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Conjunto Moderno da Pampulha: a igreja que a Igreja Católica recusou por 14 anos

Vista da Igreja de São Francisco de Assis com a Lagoa da Pampulha ao fundo, em Belo Horizonte

Foto: Wikimedia Commons

Por 14 anos, uma das igrejas mais fotografadas do Brasil ficou sem poder celebrar batizados, casamentos ou missas regulares. O motivo não foi falta de fiéis nem de padres: foi um cachorro pintado por Cândido Portinari em um afresco ao lado de São Francisco de Assis, considerado inaceitável demais para a arquidiocese de Belo Horizonte consagrar o templo.

Uma aposta modernista às margens da lagoa

A história começa em 1940, quando o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, decidiu transformar as margens de uma lagoa artificial recém-criada na região da Pampulha em um polo de lazer e arquitetura de vanguarda. Para desenhar os edifícios, JK chamou um arquiteto de 33 anos ainda pouco conhecido: Oscar Niemeyer. O paisagismo ficou com Roberto Burle Marx, os painéis decorativos com Cândido Portinari e parte das esculturas com Alfredo Ceschiatti.

O conjunto foi inaugurado em 16 de maio de 1943, com a presença do presidente Getúlio Vargas e do governador de Minas Gerais, Benedito Valadares. Quatro construções ao redor da lagoa formam o núcleo do projeto:

  • o Cassino da Pampulha, hoje Museu de Arte da Pampulha;
  • a Casa do Baile, um salão de festas sobre uma pequena ilha;
  • o Iate Tênis Clube;
  • a Igreja de São Francisco de Assis, conhecida como "Igrejinha da Pampulha".

Do jogo proibido à arte

O Cassino da Pampulha nasceu como point da elite mineira, com noites de jogatina e festas que atraíam visitantes de outros estados. A festa durou pouco: em 30 de abril de 1946, o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de azar em todo o país, e o cassino fechou as portas apenas três anos depois de inaugurado. O prédio de curvas livres e painéis de vidro ficou fechado por mais de uma década até que, em 1957, reabriu como Museu de Arte da Pampulha, sob direção do arquiteto Sylvio de Vasconcellos.

Fachada do Museu de Arte da Pampulha, antigo Cassino da Pampulha, em Belo Horizonte

O antigo Cassino da Pampulha, fechado em 1946, reabriu como museu de arte em 1957.

A igreja que dividiu a cidade

Enquanto o cassino driblava a lei do jogo, a pequena igreja curva enfrentava outro tipo de resistência. O arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio Santos Cabral, recusou-se a consagrar o templo, classificando a obra como "inteiramente particular, na qual o clero não teve a mínima participação". As formas ousadas de Niemeyer e, sobretudo, o painel de Portinari em que um cão aparece ao lado do santo — lido por críticos da época como referência a um lobo, animal ligado à lenda de São Francisco — foram tratados como afronta ao bom gosto religioso.

Sem consagração, a Igrejinha da Pampulha funcionou por 14 anos apenas como capela aberta à visitação, sem celebrar os sacramentos que dependem desse rito. A situação só mudou em 1959, quando Dom Antônio Santos Cabral foi sucedido por Dom João Resende Costa, que autorizou a consagração pouco depois de assumir a arquidiocese.

Fachada curva da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte

As curvas de concreto armado da Igreja de São Francisco de Assis, projeto de 1943 de Oscar Niemeyer.

De obra controversa a patrimônio da humanidade

Décadas depois da polêmica, o julgamento mudou de sinal. Em 16 de julho de 2016, durante a 40ª reunião do Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO, em Istambul, o Conjunto Moderno da Pampulha foi reconhecido como Patrimônio Mundial — o primeiro bem cultural do planeta a receber o título na categoria de Paisagem Cultural do Patrimônio Moderno. O próprio Niemeyer, que viveu até os 104 anos e assinou obras como o Palácio do Planalto e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, chegou a considerar a Pampulha um dos capítulos mais importantes de sua carreira: foi ali que testou, pela primeira vez em escala real, as curvas livres de concreto que se tornariam sua marca registrada.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Uma boa caminhada na beira da lagoa, com muita história.

Onde fica

  • Conjunto Moderno da Pampulha Histórico
    Pampulha

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Bar La Ópera: o balaço de Pancho Villa que ainda mora no teto dourado da Cidade do México

Fachada do Bar La Ópera no Centro Histórico da Cidade do México

Foto: Wikimedia Commons

Há mais de cem anos, uma bala de revólver segue alojada no teto dourado de um bar no coração da Cidade do México — e, de propósito, ninguém jamais a removeu. O buraco pertence ao Bar La Ópera, uma cantina que resiste desde o século 19 na Avenida 5 de Mayo, no Centro Histórico, e que viu passar tanto jantares da elite porfirista quanto tropas revolucionárias armadas.

De confeitaria francesa a ponto de encontro da elite

O endereço não nasceu como bar. Em 1876, as irmãs francesas Boulangeot abriram ali uma confeitaria de luxo na esquina da antiga rua San Juan de Letrán com a Avenida Juárez — terreno onde hoje se ergue a Torre Latinoamericana. Em 1895, o negócio mudou de local e de vocação: passou a funcionar na esquina da Avenida 5 de Mayo com a rua Filomeno Mata, endereço que ocupa até hoje, já como cantina voltada à clientela mais refinada da capital.

Entre os frequentadores da nova fase estavam o presidente Porfirio Díaz e sua esposa, Carmelita Romero Rubio, além do então ministro da Fazenda, José Ives Limantour. O bar tornou-se um símbolo do chamado Porfiriato, período de mais de três décadas de governo de Díaz marcado pela tentativa de europeizar os costumes da capital mexicana — daí o nome "La Ópera" e a decoração que remete aos teatros de espetáculo da Europa do fim do século 19.

A noite em que Pancho Villa disparou no teto

Em dezembro de 1914, tropas de Francisco "Pancho" Villa e Emiliano Zapata ocuparam a Cidade do México após a queda do governo de Victoriano Huerta, no auge da Revolução Mexicana. Segundo o relato mais repetido sobre o episódio, transmitido de geração em geração pelos próprios funcionários do bar, Villa entrou no La Ópera, sentou-se para conversar com seus homens e, incomodado por não conseguir atenção, sacou a arma e disparou um tiro para o alto. A bala nunca foi retirada do teto ornamentado e segue visível até hoje, próxima a um pequeno letreiro que conta a história aos visitantes.

Há uma ironia conhecida pelos guias locais: ao contrário da fama de bebedor pesado que o cinema atribuiu a outros líderes revolucionários, Villa era abstêmio — seu vício declarado era milk-shake de morango, não tequila ou pulque.

Interior decorado do Bar La Ópera na Cidade do México

O salão interno do Bar La Ópera, com teto ornamentado e balcão de madeira.

Um teto de folha de ouro e um balcão vindo de Nova Orleans

A decoração do La Ópera segue o estilo afrancesado que dominava a arquitetura da capital mexicana na virada do século 19 para o 20, misturando traços barrocos com o Art Nouveau então em voga. Entre os elementos que sobrevivem até hoje estão:

  • Um teto trabalhado com molduras cobertas por folha de ouro;
  • Um balcão esculpido em madeira maciça de nogueira, encomendado e transportado de Nova Orleans;
  • Espelhos de vidro biselado emoldurados por talha em madeira escura;
  • Detalhes metálicos e vitrines que reforçam a atmosfera de teatro de ópera europeu.

Com o avanço da Revolução, o bar deixou de ser um espaço fechado à elite porfirista e passou a servir também tequila e pulque a um público mais amplo, consolidando-se como uma das cantinas mais tradicionais do Centro Histórico da capital mexicana — categoria de bar que, no México, guarda rituais e regras de sociabilidade próprios há mais de um século.

Rua 5 de Mayo no Centro Histórico da Cidade do México, onde fica o Bar La Ópera

A rua 5 de Mayo, no Centro Histórico da Cidade do México.

O escritor mexicano Salvador Novo definiu as cantinas tradicionais da capital como "templos de duas portas", numa referência às entradas duplas que antigamente separavam o acesso de homens e mulheres nesses espaços de socialização. O Bar La Ópera, com suas portas na esquina de 5 de Mayo com Filomeno Mata, segue aberto como bar e restaurante mais de cento e trinta anos depois de virar cantina — mantendo, no teto dourado do salão principal, a mesma bala que um disparo de revólver transformou em parte permanente da sua história.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): É ponto de parada obrigatória para turistas interessados na história da Revolução Mexicana.

Onde fica

  • Bar La Ópera Bar
    Bar La Ópera, Avenida 5 de Mayo 10, Cidade do México, México

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📍 Gizé

Pirâmides de Gizé: a única maravilha do mundo antigo que resistiu a 4.500 anos

Panorama das três grandes pirâmides do planalto de Gizé, no Egito

Foto: Wikimedia Commons

Por volta de 2560 a.C., no planalto rochoso à beira do deserto egípcio, um exército de pedreiros começou a empilhar blocos de calcário e granito que, quase quatro milênios e meio depois, ainda estariam de pé. A Grande Pirâmide de Gizé, erguida como túmulo do faraó Quéops (Khufu, na grafia egípcia), é a mais antiga das Sete Maravilhas do Mundo Antigo listadas pelos gregos — e a única que sobreviveu até hoje.

Um túmulo construído em cerca de vinte anos

A pirâmide foi erguida durante a IV dinastia egípcia, num período estimado entre dez e vinte anos. Sua altura original era de 146,59 metros; hoje mede 137,19 metros, já que perdeu o revestimento externo de calcário polido e parte do topo ao longo dos séculos. A base ocupa uma área de cerca de 53 mil metros quadrados, com os quatro lados alinhados quase perfeitamente aos pontos cardeais — um feito de agrimensura notável para uma civilização sem bússolas ou instrumentos óticos modernos.

A estrutura é formada por aproximadamente 2,3 milhões de blocos de pedra, com peso médio de 2,5 toneladas cada um — alguns blocos internos, usados nas câmaras funerárias, chegam a pesar mais de 50 toneladas. Até hoje não há consenso definitivo entre arqueólogos sobre a técnica exata usada para erguer os blocos a essa altura; rampas, alavancas e sistemas de roldanas primitivas estão entre as hipóteses mais aceitas.

Vista aproximada da Pirâmide de Quéops, a maior do complexo de Gizé

A Pirâmide de Quéops, a maior das três grandes pirâmides do planalto de Gizé.

Quem realmente ergueu as pirâmides

Por séculos, a crença popular — reforçada por relatos tardios como os do historiador grego Heródoto, que escreveu quase dois mil anos após a construção — atribuía a obra a massas de escravos chicoteados. Escavações conduzidas na década de 1990 pelos arqueólogos Zahi Hawass e Mark Lehner mudaram esse quadro ao descobrir, a poucos metros das pirâmides, uma vila de trabalhadores organizada pelo Estado egípcio. As evidências encontradas ali contam outra história:

  • Padarias, cervejarias e açougues industriais indicam que os trabalhadores recebiam rações diárias de pão, cerveja e carne bovina — uma dieta relativamente farta para o Egito Antigo.
  • Esqueletos exumados no cemitério dos operários mostram fraturas ósseas tratadas e realinhadas, evidência de que recebiam cuidados médicos.
  • Muitos eram camponeses recrutados durante a época da cheia anual do Nilo, quando os campos ficavam submersos e a mão de obra agrícola ficava disponível para o Estado.
  • Grafites deixados nas câmaras internas da pirâmide registram nomes de equipes de trabalho, como "Amigos de Quéops", sugerindo rivalidade e orgulho entre os grupos.

A Esfinge e um patrimônio da humanidade

A poucos metros da pirâmide de Quéops está a Grande Esfinge, uma escultura de 73 metros de comprimento e cerca de 20 metros de altura, esculpida a partir de um único afloramento de calcário do próprio planalto. A maioria dos egiptólogos atribui seu rosto ao faraó Quefrém, filho de Quéops e construtor da segunda maior pirâmide do complexo — que, junto com a pirâmide de Miquerinos, forma o trio que hoje define a paisagem de Gizé.

A Grande Esfinge de Gizé, esculpida em um único afloramento de calcário

A Grande Esfinge, com o corpo de leão e rosto atribuído ao faraó Quefrém.

Em 1979, a Unesco reconheceu como Patrimônio Mundial da Humanidade o conjunto formado pelas ruínas de Mênfis, antiga capital do Egito, e suas necrópoles — incluindo os monumentos de Gizé, Saqqara e Dahshur. É um reconhecimento tardio para um lugar que já era considerado antigo pelos próprios turistas da Antiguidade: quando os romanos visitavam Gizé, as pirâmides já tinham mais de 2.500 anos.

Quando a Catedral de Lincoln, na Inglaterra, ultrapassou sua altura em 1311, a Grande Pirâmide já reinava havia quase 3.800 anos como a estrutura mais alta já erguida por mãos humanas — um recorde que nenhuma outra obra da Antiguidade chegou perto de igualar.

Onde fica

  • Grande Pirâmide de Gizé (Pirâmide de Quéops) Histórico
    Necrópole de Gizé, Gizé, Egito

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Ouro Preto: a cidade barroca que guarda a obra-prima de Aleijadinho

Fachada da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto

Foto: Wikimedia Commons

Encravada nas montanhas de Minas Gerais, Ouro Preto é uma das cidades mais bem preservadas do período colonial brasileiro. Fundada no final do século XVII como Vila Rica, ela nasceu ao redor das primeiras grandes descobertas de ouro no interior do Brasil e, em poucas décadas, se tornou uma das cidades mais ricas do império português — riqueza que hoje se traduz em dezenas de igrejas barrocas, casarões coloniais e ladeiras de pedra que fizeram da cidade a primeira do Brasil a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1980.

O ciclo do ouro e a Inconfidência

Durante o auge da mineração, no século XVIII, Vila Rica chegou a ser mais populosa que muitas capitais europeias da época. Foi também nesse cenário de riqueza extrema e impostos pesados cobrados pela Coroa portuguesa que nasceu, em 1789, a Inconfidência Mineira — movimento separatista liderado por figuras como Tiradentes, que se tornaria um dos maiores símbolos da luta pela independência do Brasil. Museus e prédios históricos da cidade, como o Museu da Inconfidência, na antiga Casa de Câmara e Cadeia, contam essa história em detalhes.

A obra-prima de Aleijadinho

Nenhum nome está mais associado a Ouro Preto do que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho — escultor e arquiteto mestiço que, mesmo enfrentando uma doença degenerativa nas mãos e pernas, produziu algumas das obras mais importantes do barroco brasileiro. Sua obra máxima é considerada a Igreja de São Francisco de Assis, construída entre 1766 e 1794. A fachada em pedra-sabão, esculpida por ele, e o teto pintado por Mestre Ataíde, outro nome fundamental da arte colonial mineira, formam um conjunto que atrai historiadores e turistas do mundo inteiro.

Detalhe da portada esculpida por Aleijadinho

Detalhe da portada em pedra-sabão esculpida por Aleijadinho.

Diferente de boa parte da arquitetura religiosa da época, marcada pela simetria rígida do barroco europeu, a fachada de São Francisco de Assis apresenta curvas ousadas e um relevo com a imagem de São Francisco recebendo os estigmas — considerado um dos pontos altos da escultura colonial nas Américas. O interior, com talha dourada e pinturas em perspectiva no forro, reforça por que a igreja é tratada como o principal exemplo do rococó mineiro.

Caminhando pelo centro histórico

Além de São Francisco de Assis, vale reservar tempo para conhecer a Igreja Nossa Senhora do Pilar, com interior coberto de ouro, e a Igreja Nossa Senhora do Carmo. As ladeiras de pedra irregular, íngremes e charmosas, conectam praças, ateliês de artesanato em pedra-sabão e mirantes com vista para os telhados coloniais — um passeio que rende horas de caminhada mesmo sem pressa para entrar em cada atração.

Vista aérea do centro histórico de Ouro Preto

O centro histórico preserva o traçado colonial de ruas e ladeiras do século XVIII.

Dicas para a visita

Como as ruas são de pedra e bastante inclinadas, calçados confortáveis fazem toda a diferença. A maior parte das igrejas cobra um pequeno ingresso e tem horários reduzidos de visitação, então vale checar o funcionamento com antecedência. Ouro Preto também é ponto de partida para conhecer outras cidades históricas próximas, como Mariana e Tiradentes, o que torna a região um dos roteiros de turismo histórico mais completos do Brasil.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Cidade histórica e famosa por suas praças e igrejas, com destaque a Igreja de São Francisco de Assis do Século 18.

Onde fica

  • Igreja de São Francisco de Assis Histórico
    Largo de Coimbra, s/n, Centro, Ouro Preto - MG, 35400-000

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