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Panteão de Roma: a mentira na fachada que esconde quase 1.900 anos de engenharia

Fachada do Panteão de Roma com o pórtico de colunas coríntias

Foto: Wikimedia Commons

Na fachada do Panteão de Roma, gravada em letras de bronze com quase dois metros de altura, há uma frase que engana milhões de visitantes todos os anos: "M·AGRIPPA·L·F·COS·TERTIVM·FECIT" — "Marco Agripa, filho de Lúcio, construiu isto em seu terceiro consulado". O problema é que o edifício que está diante de quem lê essa inscrição não foi construído por Agripa. Foi erguido quase 150 anos depois, por ordem do imperador Adriano, que decidiu manter o crédito ao antecessor mesmo reconstruindo o templo do zero.

Do templo de Agripa às cinzas, duas vezes

O primeiro Panteão foi mesmo obra de Marco Vipsânio Agripa, general, genro e braço direito do imperador Augusto, que o mandou construir em 27 a.C. como parte de um amplo programa de obras públicas em Roma. Esse templo original tinha planta retangular, bem diferente da rotunda que existe hoje, e foi dedicado "a todos os deuses" — significado literal da palavra grega "pantheion".

Esse primeiro edifício não sobreviveu. Um incêndio destruiu boa parte dele no ano 80 d.C., durante o reinado de Tito. O imperador Domiciano mandou reconstruí-lo, mas um raio atingiu a estrutura em 110 d.C. e o fogo tomou conta outra vez. Foi só na segunda reconstrução, comandada por Adriano entre 118 e 128 d.C., que o Panteão ganhou a forma que conhecemos: um pórtico de dezesseis colunas de granito egípcio ligado a uma rotunda coberta por uma cúpula monumental. Adriano, que tinha fascínio pessoal por arquitetura e geometria, optou por preservar a inscrição original em homenagem a Agripa — um gesto raro de humildade num império acostumado a apagar nomes de antecessores.

Vista interna do óculo no topo da cúpula do Panteão

O óculo, com cerca de 8,7 metros de diâmetro, é a única fonte de luz — e também deixa entrar chuva.

Uma cúpula que ainda intriga engenheiros

O que torna o Panteão excepcional não é só a idade, mas a proeza estrutural. A cúpula tem 43,3 metros de diâmetro interno, medida exatamente igual à altura do vão até o topo — se fosse possível encaixar uma esfera perfeita dentro da rotunda, ela tocaria o chão, as paredes e o teto ao mesmo tempo. Quase dois mil anos depois, ainda é a maior cúpula de concreto não armado do mundo.

Os construtores romanos resolveram o problema do peso com um truque duplo: a espessura da cúpula diminui de 6 metros na base para pouco mais de 1 metro no topo, e o concreto usado na base é feito com agregado pesado de travertino, enquanto no topo entra pedra-pomes vulcânica, bem mais leve. Os caixotões quadrados entalhados na superfície interna também reduzem massa sem comprometer a resistência. No centro, um vão circular de cerca de 8,7 metros de diâmetro — o óculo — é a única abertura da cúpula. Não tem vidro nem cobertura: quando chove em Roma, chove dentro do Panteão, e a água escoa por um sistema de drenagem discreto embutido no piso original.

De templo pagão a igreja — e túmulo de um gênio renascentista

A sobrevivência do Panteão até hoje, praticamente intacto, tem uma explicação simples: em 609, o imperador bizantino Fócas doou o edifício ao papa Bonifácio IV, que o converteu na igreja de Santa Maria ad Martyres, dedicada à Virgem Maria e a todos os mártires cristãos. Enquanto outros monumentos da Roma antiga eram saqueados como pedreira ao longo da Idade Média, o Panteão, agora um espaço sagrado em uso contínuo, ficou relativamente protegido.

Séculos depois, o edifício se tornou também um panteão no sentido mais literal: lugar de sepultamento de figuras ilustres. Alguns nomes:

  • O pintor Rafael Sanzio, morto em 1520, está sepultado sob uma escultura da Madonna do Sasso, de Lorenzetto — ele mesmo pediu para ser enterrado ali.
  • Vittorio Emanuele II, primeiro rei da Itália unificada, foi sepultado no Panteão após sua morte em 1878.
  • Seu filho e sucessor, Umberto I, também descansa no monumento, ao lado da esposa, a rainha Margherita.

Mais de mil e quinhentos anos depois de virar igreja, o Panteão segue em atividade religiosa e é, ao mesmo tempo, um dos monumentos mais visitados de Roma — entrada gratuita para quem quiser ver, com os próprios olhos, o feixe de luz que atravessa o óculo e percorre lentamente as paredes da rotunda ao longo do dia, do mesmo jeito que fazia há quase dois milênios.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Parada gratuita obrigatória em Romas. Não esqueça de molhar as mãos na fonte em frente ao portão da entrada.

Onde fica

  • Panteão de Roma Histórico
    Panteão, Piazza della Rotonda, Roma, Itália

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Café Tortoni: o salão de 1858 que virou point de Borges e do tango em Buenos Aires

Interior histórico do Café Tortoni, em Buenos Aires

Foto: Wikimedia Commons

Na Avenida de Mayo, uma das ruas mais importantes do centro histórico de Buenos Aires, o Café Tortoni abriu em 1858 e reivindica o título de café mais antigo ainda em funcionamento na cidade. Inspirado nos grandes cafés parisienses do século XIX — inclusive batizado em homenagem a um café de Paris —, o Tortoni se tornou ao longo de mais de 160 anos um dos símbolos culturais mais importantes da capital argentina.

Point da vida intelectual portenha

Desde o início do século XX, o Tortoni atraiu escritores, pintores, músicos e políticos, consolidando-se como point central da vida cultural de Buenos Aires. O escritor Jorge Luis Borges, um dos nomes mais importantes da literatura argentina e mundial, era frequentador assíduo, assim como o poeta e diplomata mexicano Alfonso Reyes e diversos outros nomes da chamada geração literária do início do século XX.

Carlos Gardel e o tango

O Tortoni também tem ligação direta com a história do tango: Carlos Gardel, o mais célebre cantor do gênero, frequentava o café, e hoje o subsolo do estabelecimento abriga apresentações regulares de tango ao vivo, mantendo viva essa conexão entre o café e um dos símbolos culturais mais reconhecidos da Argentina no mundo.

Salão principal do Café Tortoni

O salão principal preserva vitrais, mármore e mobiliário de fins do século XIX.

Academia Nacional do Tango

No andar superior do prédio funciona a Academia Nacional del Tango, instituição dedicada a preservar e estudar a história do gênero musical — mais uma camada da relação profunda entre o Tortoni e a identidade cultural argentina, que vai muito além de simplesmente servir café e doces.

Interior decorado do Café Tortoni

Estátuas de bronze de frequentadores históricos, como Borges, decoram o salão.

Dicas para a visita

Vale reservar com antecedência para os espetáculos de tango no subsolo, que costumam esgotar rapidamente, especialmente em alta temporada turística. A localização na Avenida de Mayo facilita combinar a visita com um passeio até a Casa Rosada e a Plaza de Mayo, ambas a poucos minutos a pé.

Onde fica

  • Café Tortoni Cafeteria
    Avenida de Mayo 825, Buenos Aires, Argentina

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📍 Dica rápida

The Dead Rabbit: coquetelaria premiada no Financial District

O The Dead Rabbit é um dos bares mais premiados do mundo, com coquetéis autorais e ambiente que remete aos pubs irlandeses antigos de Nova York.

Interior do bar The Dead Rabbit em Nova York

Foto: Wikimedia Commons

Onde fica

  • The Dead Rabbit Bar
    The Dead Rabbit, 30 Water Street, Nova York, Estados Unidos
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📍 São Francisco

Golden Gate Bridge: a ponte que devia ser cinza e virou o laranja mais famoso do mundo

Golden Gate Bridge ao entardecer, vista da baía de São Francisco

Foto: Wikimedia Commons

A cor mais famosa de São Francisco quase não existiu. Em 1933, quando a construção da Golden Gate Bridge começou, a Marinha dos Estados Unidos queria pintá-la de amarelo com listras pretas, para garantir visibilidade máxima aos navios. O engenheiro-chefe Joseph Strauss discordou — e essa discordância acabou moldando a aparência de uma das pontes mais fotografadas do planeta.

Um projeto nascido no fundo da Depressão

As obras começaram em 5 de janeiro de 1933, bem no meio da Grande Depressão, quando poucos bancos ainda emprestavam dinheiro para projetos de infraestrutura. Strauss conseguiu financiamento vendendo títulos municipais garantidos pelos próprios condados ao redor da baía de São Francisco — uma aposta arriscada numa época de desemprego recorde. Quatro anos depois, em 19 de abril de 1937, a pista ficou pronta, e a ponte abriu ao público em 27 de maio daquele ano. Na época, seu vão principal de mil duzentos e oitenta metros era o maior do mundo entre pontes suspensas, um recorde que ela manteria por quase três décadas. O projeto final também contou com os cálculos estruturais do engenheiro Charles Ellis e as contribuições do especialista em pontes suspensas Leon Moisseiff, embora Strauss tenha sido, por muito tempo, o único nome oficialmente associado à obra.

Foto aérea da Golden Gate Bridge em construção

A ponte ainda incompleta, durante a construção

A cor que ficou por acidente

O aço usado na estrutura chegava de fábrica já revestido por um primer avermelhado, aplicado só para proteger contra ferrugem durante o transporte — não era para ser a cor final. Mas o arquiteto consultor Irving Morrow, responsável pelo desenho art déco da ponte, viu aquele tom alaranjado contra o azul da baía e o cinza constante da neblina e decidiu que combinava perfeitamente com a paisagem, além de se destacar contra o horizonte em dias nublados — o mesmo argumento de visibilidade que a Marinha usava a favor do amarelo. O tom ganhou o nome de international orange, e os próprios operários que trabalhavam nele o adotaram como apelido não oficial da ponte.

Uma rede que salvou dezenove vidas

Strauss também insistiu em medidas de segurança incomuns para a época, incluindo capacete obrigatório e uma rede suspensa sob parte do tablado, instalada em junho de 1936 por cento e trinta mil dólares. A rede tinha quase um quilômetro de comprimento e ficava cerca de quatro metros e meio abaixo da pista. Ao longo da obra, ela salvou dezenove operários que caíram e sobreviveram — o suficiente para formarem, entre eles mesmos, o que apelidaram de Halfway to Hell Club, o clube do meio caminho para o inferno. Mesmo assim, onze trabalhadores morreram durante a construção, dez deles numa única queda de andaime em fevereiro de 1937, poucos meses antes da inauguração. Pelo padrão da indústria da época — uma morte esperada a cada milhão de dólares investidos —, um projeto de trinta e cinco milhões de dólares deveria ter registrado trinta e cinco mortes. A rede de Strauss reduziu esse número a menos de um terço.

Golden Gate Bridge coberta pela neblina característica de São Francisco

A neblina que ajudou a decidir a cor da ponte

Quase nove décadas depois, a cor que nasceu como um simples primer de fábrica continua sendo o motivo pelo qual a Golden Gate Bridge se destaca em quase toda foto de São Francisco — uma decisão estética hoje tratada como parte essencial da identidade da cidade, embora tenha nascido de uma discordância sobre segurança de navegação que praticamente ninguém mais lembra.

📝 Nota do editor (Peter Goldstein): Para quem planeja visitar a Golden Gate. Alugue uma bicicleta na Union Square, Vá até o Fisherman's Wharf, pedale pela orla, parada obrigatória no famoso Pier 39, coma um chocolate na Girardelli, pedale bem calmamente pela Golden Gate, apreciando toda a sua beleza, e desça até Salsalito antes de pegar a balsa para voltar para San Francisco. Inesquecível

Onde fica

  • Golden Gate Bridge Histórico
    Golden Gate Bridge, San Francisco, Califórnia, Estados Unidos

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