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Café A Brasileira: a casa de 1905 no Chiado que ensinou Lisboa a beber bica

Fachada histórica do Café A Brasileira, no Chiado, em Lisboa

Foto: VDT2021 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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Em 19 de novembro de 1905, um comerciante chamado Adriano Telles abriu as portas de uma loja na Rua Garrett, no Chiado, para vender "café genuinamente brasileiro" trazido de Minas Gerais. Para atrair fregueses, Telles oferecia uma xícara grátis a quem comprasse um quilo do grão moído — e foi ali, nesse balcão, que Lisboa provou pela primeira vez a bica: uma dose curta e forte de café, servida na época acompanhada de leite de cabra fresco vindo das quintas vizinhas. Mais de um século depois, o Café A Brasileira segue no mesmo endereço, um dos três cafés mais antigos da cidade ainda em atividade.

Um emigrante entre Portugal e Minas Gerais

Antes de virar dono de café em Lisboa, Adriano Soares Telles do Valle (1859-1932), natural de Alvarenga, embarcou para o Brasil em 1872, ainda adolescente. Lá se casou com a filha de um dos maiores produtores de café de Minas Gerais e prosperou como agricultor e comerciante, chegando a fundar uma rede de lojas batizada "Ao Preço Fixo", que reunia desde casa de câmbio a comércio geral. A doença da esposa o trouxe de volta a Portugal; ela não resistiu, mas Telles ficou e transformou a experiência mineira em negócio: passou a importar café brasileiro em grande escala e, a partir da loja do Chiado — que antes vendia camisas —, expandiu a marca A Brasileira também para Coimbra, Braga, Porto e Sevilha, sempre com a mesma isca comercial: café grátis por xícara a quem comprasse o produto embalado.

Do balcão de venda ao salão Art Nouveau

O projeto original da fachada e da decoração interior ficou a cargo do arquiteto Manuel Norte Júnior, que seguiu o gosto parisiense então em voga — espelhos, painéis de madeira trabalhada e uma atmosfera de outra época. Décadas depois, uma reforma assinada pelo arquiteto José Pacheco deu ao espaço contornos Art Déco: entrada em verde e dourado, paredes espelhadas, ferragens em latão, um longo balcão de carvalho e reservados de madeira que até hoje estruturam o salão. Em 1997, o imóvel foi classificado como imóvel de interesse público, reconhecimento formal do papel que ocupa na paisagem urbana de Lisboa.

Interior decorado do Café A Brasileira, com espelhos e detalhes em madeira

O salão interior preserva espelhos, madeira trabalhada e ferragens de latão de sucessivas reformas.

O ponto de encontro de Fernando Pessoa

Foi nesse salão que o café se tornou palco de tertúlias literárias e artísticas nas primeiras décadas do século XX. Fernando Pessoa era cliente frequente, ao lado de nomes como Jorge Barradas e Almada Negreiros, discutindo poesia e modernismo entre uma bica e outra. A associação entre o poeta e a casa ficou tão forte que, em 1988, foi inaugurada na calçada em frente uma estátua em bronze de Pessoa, obra do escultor Lagoa Henriques: o poeta sentado a uma mesa de esplanada, chapéu na cabeça, mão pousada sobre o tampo e olhar perdido no horizonte. A escultura se tornou um dos pontos mais fotografados do Chiado, disputando espaço com turistas que se sentam ao lado para uma foto.

De onde vem o nome "bica"

A origem exata do termo ainda divide os lisboetas. Uma explicação liga o nome ao jato de café caindo da máquina para a xícara, como uma bica d'água ou fonte. Outra, mais popular e provavelmente lendária, defende que "bica" seria um acrônimo de "beba isto com açúcar", frase que Telles teria usado para convencer os primeiros clientes a experimentar a bebida forte e amarga vinda do Brasil. Seja qual for a origem real, o nome pegou e se espalhou por Lisboa muito além das paredes do Chiado, virando sinônimo local de café expresso.

Ambiente do Café A Brasileira no Chiado, Lisboa

O Café A Brasileira permanece em atividade no mesmo endereço da Rua Garrett desde 1905.

Mais de cem anos depois de Adriano Telles servir a primeira bica no balcão da Rua Garrett, o Café A Brasileira segue como um dos endereços mais visitados de Lisboa — não apenas pelo café, mas pelo peso simbólico de ter sido, por décadas, o escritório informal de um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Referências

Este texto é da redação do Tem Café Aí. Abaixo, onde conferir os dados do lugar e de onde vem a foto — não é a origem do texto, é onde você pode se aprofundar.

Café A Brasileira — Wikipédia

Foto: VDT2021 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Famoso pelo pastel de belém ou pastel de nata?

Onde fica

  • Café A Brasileira Cafeteria
    Café A Brasileira, Rua Garrett, Lisboa, Portugal

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📍 Wiltshire
📍 Dica rápida

The Cloisters: pub de cerca de 1350 a dois passos da Catedral de Salisbury

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A dois minutos a pé da Catedral de Salisbury, este pub ocupa um prédio tombado de cerca de 1350. Ambiente descontraído e boa seleção de cervejas para fechar o dia depois de caminhar por Wiltshire.

Fachada do pub histórico The Cloisters, em Salisbury

Foto: Jaggery / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Onde fica

  • The Cloisters Bar
    The Cloisters, 83 Catherine Street, Salisbury, United Kingdom
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Café Central: o salão de Viena onde Trótski jogava xadrez todas as tardes

Salão interno do Café Central, em Viena

Foto: Dietmar Rabich / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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Instalado desde 1876 no térreo do Palais Ferstel, um dos prédios mais imponentes do centro histórico de Viena, o Café Central é um dos maiores símbolos da tradicional cultura cafeeira vienense, reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial. Suas abóbadas neogóticas, colunas de mármore e pé-direito elevado transformaram o espaço num dos salões mais fotografados da cidade, mas sua fama vai muito além da arquitetura.

Point da intelectualidade europeia

No fim do século XIX e início do XX, o Café Central se tornou point fixo de escritores, artistas e pensadores que viviam ou passavam por Viena, entre eles Sigmund Freud, o escritor Peter Altenberg e o arquiteto Adolf Loos. O café funcionava quase como uma extensão de escritório para muitos desses frequentadores, que passavam horas lendo jornais internacionais disponibilizados pela casa e debatendo ideias nas mesas de mármore.

A lenda de Trótski

Uma das histórias mais contadas sobre o Café Central envolve o revolucionário russo Leon Trótski, que viveu em Viena entre 1907 e 1914 e frequentava o café quase diariamente para jogar xadrez. Conta-se que, ao ser informado sobre a Revolução Russa de 1917, um ministro austríaco teria reagido com ceticismo dizendo "e quem vai liderar essa revolução, o senhor Trótski, do Café Central?" — anedota que, comprovada ou não, ajudou a consolidar o mito do café como point de conspiradores e intelectuais.

Abóbadas neogóticas do Café Central em Viena

As abóbadas neogóticas do salão remetem à arquitetura palaciana de Viena do século XIX.

Uma figura de cera na porta

Uma curiosidade do café é a estátua em tamanho real do escritor Peter Altenberg, sentado a uma mesa perto da entrada — homenagem a um dos frequentadores mais assíduos da casa, que chegou a receber correspondências endereçadas diretamente ao café, tamanha era sua presença constante no local.

Mesas do Café Central, em Viena

As mesas de mármore do salão principal recebem visitantes desde o século XIX.

Dicas para a visita

O Café Central fica no centro histórico de Viena, próximo à Herrengasse, e costuma formar filas nos horários de maior movimento, especialmente na hora do café da manhã e no fim da tarde. Vale experimentar a tradicional Sachertorte ou o Apfelstrudel acompanhados de um Melange, a versão vienense do cappuccino, seguindo o costume local de ficar horas à mesa lendo ou conversando, sem pressa para liberar o lugar.

Referências

Este texto é da redação do Tem Café Aí. Abaixo, onde conferir os dados do lugar e de onde vem a foto — não é a origem do texto, é onde você pode se aprofundar.

Café Central — Wikipédia

Foto: Dietmar Rabich / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Elegante, Grandioso e Inesquecível

Onde fica

  • Café Central Cafeteria
    Herrengasse 14, Viena, Áustria

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Bandeira de Áustria Áustria
📍 Salzburgo
📍 Dica rápida

Café Tomaselli: o café mais antigo da Áustria, onde as fatias de bolo vêm até a mesa numa bandeja

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A fachada diz 1703, mas a data está errada para menos. Em 2003, o historiador Gerhard Ammerer mostrou que a casa é ainda mais velha: em 31 de março de 1700, o francês Johann Fontaine recebeu licença para vender "chocolate, chá e café" em Salzburgo, primeiro na Goldgasse. É por isso que o Tomaselli se apresenta como o café mais antigo da Áustria.

De Staiger a Tomaselli

No século XVIII, o café passou para Anton Staiger, que comprou o prédio da Alter Markt em 1764. Foi nessa fase, quando ainda se chamava "Staiger", que Mozart o frequentou, e o compositor Michael Haydn fazia parte da roda da casa. Anos depois, de 1820 a 1826, Constanze, a viúva de Mozart, morou no próprio edifício. O nome atual chegou em 12 de março de 1852, quando o confeiteiro Carl Tomaselli, filho do tenor milanês Giuseppe Tomaselli, comprou o negócio. Em 1859 a família abriu o quiosque do outro lado da praça, que funciona até hoje. Segundo o próprio café, foi numa dessas mesas que Hermann Bahr, Hugo von Hofmannsthal e Max Reinhardt tiveram a ideia do Festival de Salzburgo; Herbert von Karajan virou cliente de temporada.

O bolo vem até você

O ritual que ninguém deixa de ver é o das "Kuchendamen": moças de avental branco que circulam entre as mesas com bandejas cheias de fatias de torta, e você escolhe com os olhos. O Tomaselli diz ser o último café de Salzburgo a manter o costume. São 310 lugares dentro e 430 fora, 300 deles no jardim do quiosque. Desde maio de 2026 a operação está com uma nova empresa, a GMS Gourmet, mas a família Tomaselli continua proprietária, e a promessa é manter tudo como está. Abre todos os dias, das 7h às 19h (domingo e feriado a partir das 8h).

Fachada do Café Tomaselli na praça Alter Markt, em Salzburgo

Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Onde fica

  • Café Tomaselli Cafeteria
    Alter Markt 9, 5020 Salzburgo, Áustria
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