Robben Island tem menos de 8 quilômetros quadrados — pouco maior que o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro — mas concentra quase quatro séculos de histórias de isolamento, banimento e resistência. Localizada na Baía da Mesa, a cerca de 7 km da costa da Cidade do Cabo, na África do Sul, a ilha é hoje um dos símbolos mais fortes da luta contra o apartheid e um Patrimônio Mundial da UNESCO.
Quase 400 anos de isolamento
Desde meados do século XVII, quando colonos holandeses começaram a usar a ilha para confinar escravizados, condenados e membros do povo khoikhoi que resistiam ao domínio colonial, Robben Island funcionou como um lugar para onde a sociedade mandava quem não queria por perto. Em 1846, o governo colonial britânico transformou o local em colônia de leprosos, somando um hospital para doentes crônicos e uma ala psiquiátrica feminina. Por quase um século, pessoas isoladas por doença viveram em barracos de pedra espalhados pela ilha, num regime que só terminou em 1931, quando o assentamento médico foi finalmente desativado.
Seção B da Prisão de Segurança Máxima, onde Nelson Mandela cumpriu parte de sua pena.
A prisão que tentou calar o apartheid
Em 1961, o governo sul-africano converteu Robben Island em presídio de segurança máxima para opositores políticos do regime racista do apartheid. Ao longo das três décadas seguintes, mais de 3 mil prisioneiros políticos ligados ao Congresso Nacional Africano (ANC), ao Congresso Pan-Africanista e a outros movimentos foram enviados para lá, obrigados a trabalhos forçados em uma pedreira de calcário sob o sol implacável.
Nelson Mandela foi um deles: passou 18 dos seus 27 anos de prisão na ilha, entre 1964 e 1982, confinado na cela número 5 da Seção B — um espaço de apenas 2,4 por 2,1 metros, mobiliado com uma esteira fina para dormir e um balde como sanitário. Mandela não estava sozinho. Outros nomes centrais da resistência ao apartheid também foram presos ali, entre eles:
- Walter Sisulu, um dos fundadores da Liga da Juventude do ANC;
- Govan Mbeki, dirigente do Partido Comunista Sul-Africano e pai do futuro presidente Thabo Mbeki;
- Ahmed Kathrada, condenado ao lado de Mandela no Julgamento de Rivonia;
- Robert Sobukwe, fundador do Congresso Pan-Africanista, mantido em isolamento por anos além do fim de sua sentença.
De prisão a Patrimônio Mundial
Os últimos presos políticos deixaram a ilha em 1991, e o presídio foi definitivamente fechado em 1996, já no fim do regime do apartheid. No ano seguinte, em 1997, o governo sul-africano transformou o complexo no Robben Island Museum e o declarou monumento nacional. Em 1999, a UNESCO inscreveu a ilha na Lista do Patrimônio Mundial, descrevendo-a como um símbolo do "triunfo do espírito humano sobre a adversidade, o sofrimento e a injustiça".
Pátio da Seção B, onde Mandela cultivava um pequeno jardim entre os muros da prisão.
Hoje a visita começa no Nelson Mandela Gateway, no V&A Waterfront, área portuária revitalizada da Cidade do Cabo. Dali, uma balsa leva os visitantes em cerca de 30 minutos até a ilha, cruzando as mesmas águas que isolaram gerações de prisioneiros, leprosos e exilados — com a Table Mountain encolhendo no horizonte atrás do barco. Ex-prisioneiros políticos costumam atuar como guias, narrando em primeira pessoa o cotidiano atrás das grades. O passeio completo, incluindo o trajeto de ida e volta, dura em torno de três horas e meia — tempo suficiente para caminhar pela pedreira de calcário onde os presos trabalhavam sob sol forte, pela ala de celas e pelo pátio onde Mandela cultivava, escondido, um pequeno jardim de tomates e pimentões entre os muros da prisão.
Além do complexo prisional, a ilha ainda guarda vestígios de suas outras vidas: o cemitério dos internos da colônia de leprosos, a pequena escola primária erguida para os filhos dos guardas e funcionários, e um farol de 18 metros erguido em 1864 no ponto mais alto da ilha, convertido para eletricidade em 1938 e ainda em funcionamento — o único farol da costa sul-africana a operar com luz intermitente em vez de giratória. É esse conjunto de camadas — colônia penal, hospital, presídio político, farol, escola e, por fim, museu — que faz da pequena Robben Island um dos lugares mais densos de história de todo o continente africano.
Seja o primeiro a comentar.