Poucos edifícios no mundo podem dizer que foram praticamente destruídos duas vezes — e reconstruídos das cinzas nas duas ocasiões. O Castelo de Buda, no alto da colina que domina o rio Danúbio em Budapeste, é um deles. Sob suas fundações medievais passaram reis húngaros, sultões otomanos, arquitetos barrocos e, no século XX, os últimos soldados nazistas cercados na capital húngara.
Da defesa contra os mongóis ao esplendor renascentista
A história do castelo começa em 1247, quando o rei Béla IV ordenou a construção de uma fortaleza de pedra no alto da colina de Buda, ainda traumatizado pela invasão mongol que havia arrasado o reino húngaro poucos anos antes. Nos séculos seguintes, o local deixou de ser apenas uma defesa militar. Entre 1387 e 1437, o rei Segismundo de Luxemburgo — também imperador do Sacro Império Romano — ampliou a construção e transformou o castelo em um dos maiores e mais luxuosos palácios góticos da Europa.
O apogeu cultural veio com Matias Corvino, que governou a Hungria entre 1458 e 1490. Ele introduziu elementos renascentistas vindos da Itália e reuniu no castelo a Bibliotheca Corviniana, uma coleção de cerca de três mil códices iluminados que chegou a ser a segunda maior biblioteca da Europa, atrás apenas da do Vaticano. Boa parte desse acervo, no entanto, não sobreviveria ao século seguinte.

Do alto da colina de Buda, a vista se estende sobre o Danúbio e o lado de Pest.
Cento e cinquenta anos sob domínio otomano
Em 1526, a derrota húngara para os otomanos na Batalha de Mohács selou o destino da biblioteca de Matias Corvino: os manuscritos foram levados como espólio para Istambul. Quinze anos depois, em 1541, a própria Buda caiu, e o castelo passou a funcionar como fortaleza militar do Império Otomano por cerca de 150 anos. Os Habsburgo tentaram retomar a cidade repetidas vezes, sem sucesso:
- 1542 — primeiro cerco malsucedido dos Habsburgo;
- 1598 — nova tentativa fracassada de retomada;
- 1603 — terceiro cerco sem resultado;
- 1684 — ofensiva que ainda não foi suficiente para expulsar os otomanos.
A reconquista só veio em 1686, no chamado Grande Cerco de Buda, mas a vitória teve um preço alto: o bombardeio destruiu praticamente todo o antigo palácio medieval. Em 1715, o que restava das ruínas foi demolido, e uma reconstrução lenta começou sob o imperador Leopoldo I, que contratou o arquiteto italiano Giovanni Battista Carlone para erguer um novo palácio, agora em estilo barroco.
Da guerra ao museu: o castelo do século XX
O Castelo de Buda voltaria a ser palco de destruição quase 260 anos depois. Entre 29 de dezembro de 1944 e 13 de fevereiro de 1945, durante o Cerco de Budapeste, o complexo foi o último grande bastião das forças do Eixo na cidade e ficou gravemente danificado nos combates finais da Segunda Guerra Mundial.
A reconstrução do pós-guerra levou décadas. Entre 1958 e 1962, arqueólogos escavaram e restauraram salas do palácio medieval que haviam ficado soterradas sob os escombros por séculos, e as obras de recuperação só se consolidaram nos anos 1960 e 1970. Hoje, o mesmo edifício que já foi fortaleza mongol, palácio renascentista, guarnição otomana e ruína de guerra abriga a Galeria Nacional Húngara, a Biblioteca Nacional Széchényi e o Museu de História de Budapeste — e, desde 1987, integra a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO como parte do conjunto histórico às margens do Danúbio.

Da biblioteca renascentista que acabou em Istambul aos porões medievais redescobertos só na década de 1960, o Castelo de Buda funciona como uma espécie de corte geológico da história húngara: cada camada de pedra guarda a marca de quem tentou — e às vezes conseguiu — tomar aquela colina.











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