Quem chega à Markt, a praça central de Bruges, encontra uma torre de tijolo que não disfarça nada do que passou. O campanário — Belfort, em neerlandês — está ali desde cerca de 1240. Desde então, perdeu a flecha duas vezes, encolheu dezenove metros e entortou 87 centímetros para leste. Não são defeitos escondidos por trás de um restauro caprichado: é a biografia da cidade escrita em altura.
A torre era o cofre da cidade
O campanário não foi construído como ornamento nem como mirante. Era, ao mesmo tempo, o alarme e o cofre de Bruges. Nos andares altos ficava a sala do tesouro, e o que ela guardava não era ouro: eram as cartas e os selos que provavam os privilégios comerciais da cidade. No século XIII, Bruges era uma das praças mercantis mais ricas da Europa, e esse direito existia em pergaminho. Perder os documentos era perder o direito de ser o que se era.
Foi quase o que aconteceu em 1280, quando um incêndio destruiu a metade superior da torre e consumiu o arquivo da cidade. A sala do tesouro sobreviveu como cômodo e hoje faz parte do percurso de visita, ao lado de cartas e selos medievais, do tambor de música e do teclado do carrilhão.
Duas flechas perdidas e nenhuma reposta
A torre foi crescendo em etapas. Entre 1483 e 1487 ganhou o andar octogonal que hoje remata o conjunto — a parte mais leve e mais rendilhada, visivelmente de outra época que a base maciça de tijolo. Em cima dele havia uma flecha de madeira.
Em 1493, um raio derrubou essa flecha e destruiu os sinos. Foi reconstruída, e a nova durou cerca de dois séculos e meio, até 1741, quando outro incêndio a consumiu. Dessa vez ninguém reergueu nada. Em 1822 acrescentaram no topo um parapeito de pedra vazada, em estilo neogótico, e a torre ficou assim: 83 metros, contra os 102 que já teve. Os dezenove metros que faltam são exatamente a altura das flechas que Bruges desistiu de repor.
Os 47 sinos
O carrilhão chegou no século XVI, e a partir de 1604 há registro do emprego anual de um carrilhonista — um cargo público, pago pela cidade, que existe até hoje. Em 1675 o instrumento tinha 35 sinos fundidos por Melchior de Haze. O incêndio de 1741 levou esse conjunto embora, e a reposição coube a Joris Dumery; 26 dos sinos que ele fundiu continuam em uso.
O carrilhão atual reúne 47 sinos, cerca de 27,5 toneladas de bronze no alto de uma torre que já se inclina para leste. Vão de peças de menos de um quilo ao bourdon, chamado Maria — também conhecido como Triomfklok —, que balança e toca em datas específicas, entre elas o aniversário do rei. Não é gravação nem automatismo: há alguém tocando um teclado de madeira com os punhos e os pés. Quem quiser ouvir, o carrilhão é tocado às quartas, aos sábados e aos domingos, das 11h ao meio-dia.
366 degraus
A subida é por uma escada em espiral estreita, de 366 degraus, sem elevador e sem atalho. No caminho passa-se pela antiga sala do tesouro e pela sala do mecanismo, onde o tambor de música gira e aciona os martelos. Lá em cima, a recompensa é a planta de Bruges inteira — a malha medieval, os canais, os telhados de tijolo — e, se a hora ajudar, os 47 sinos tocando a poucos metros da cabeça.
O campanário entrou na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1999, como parte do conjunto "Campanários da Bélgica e da França"; no ano seguinte, o centro histórico de Bruges foi inscrito como um todo. Para o público mais recente, porém, a torre é sobretudo o cenário do filme Na Mira do Chefe (2008), que se passa quase inteiro na cidade e termina onde era de esperar: nos 366 degraus.
Perguntas frequentes
Quantos degraus tem o campanário de Bruges? São 366 degraus até o topo, por uma escada em espiral estreita. Não há elevador.
Qual é a altura da torre? Hoje 83 metros. Antes de perder a última flecha, no incêndio de 1741, chegava a 102 metros.
Dá para ouvir o carrilhão sem subir? Dá. Os concertos são tocados às quartas, sábados e domingos, das 11h ao meio-dia, e ouvem-se da própria Markt.
A torre está mesmo torta? Está: a inclinação medida é de 87 centímetros para leste.












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