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Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim: a ilha do diabo que guardava Florianópolis dos espanhóis

Vista panorâmica da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim na Baía Norte de Florianópolis

Foto: Wikimedia Commons

"Pequena ilha do diabo" — é isso, aproximadamente, o que significa Anhatomirim em tupi. O nome sombrio acabou sendo profético: a fortaleza erguida nessa ilhota da Baía Norte, na Grande Florianópolis, passaria por um dos episódios mais sangrentos da história catarinense antes de se tornar o sítio histórico tranquilo que hoje recebe visitantes de escuna.

Um brigadeiro português contra a ameaça espanhola

A construção da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim começou em 1739, sob o comando do brigadeiro português José da Silva Paes, engenheiro militar responsável por todo o sistema de defesa da Ilha de Santa Catarina no século XVIII. Erguida em pedra, com traços que remetem à arquitetura renascentista das fortificações europeias, Santa Cruz foi projetada como o vértice principal de um sistema defensivo triangular que protegia a entrada da Baía Norte contra ataques espanhóis vindos do sul do continente.

Esse sistema reunia três fortalezas complementares, que cruzavam seus canhões sobre o canal de acesso à ilha:

  • Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, na ilha de mesmo nome — a mais robusta das três
  • Fortaleza de São José da Ponta Grossa, na península de Jurerê
  • Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, na Ilha de Ratones Grande

Curiosamente, apesar de todo o investimento militar português, os registros históricos indicam que Santa Cruz nunca chegou a disparar contra um invasor: durante a invasão espanhola de 1777, quando forças de Buenos Aires tomaram a Ilha de Santa Catarina, a fortaleza não foi utilizada em combate. Depois desse episódio, o sistema de defesa entrou em declínio e foi progressivamente abandonado ao longo do século XIX.

Muralhas de pedra e canhões da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim

As muralhas do século XVIII, restauradas a partir dos anos 1970

Sangue na fortaleza: a Revolta Federalista de 1894

Foi mais de um século depois de abandonada como posto militar que Anhatomirim viveu seu capítulo mais dramático. Em 1894, durante a Revolta Federalista — o violento conflito civil que opôs federalistas a forças ligadas ao governo de Floriano Peixoto —, a fortaleza voltou a ter uso oficial, desta vez como prisão e local de execuções sumárias de prisioneiros políticos capturados em Santa Catarina.

Em 24 de abril de 1894, por ordem de Floriano Peixoto, um grupo de prisioneiros foi fuzilado nas dependências da fortaleza. Entre os executados estava o Barão de Batovi, oficial que havia lutado como herói na Guerra do Paraguai décadas antes e que, na Revolta Federalista, se posicionou do lado derrotado. O episódio deixou uma marca duradoura na memória local e é hoje um dos pontos mais lembrados por historiadores que estudam o período da consolidação da República no Brasil.

Ruínas, tombamento e o que resta hoje

Depois de décadas de abandono e deterioração, a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo IPHAN em 1938. Ainda assim, a recuperação efetiva das ruínas só começou nos anos 1970, quando a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) assumiu um papel de protagonismo na restauração do conjunto. Em 1979, um convênio formal entre a UFSC, o Ministério da Marinha e o IPHAN estabeleceu a guarda e a administração do monumento, acelerando as obras de recuperação das muralhas, do quartel e da capela internos.

Vista aérea da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim cercada pelo mar

Hoje administrada pela UFSC como parte do Projeto Fortalezas da Ilha de Santa Catarina, a fortaleza só é acessível por mar — passeios de escuna partem de pontos da Grande Florianópolis, como a região de Canasvieiras e Jurerê, para atravessar a Baía Norte até a ilha. Quem desembarca encontra um raro conjunto militar português do século XVIII quase completo: muralhas, baluartes, quartel, capela e a antiga casa do comandante, hoje transformados em museu a céu aberto. Da fortaleza que nunca disparou um tiro contra invasores restou, paradoxalmente, uma das histórias mais violentas do litoral catarinense — e um dos monumentos coloniais mais bem preservados do Brasil.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Entrada baratinha e um passeio de barco bem agradável para acessar a Fortaleza.

Onde fica

  • Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim Histórico
    Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, Governador Celso Ramos, Santa Catarina

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Bar Luiz: o clássico alemão que resiste no centro do Rio desde 1887

Interior histórico do Bar Luiz, no centro do Rio de Janeiro

Foto: Wikimedia Commons

Na Rua da Carioca, uma das ruas mais movimentadas do centro histórico do Rio de Janeiro, um letreiro discreto marca a entrada de um dos bares mais antigos da cidade ainda em funcionamento. Fundado em 1887 por imigrantes alemães — inicialmente com outro nome, batizado de Bar Luiz só depois, em homenagem a um de seus proprietários —, o bar atravessou mais de 130 anos sem perder a essência: mesas de mármore, garçons de colete e uma cozinha que ainda lembra a origem germânica da casa.

Herança alemã no cardápio

O prato mais pedido até hoje é o eisbein, joelho de porco defumado e cozido lentamente, tradicionalmente servido com chucrute e purê — uma receita que atravessou gerações praticamente sem alterações. Salsichas artesanais, salada de batata e tábuas de frios completam um cardápio que remete diretamente à colônia alemã que se estabeleceu no Rio de Janeiro no fim do século XIX, muito antes de bairros como a Ilha do Governador ou Petrópolis se tornarem os destinos mais lembrados dessa imigração.

Chope gelado servido no Bar Luiz

O chope gelado é tradição na casa desde o século XIX.

Chope servido do jeito certo

Além da comida, o Bar Luiz é conhecido entre os cariocas por levar a sério o ritual do chope: a bebida é servida em canecas de vidro geladas, com uma técnica de tiragem que os frequentadores mais antigos costumam comentar como diferencial da casa. Não é incomum ver filas na porta em dias de calor, especialmente no fim da tarde, quando funcionários do entorno do centro saem do trabalho.

Um pedaço de história viva

Sobreviver a mais de um século no centro do Rio não foi trivial: o bairro passou por reformas urbanas, mudanças de perfil comercial e, mais recentemente, esvaziamento nos fins de semana, quando o centro financeiro fica mais silencioso. Ainda assim, o Bar Luiz manteve o mesmo endereço na Rua da Carioca, tornando-se um símbolo de resistência e um point tradicional de rodas de chorinho e encontros de fim de expediente.

Roda de chorinho em frente ao Bar Luiz

Rodas de chorinho são comuns na calçada em frente ao bar.

Dicas para a visita

O Bar Luiz funciona principalmente durante a semana, no horário comercial e início da noite, já que fica numa região do centro do Rio mais movimentada em dias úteis. Vale combinar a visita com um passeio pelo centro histórico, aproveitando para conhecer outros clássicos da região, como a Confeitaria Colombo, que fica a poucos minutos a pé.

Onde fica

  • Bar Luiz Bar
    Rua da Carioca, 39, Centro, Rio de Janeiro - RJ

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Rio Minho: o restaurante mais antigo do Rio de Janeiro ainda serve a sopa criada por um embaixador

Praça XV de Novembro, no Centro do Rio de Janeiro, onde fica o restaurante Rio Minho

Foto: Wikimedia Commons

São seis da tarde na Praça XV, no Centro do Rio, e um cheiro de caldo de peixe escapa por uma porta de madeira na Rua do Ouvidor. Do lado de dentro, garçons de paletó branco circulam entre toalhas engomadas e paredes com azulejos portugueses, servindo o mesmo prato que ambientava as mesas ali há mais de cem anos. É o Rio Minho, considerado o restaurante mais antigo em atividade ininterrupta da cidade, funcionando no mesmo endereço desde 1884.

Um sobrevivente da Rua do Ouvidor

O Rio Minho foi inaugurado por comerciantes portugueses no número 1 da Rua do Ouvidor — endereço que, com a renumeração da rua ao longo do século XX, corresponde hoje ao número 10, na esquina com a Praça XV de Novembro. Batizado em homenagem à província do Minho, no norte de Portugal, de onde vieram muitos de seus fundadores, o restaurante já teve diferentes donos ao longo de mais de 140 anos, mas nunca deixou de funcionar como restaurante — um recorde raro em uma região do Centro do Rio que viu desaparecer boa parte do comércio da era imperial e republicana.

A especialidade da casa sempre foi peixes e frutos do mar, num cardápio que atravessou o Império, a Proclamação da República e todas as reformas urbanas que remodelaram a Rua do Ouvidor — via que, no fim do século XIX, era o centro da vida elegante, política e boêmia da capital do país.

A sopa que virou lenda

Nenhum prato está mais associado ao Rio Minho do que a Sopa Leão Veloso. A receita nasceu no início do século XX a partir da experiência do diplomata Pedro Leão Velloso Neto (1887–1947), que, durante uma viagem à França, provou a bouillabaisse marselhesa e trouxe a ideia para o Rio de Janeiro. Adaptada pela cozinha do Rio Minho com peixes e frutos do mar locais, a sopa cremosa e encorpada recebeu o nome do embaixador e virou um clássico da gastronomia carioca, servida até hoje praticamente sem alterações na receita.

Retrato do Barão do Rio Branco, diplomata que frequentava o Rio Minho

O Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, tinha mesa cativa no Rio Minho.

Mesa de diplomatas e intelectuais

Por sua localização a poucos passos do antigo Ministério das Relações Exteriores e dos prédios públicos que cercavam a Praça XV, o Rio Minho tornou-se ponto de encontro de figuras da política e das letras desde o início do século XX. Entre os frequentadores mais célebres estão:

  • O Barão do Rio Branco, considerado o patrono da diplomacia brasileira, que tinha mesa cativa no restaurante e ali recebia colegas de trabalho e amigos;
  • O filólogo e lexicógrafo Antônio Houaiss, um dos frequentadores assíduos nas décadas seguintes;
  • Gerações de diplomatas do Itamaraty, que fizeram do salão uma extensão informal de suas reuniões de trabalho.
Sopa de peixes no estilo bouillabaisse, base da receita da Sopa Leão Veloso

A bouillabaisse marselhesa inspirou a criação da Sopa Leão Veloso.

O prédio onde o restaurante funciona também guarda parte dessa memória: o salão principal preserva móveis, azulejaria e uma atmosfera que remetem diretamente ao Rio de Janeiro do fim do século XIX, quando a Rua do Ouvidor concentrava confeitarias, livrarias e redações de jornal — um circuito que hoje sobrevive quase só em fotografias e nas paredes do Rio Minho. Reconhecido como parte do patrimônio histórico e cultural do Centro do Rio, o restaurante segue como um dos poucos elos ainda em funcionamento entre a cidade de hoje e a que existia antes das grandes reformas urbanas do início do século XX — prova de que, na culinária carioca, tradição e permanência também podem ser servidas à mesa.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Fundado em 1884, e ainda é o melhor lugar pra comer frutos do mar. A sopa leão veloso foi inventada lá.

Onde fica

  • Rio Minho Restaurante
    R. do Ouvidor, 10 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20010-150

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Ver-o-Peso: o maior mercado a céu aberto da América Latina e vitrine da culinária amazônica

Vista do mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará

Foto: Wikimedia Commons

À beira da Baía do Guajará, onde os barcos de pescadores e produtores rurais atracam desde o período colonial, o mercado Ver-o-Peso é considerado o maior mercado a céu aberto da América Latina em funcionamento contínuo. O nome vem da época colonial, quando a Coroa portuguesa mantinha ali uma casa de pesagem para cobrar impostos sobre as mercadorias que chegavam por via fluvial — literalmente, o lugar onde se ia "ver o peso" das cargas.

Origem no século XVII

O comércio no local remonta a 1625, quando os portugueses instalaram o posto de fiscalização, mas a estrutura de ferro que hoje abriga o Mercado de Ferro, um dos principais pavilhões do complexo, foi trazida da Europa e montada em 1901, seguindo a mesma técnica de importação de estruturas metálicas usada em outros mercados históricos do Brasil no início do século XX.

A porta de entrada da culinária amazônica

Mais do que um mercado comum, o Ver-o-Peso funciona como uma vitrine viva da culinária paraense: ali é possível encontrar desde peixes de água doce típicos da Amazônia, como o filhote e a pirarucu, até ervas e raízes usadas em pratos tradicionais como o tacacá e o pato no tucupi. A área de barracas de comida, conhecida por servir refeições feitas na hora com esses ingredientes regionais, atrai tanto a população local quanto turistas em busca de sabores que dificilmente encontram em outras regiões do país.

Bancas de peixe e frutas no Ver-o-Peso

Peixes amazônicos e frutas regionais são a base do comércio no mercado.

Feira das ervas e a cultura popular paraense

Um dos setores mais peculiares do Ver-o-Peso é a chamada Feira das Ervas, dedicada a plantas medicinais, banhos de cheiro e itens ligados a práticas populares e religiosas da região amazônica — um espaço que reflete a mistura de tradições indígenas, africanas e europeias que forma a cultura paraense.

Movimento no mercado Ver-o-Peso

O mercado funciona desde muito cedo, quando os barcos de pesca chegam com o produto do dia.

Dicas para a visita

O movimento começa de madrugada, quando os barcos de pesca atracam, e o ideal é chegar cedo pela manhã para ver o mercado no auge da atividade. Vale provar o tacacá servido nas barracas próximas e caminhar com atenção redobrada aos pertences pessoais, já que é uma área bastante movimentada e popular da cidade.

Onde fica

  • Mercado Ver-o-Peso Restaurante
    Boulevard Castilho França, Belém, Pará

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