Cerca de 500 mil metros quadrados de pedra arenito, erguidos sem argamassa, sem roldanas modernas e sem uma única página de projeto que tenha sobrevivido até hoje — esse é o ponto de partida de Angkor Wat, no Camboja. O templo é, ainda hoje, o maior monumento religioso já construído no planeta, com 162,6 hectares dentro de seu perímetro fortificado.
\n\nUm templo-funerário para um rei-deus
\nA construção começou na primeira metade do século 12, sob o reinado de Suryavarman II, que governou o Império Khmer entre aproximadamente 1113 e 1150. O projeto levou cerca de três décadas e mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores e artesãos. Diferente da maioria dos templos khmer, voltados para o leste, Angkor Wat foi orientado para o oeste — um detalhe que os pesquisadores associam à sua função como templo funerário, já que o oeste é tradicionalmente ligado à morte na cosmologia hindu.
\nO templo foi dedicado principalmente a Vishnu, e não a Shiva, divindade mais cultuada pelos reis khmer anteriores. Suas cinco torres centrais, dispostas em quincôncio, representam os picos do Monte Meru, a montanha sagrada que, segundo a mitologia hindu, fica no centro do universo e é morada dos deuses. Um fosso de 190 metros de largura, com cerca de 5,5 km de perímetro, cerca todo o complexo — uma representação em pedra e água dos oceanos que, na cosmologia hindu, envolvem o Meru.
\n\nBaixo-relevo na galeria externa retrata episódios da mitologia hindu, como a batalha entre devas e asuras.
As galerias de baixo-relevo
\nA galeria externa do templo, com cerca de 800 metros de extensão, é coberta por baixos-relevos esculpidos diretamente na pedra. Entre as cenas mais conhecidas estão a Batalha de Kurukshetra do Mahabharata, o cortejo militar de Suryavarman II e a Batalha entre Devas e Asuras — episódios da mitologia hindu que os artesãos khmer transformaram em narrativas contínuas de dezenas de metros de comprimento, sem os cortes ou molduras típicos da arte ocidental da mesma época.
\n\nDe templo hindu a santuário budista
\nEm 1177, o povo cham, vindo do que hoje é o Vietnã, saqueou Angkor. O novo rei, Jayavarman VII, atribuiu o desastre ao abandono dos deuses hindus e passou a promover o budismo mahayana, construindo uma nova capital fortificada, Angkor Thom, nas proximidades. Angkor Wat sobreviveu à mudança de fé: ao longo dos séculos seguintes, tornou-se um santuário budista, e muitas imagens hindus originais foram substituídas ou complementadas por estátuas de Buda. O templo nunca chegou a ser completamente abandonado pela população local — ao contrário de boa parte do restante da antiga capital de Angkor, que foi engolida pela floresta.
\n\nAs cinco torres centrais simbolizam os picos do Monte Meru, morada dos deuses na cosmologia hindu.
A redescoberta europeia e o Camboja moderno
\nEmbora nunca tenha sido totalmente esquecido pelos cambojanos, foi o naturalista francês Henri Mouhot quem, após visitar o local em 1859-1860, publicou relatos e desenhos detalhados que despertaram o interesse do público europeu por Angkor. Esses textos, publicados postumamente no início da década de 1860, ajudaram a consolidar a imagem do templo no imaginário ocidental como uma “cidade perdida” — apesar de a região nunca ter sido de fato desconhecida dos khmers.
\nEm 1992, a UNESCO declarou o Parque Arqueológico de Angkor Patrimônio Mundial, incluindo-o também, na ocasião, na lista de Patrimônio Mundial em Perigo, devido aos danos da guerra civil cambojana e ao risco de saques. O templo é hoje o símbolo máximo do Camboja: sua silhueta de cinco torres estampa a bandeira nacional desde 1863, atravessando monarquias, o período colonial francês, o regime do Khmer Vermelho e a república atual — o único monumento a permanecer na bandeira do país ao longo de todas essas mudanças de governo.




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