Poucas capitais brasileiras podem dizer que já usaram cinco nomes diferentes em pouco mais de três séculos — e que devem o nome atual a um crime passional que ajudou a derrubar um presidente da República. Por trás do cartão-postal de praias e coqueiros, João Pessoa carrega uma das histórias de fundação mais movimentadas do país.
Um tratado de paz funda a cidade
A capital paraibana nasceu em 5 de agosto de 1585, às margens do rio Sanhauá, com o nome de Cidade Real de Nossa Senhora das Neves. A mesma data marca o dia em que o capitão-mor Frutuoso Barbosa, ao lado de Martim Leitão e João Tavares, selou um tratado de paz com o cacique tabajara Piragibe, consolidando a conquista portuguesa do território depois de anos de resistência indígena e da presença de comerciantes franceses na costa. Com essa fundação, a cidade tornou-se a terceira mais antiga do Brasil, atrás apenas de Salvador (1549) e do Rio de Janeiro (1565).
De Filipeia a Frederica: a disputa holandesa
Em 1588, a povoação ganhou um novo nome, Filipeia de Nossa Senhora das Neves, em homenagem a Filipe II, que reinava sobre Portugal e Espanha unidos sob a União Ibérica. O nome duraria menos de cinquenta anos: em 26 de dezembro de 1634, tropas da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais tomaram a cidade e a rebatizaram Frederikstadt, ou Frederica, em homenagem a Frederico Henrique, príncipe de Orange. Sob domínio holandês — que se estendeu por vinte anos —, a cidade chegou a ter cerca de 1.500 habitantes e 18 engenhos de açúcar em funcionamento, tornando-se um dos maiores núcleos da Nova Holanda ao lado de Mauritsstad, a atual Recife.
Iniciado em 1589, o Convento de Santo Antônio sobreviveu à ocupação holandesa e guarda hoje a Capela Dourada.
Parahyba do Norte e as marcas do período colonial
A reconquista portuguesa, em 1º de fevereiro de 1654, apagou o nome holandês: a cidade passou a se chamar Parahyba, referência ao rio que sempre foi sua principal via de acesso, grafia que depois se firmaria como Paraíba. É desse longo período colonial que restam os principais monumentos do atual Centro Histórico. O Convento de Santo Antônio, iniciado em 1589 — apenas quatro anos após a fundação —, teve a construção interrompida por conflitos internos, foi atingido pela ocupação holandesa, que expulsou os frades franciscanos em 1636, e só ficou plenamente restaurado em 1661. Tombado pelo Iphan em 1952, o conjunto reúne a igreja de São Francisco e a Capela Dourada, coberta de talha barroca do início do século 18. Não muito longe dali, a Igreja de São Frei Pedro Gonçalves completa o conjunto de templos que testemunharam cada uma das trocas de bandeira da cidade.
Um crime passional muda o nome de novo
O quinto e último nome veio de uma tragédia nacional. Em 26 de julho de 1930, o então presidente do estado da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, foi assassinado a tiros na Confeitaria Glória, no Recife, por João Dantas, num crime motivado por uma disputa pessoal envolvendo cartas íntimas e não por rivalidade política. Ainda assim, a morte foi usada pela Aliança Liberal, de Getúlio Vargas, como estopim da Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse do recém-eleito Júlio Prestes. Em homenagem ao líder morto, a capital da Paraíba adotou seu nome ainda em 1930, batismo que permanece até hoje.
- 1585 — Cidade Real de Nossa Senhora das Neves
- 1588 — Filipeia de Nossa Senhora das Neves
- 1634 — Frederica (Frederikstadt)
- 1654 — Parahyba (depois Paraíba)
- 1930 — João Pessoa
A Igreja de São Frei Pedro Gonçalves integra o conjunto de templos coloniais do Centro Histórico.
Caminhar hoje pelas ruas estreitas do Centro Histórico, entre sobrados coloniais e igrejas barrocas, é atravessar cada uma dessas camadas: a aldeia tabajara, a vila da União Ibérica, o posto holandês e, por fim, a capital que carrega até hoje o nome de um político morto num crime que, sem nenhuma intenção política, ajudou a mudar os rumos da própria história do Brasil.



Seja o primeiro a comentar.