Na praça Burg, ao lado da prefeitura, a Basílica do Santo Sangue não chama atenção pelo tamanho. Chama por ser dois edifícios empilhados, de séculos diferentes, e por guardar o objeto que organiza o calendário da cidade há mais de setecentos anos.
A construção é de 1134 a 1157, erguida como capela privada do conde de Flandres. A capela de baixo, dedicada a São Basílio, é românica e chegou aos dias de hoje praticamente sem alterações — pedra nua, arcos pesados, penumbra. A de cima começou românica também, foi reconstruída em gótico no fim do século XV e ganhou uma reforma neogótica no século XIX. Subir a escada entre as duas é atravessar setecentos anos de gosto arquitetônico em vinte degraus.
No andar de cima está a relíquia: um frasco que, segundo a tradição, contém um pano com sangue de Cristo, trazido de Jerusalém por Teodorico da Alsácia por volta de 1150. A análise moderna não se pronuncia sobre o conteúdo, mas identificou o recipiente — é um frasco de perfume bizantino, produzido na região de Constantinopla entre os séculos XI e XII. A peça é exposta ao público todas as sextas-feiras e nas duas semanas que antecedem a Ascensão.
É na Ascensão, porém, que a cidade inteira se mexe. Desde 1304, a relíquia é levada em procissão pelas ruas de Bruges todo ano nessa data. A Procissão do Santo Sangue reúne mais de 1.700 participantes a pé, em carroças e a cavalo, encenando passagens do Antigo Testamento, da vida de Cristo e da própria história da cidade, à frente os trinta notáveis da Confraria do Santo Sangue. O público costuma variar entre 30 mil e 45 mil pessoas. Em 2009 a UNESCO inscreveu a procissão na lista de Patrimônio Cultural Imaterial.
A igreja recebeu o título de basílica menor em 1923 e continua sendo um templo em uso — não um museu com horário de bilheteria.



Seja o primeiro a comentar.