Na fachada do Panteão de Roma, gravada em letras de bronze com quase dois metros de altura, há uma frase que engana milhões de visitantes todos os anos: "M·AGRIPPA·L·F·COS·TERTIVM·FECIT" — "Marco Agripa, filho de Lúcio, construiu isto em seu terceiro consulado". O problema é que o edifício que está diante de quem lê essa inscrição não foi construído por Agripa. Foi erguido quase 150 anos depois, por ordem do imperador Adriano, que decidiu manter o crédito ao antecessor mesmo reconstruindo o templo do zero.
Do templo de Agripa às cinzas, duas vezes
O primeiro Panteão foi mesmo obra de Marco Vipsânio Agripa, general, genro e braço direito do imperador Augusto, que o mandou construir em 27 a.C. como parte de um amplo programa de obras públicas em Roma. Esse templo original tinha planta retangular, bem diferente da rotunda que existe hoje, e foi dedicado "a todos os deuses" — significado literal da palavra grega "pantheion".
Esse primeiro edifício não sobreviveu. Um incêndio destruiu boa parte dele no ano 80 d.C., durante o reinado de Tito. O imperador Domiciano mandou reconstruí-lo, mas um raio atingiu a estrutura em 110 d.C. e o fogo tomou conta outra vez. Foi só na segunda reconstrução, comandada por Adriano entre 118 e 128 d.C., que o Panteão ganhou a forma que conhecemos: um pórtico de dezesseis colunas de granito egípcio ligado a uma rotunda coberta por uma cúpula monumental. Adriano, que tinha fascínio pessoal por arquitetura e geometria, optou por preservar a inscrição original em homenagem a Agripa — um gesto raro de humildade num império acostumado a apagar nomes de antecessores.
O óculo, com cerca de 8,7 metros de diâmetro, é a única fonte de luz — e também deixa entrar chuva.
Uma cúpula que ainda intriga engenheiros
O que torna o Panteão excepcional não é só a idade, mas a proeza estrutural. A cúpula tem 43,3 metros de diâmetro interno, medida exatamente igual à altura do vão até o topo — se fosse possível encaixar uma esfera perfeita dentro da rotunda, ela tocaria o chão, as paredes e o teto ao mesmo tempo. Quase dois mil anos depois, ainda é a maior cúpula de concreto não armado do mundo.
Os construtores romanos resolveram o problema do peso com um truque duplo: a espessura da cúpula diminui de 6 metros na base para pouco mais de 1 metro no topo, e o concreto usado na base é feito com agregado pesado de travertino, enquanto no topo entra pedra-pomes vulcânica, bem mais leve. Os caixotões quadrados entalhados na superfície interna também reduzem massa sem comprometer a resistência. No centro, um vão circular de cerca de 8,7 metros de diâmetro — o óculo — é a única abertura da cúpula. Não tem vidro nem cobertura: quando chove em Roma, chove dentro do Panteão, e a água escoa por um sistema de drenagem discreto embutido no piso original.
De templo pagão a igreja — e túmulo de um gênio renascentista
A sobrevivência do Panteão até hoje, praticamente intacto, tem uma explicação simples: em 609, o imperador bizantino Fócas doou o edifício ao papa Bonifácio IV, que o converteu na igreja de Santa Maria ad Martyres, dedicada à Virgem Maria e a todos os mártires cristãos. Enquanto outros monumentos da Roma antiga eram saqueados como pedreira ao longo da Idade Média, o Panteão, agora um espaço sagrado em uso contínuo, ficou relativamente protegido.
Séculos depois, o edifício se tornou também um panteão no sentido mais literal: lugar de sepultamento de figuras ilustres. Alguns nomes:
- O pintor Rafael Sanzio, morto em 1520, está sepultado sob uma escultura da Madonna do Sasso, de Lorenzetto — ele mesmo pediu para ser enterrado ali.
- Vittorio Emanuele II, primeiro rei da Itália unificada, foi sepultado no Panteão após sua morte em 1878.
- Seu filho e sucessor, Umberto I, também descansa no monumento, ao lado da esposa, a rainha Margherita.
Mais de mil e quinhentos anos depois de virar igreja, o Panteão segue em atividade religiosa e é, ao mesmo tempo, um dos monumentos mais visitados de Roma — entrada gratuita para quem quiser ver, com os próprios olhos, o feixe de luz que atravessa o óculo e percorre lentamente as paredes da rotunda ao longo do dia, do mesmo jeito que fazia há quase dois milênios.
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