Paes, engenheiro militar responsável por todo o sistema de defesa da Ilha de Santa Catarina no século XVIII. Erguida em pedra, com traços que remetem à arquitetura renascentista das fortificações europeias, Santa Cruz foi projetada como o vértice principal de um sistema defensivo triangular que protegia a entrada da Baía Norte contra ataques espanhóis vindos do sul do continente.

Esse sistema reunia três fortalezas complementares, que cruzavam seus canhões sobre o canal de acesso à ilha:

  • Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, na ilha de mesmo nome — a mais robusta das três
  • Fortaleza de São José da Ponta Grossa, na península de Jurerê
  • Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, na Ilha de Ratones Grande

Curiosamente, apesar de todo o investimento militar português, os registros históricos indicam que Santa Cruz nunca chegou a disparar contra um invasor: durante a invasão espanhola de 1777, quando forças de Buenos Aires tomaram a Ilha de Santa Catarina, a fortaleza não foi utilizada em combate. Depois desse episódio, o sistema de defesa entrou em declínio e foi progressivamente abandonado ao longo do século XIX.

Muralhas de pedra e canhões da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim

As muralhas do século XVIII, restauradas a partir dos anos 1970

Sangue na fortaleza: a Revolta Federalista de 1894

Foi mais de um século depois de abandonada como posto militar que Anhatomirim viveu seu capítulo mais dramático. Em 1894, durante a Revolta Federalista — o violento conflito civil que opôs federalistas a forças ligadas ao governo de Floriano Peixoto —, a fortaleza voltou a ter uso oficial, desta vez como prisão e local de execuções sumárias de prisioneiros políticos capturados em Santa Catarina.

Em 24 de abril de 1894, por ordem de Floriano Peixoto, um grupo de prisioneiros foi fuzilado nas dependências da fortaleza. Entre os executados estava o Barão de Batovi, oficial que havia lutado como herói na Guerra do Paraguai décadas antes e que, na Revolta Federalista, se posicionou do lado derrotado. O episódio deixou uma marca duradoura na memória local e é hoje um dos pontos mais lembrados por historiadores que estudam o período da consolidação da República no Brasil.

Ruínas, tombamento e o que resta hoje

Depois de décadas de abandono e deterioração, a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo IPHAN em 1938. Ainda assim, a recuperação efetiva das ruínas só começou nos anos 1970, quando a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) assumiu um papel de protagonismo na restauração do conjunto. Em 1979, um convênio formal entre a UFSC, o Ministério da Marinha e o IPHAN estabeleceu a guarda e a administração do monumento, acelerando as obras de recuperação das muralhas, do quartel e da capela internos.

Vista aérea da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim cercada pelo mar

Hoje administrada pela UFSC como parte do Projeto Fortalezas da Ilha de Santa Catarina, a fortaleza só é acessível por mar — passeios de escuna partem de pontos da Grande Florianópolis, como a região de Canasvieiras e Jurerê, para atravessar a Baía Norte até a ilha. Quem desembarca encontra um raro conjunto militar português do século XVIII quase completo: muralhas, baluartes, quartel, capela e a antiga casa do comandante, hoje transformados em museu a céu aberto. Da fortaleza que nunca disparou um tiro contra invasores restou, paradoxalmente, uma das histórias mais violentas do litoral catarinense — e um dos monumentos coloniais mais bem preservados do Brasil.

Referências

Este texto é da redação do Tem Café Aí. Abaixo, onde conferir os dados do lugar e de onde vem a foto — não é a origem do texto, é onde você pode se aprofundar.

Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim — Wikipédia

Foto: Rodbats / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Entrada baratinha e um passeio de barco bem agradável para acessar a Fortaleza.

Onde fica

  • Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim Histórico
    Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, Governador Celso Ramos, Santa Catarina

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