"Pequena ilha do diabo" — é isso, aproximadamente, o que significa Anhatomirim em tupi. O nome sombrio acabou sendo profético: a fortaleza erguida nessa ilhota da Baía Norte, na Grande Florianópolis, passaria por um dos episódios mais sangrentos da história catarinense antes de se tornar o sítio histórico tranquilo que hoje recebe visitantes de escuna.
Um brigadeiro português contra a ameaça espanhola
A construção da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim começou em 1739, sob o comando do brigadeiro português José da Silva Paes, engenheiro militar responsável por todo o sistema de defesa da Ilha de Santa Catarina no século XVIII. Erguida em pedra, com traços que remetem à arquitetura renascentista das fortificações europeias, Santa Cruz foi projetada como o vértice principal de um sistema defensivo triangular que protegia a entrada da Baía Norte contra ataques espanhóis vindos do sul do continente.
Esse sistema reunia três fortalezas complementares, que cruzavam seus canhões sobre o canal de acesso à ilha:
- Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, na ilha de mesmo nome — a mais robusta das três
- Fortaleza de São José da Ponta Grossa, na península de Jurerê
- Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, na Ilha de Ratones Grande
Curiosamente, apesar de todo o investimento militar português, os registros históricos indicam que Santa Cruz nunca chegou a disparar contra um invasor: durante a invasão espanhola de 1777, quando forças de Buenos Aires tomaram a Ilha de Santa Catarina, a fortaleza não foi utilizada em combate. Depois desse episódio, o sistema de defesa entrou em declínio e foi progressivamente abandonado ao longo do século XIX.
As muralhas do século XVIII, restauradas a partir dos anos 1970
Sangue na fortaleza: a Revolta Federalista de 1894
Foi mais de um século depois de abandonada como posto militar que Anhatomirim viveu seu capítulo mais dramático. Em 1894, durante a Revolta Federalista — o violento conflito civil que opôs federalistas a forças ligadas ao governo de Floriano Peixoto —, a fortaleza voltou a ter uso oficial, desta vez como prisão e local de execuções sumárias de prisioneiros políticos capturados em Santa Catarina.
Em 24 de abril de 1894, por ordem de Floriano Peixoto, um grupo de prisioneiros foi fuzilado nas dependências da fortaleza. Entre os executados estava o Barão de Batovi, oficial que havia lutado como herói na Guerra do Paraguai décadas antes e que, na Revolta Federalista, se posicionou do lado derrotado. O episódio deixou uma marca duradoura na memória local e é hoje um dos pontos mais lembrados por historiadores que estudam o período da consolidação da República no Brasil.
Ruínas, tombamento e o que resta hoje
Depois de décadas de abandono e deterioração, a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo IPHAN em 1938. Ainda assim, a recuperação efetiva das ruínas só começou nos anos 1970, quando a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) assumiu um papel de protagonismo na restauração do conjunto. Em 1979, um convênio formal entre a UFSC, o Ministério da Marinha e o IPHAN estabeleceu a guarda e a administração do monumento, acelerando as obras de recuperação das muralhas, do quartel e da capela internos.
Hoje administrada pela UFSC como parte do Projeto Fortalezas da Ilha de Santa Catarina, a fortaleza só é acessível por mar — passeios de escuna partem de pontos da Grande Florianópolis, como a região de Canasvieiras e Jurerê, para atravessar a Baía Norte até a ilha. Quem desembarca encontra um raro conjunto militar português do século XVIII quase completo: muralhas, baluartes, quartel, capela e a antiga casa do comandante, hoje transformados em museu a céu aberto. Da fortaleza que nunca disparou um tiro contra invasores restou, paradoxalmente, uma das histórias mais violentas do litoral catarinense — e um dos monumentos coloniais mais bem preservados do Brasil.

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