Antes de gastar um único escudo com pedra ou entalhe, D. Manuel I já sabia como pagaria a conta: um imposto de 5% sobre tudo o que os navios portugueses trouxessem da África e do Oriente. Batizada de "Vintena da Pimenta", a taxa rendia por volta de 70 quilos de ouro por ano aos cofres reais — dinheiro suficiente para erguer, ao longo de um século, um dos monumentos mais ambiciosos da Europa: o Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, Lisboa.
Um voto para agradecer a Vasco da Gama
A obra nasceu de uma promessa. Em 1497, antes de zarpar rumo à Índia, Vasco da Gama teria orado numa pequena ermida à beira do Tejo, erguida décadas antes por ordem do infante D. Henrique. Quando a expedição voltou, em 1499, com a rota marítima para o Oriente enfim aberta, D. Manuel I decidiu substituir a ermida por um mosteiro grandioso, dedicado à Virgem de Belém e entregue aos monges da Ordem de São Jerónimo. A primeira pedra foi lançada em 6 de janeiro de 1501, e as obras se estenderiam, com avanços e pausas, por praticamente cem anos.
Cem anos de canteiro, dois grandes mestres
O projeto inicial coube a Diogo de Boitaca, arquiteto que ajudou a criar a linguagem que hoje chamamos de manuelino — um estilo genuinamente português, que mistura o gótico tardio com motivos ligados ao mar: cordas entalhadas em pedra, corais, esferas armilares e a cruz da Ordem de Cristo se espalham por portais e colunas. A partir de 1517, o espanhol João de Castilho assumiu o canteiro e conduziu a obra para um vocabulário mais próximo do Renascimento, sem romper com o desenho original. O claustro de dois andares, com seus arcos rendilhados, só ficou pronto em 1544, quando nenhum dos dois arquitetos originais já trabalhava ali.
O claustro de dois andares, concluído em 1544, reúne o gótico tardio de Boitaca ao vocabulário renascentista trazido por João de Castilho.
Sob o coro alto da igreja estão dois túmulos que resumem por que o edifício importa tanto para Portugal: o de Vasco da Gama, o navegador que abriu caminho para a Índia, e o de Luís de Camões, o poeta que transformou essa viagem em epopeia n'Os Lusíadas. Nenhum dos dois foi sepultado ali originalmente — os restos de Gama só chegaram ao mosteiro no século XIX, já como símbolo nacional dos Descobrimentos.
Terremoto, exílio e museus
O mosteiro atravessou o terremoto de 1755, que destruiu boa parte de Lisboa, com danos relativamente pequenos — os historiadores atribuem a sorte ao terreno arenoso de Belém, distante do centro mais castigado da cidade. O golpe mais duro veio depois, em 1833 e 1834, quando um decreto liberal extinguiu as ordens religiosas em Portugal. Os monges jerónimos, que viviam ali havia mais de três séculos, deixaram o mosteiro, e o edifício foi entregue à Real Casa Pia de Lisboa, que abrigou órfãos e crianças carentes em suas dependências até 1940. A igreja, por sua vez, passou a funcionar como paróquia de Santa Maria de Belém, função que mantém até hoje.
O túmulo de Vasco da Gama, sob o coro alto da igreja, junto ao de Luís de Camões.
Em 1983, a UNESCO declarou o Mosteiro dos Jerónimos Patrimônio Mundial, num mesmo reconhecimento que incluiu a vizinha Torre de Belém. Hoje o antigo dormitório dos monges abriga o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu de Marinha, enquanto a igreja segue aberta para missas e visitas.
Algumas curiosidades ajudam a entender por que o lugar segue despertando fascínio:
- A "Vintena da Pimenta" tornou o mosteiro um dos raros grandes monumentos europeus pagos quase inteiramente com receita do comércio internacional, e não com impostos gerais da Coroa.
- Em 16 de outubro de 1985, no cinquentenário de sua morte, os restos do poeta Fernando Pessoa foram trasladados para a ala norte do claustro — mas, segundo relatos de época, seu túmulo acabou ficando praticamente vazio, já que grande parte de seus ossos não pôde ser identificada com certeza no antigo jazigo de família.
- A fachada sul da igreja, voltada para o rio, tem mais de 40 metros de largura e é considerada um dos maiores exemplares contínuos de escultura manuelina do mundo.







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