Na esquina da Bourbon com a St. Philip existe um prédio baixo, de tijolo aparente entre postes de madeira — a técnica colonial francesa chamada briquette-entre-poteaux — que se apresenta como a estrutura mais antiga usada como bar nos Estados Unidos. É uma afirmação forte, e vale destrinchar, porque a versão oficial e o cartório não combinam.
O bar diz que a construção é de algum ponto entre 1722 e 1732, obra de Nicolas Touzé. A lenda que dá nome à casa vai adiante: os irmãos Jean e Pierre Lafitte, corsários e contrabandistas que operavam a partir da Barataria, teriam usado a ferraria como fachada para lavar o produto do saque. É uma história ótima. O problema é que o jornal Times-Picayune apontou documentos legais que datam o prédio de 1772 — meio século depois do que o bar afirma. E Pierre Lafitte só chegou à Luisiana em 1803.
Tem mais: o primeiro registro de licença para funcionar como bar naquele endereço é de 1933, quando Mary Collins, Thomas Caplinger e Harold Bartell abriram ali um restaurante chamado Café Lafitte. Ou seja, a função de bar é documentada a partir do fim da Lei Seca, não do século XVIII.
Nada disso torna o lugar menos notável. Mesmo pela data conservadora, 1772, a estrutura é anterior à independência dos Estados Unidos e sobreviveu aos dois grandes incêndios que consumiram o French Quarter no fim do século XVIII — o que é, por si só, raro. Em 1970 o prédio foi declarado National Historic Landmark.
Por dentro, o bar aposta na atmosfera: pouca luz elétrica, velas, paredes de tijolo à mostra e nenhum esforço para parecer novo. É o contraste mais brusco possível com o resto da Bourbon Street, a poucos metros dali.




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