Existe um bairro em Buenos Aires com mais de 4.500 endereços, ruas internas com esquinas e até uma igreja bem no meio — mas nenhum dos moradores sai de casa há mais de um século. É o Cemitério da Recoleta, e sua origem é bem menos solene do que a fama de necrópole monumental sugere: tudo começou como a horta de um convento.
Da horta dos frades ao primeiro cemitério público
No início do século 18, frades franciscanos da ordem dos Recoletos Descalzos se instalaram na região e ergueram, em 1732, a igreja dedicada a Nossa Senhora do Pilar — que ainda hoje está de pé, encostada no muro do cemitério. Foi o apelido do convento, "la Recoleta", que acabou batizando todo o bairro.
Em 1822, o governo de Buenos Aires dissolveu a ordem religiosa dentro de uma reforma eclesiástica mais ampla, e a horta do convento foi escolhida para abrigar o primeiro cemitério público da cidade. Inaugurado em 17 de novembro daquele ano e batizado inicialmente de Cementerio del Norte, o traçado geométrico do local — com avenidas centrais e quarteirões de túmulos — foi projetado pelo engenheiro francês Próspero Catelin. Décadas depois, em 1881, o primeiro intendente de Buenos Aires, Torcuato de Alvear, mandou reformar a entrada, criando o pórtico neoclássico de colunas dóricas que os visitantes atravessam até hoje.
Hoje o cemitério ocupa cerca de 5,5 hectares e reúne mais de 4.500 mausoléus e bóvedas, em estilos que vão do neogótico ao art nouveau, passando por réplicas de templos gregos e até uma pequena pirâmide egípcia. Mais de 90 dessas construções foram declaradas Monumento Histórico Nacional pela Argentina. Aos finais de semana e feriados, o governo da cidade oferece visitas guiadas gratuitas pelos corredores, e o portão de acesso segue aberto todos os dias, das 9h às 17h.
A moradora mais visitada
Nenhum túmulo recebe mais visitantes do que o da família Duarte, a 200 metros do portão principal. Ali, cinco metros abaixo do solo, protegidos por duas placas de aço, estão os restos de Eva Perón.
A história para ela chegar até aqui foi longa. Evita morreu em 26 de julho de 1952, vítima de câncer, e seu corpo foi embalsamado pelo médico espanhol Pedro Ara para ficar em exposição pública. Por quase três anos ele permaneceu velado na sede da CGT, a central sindical peronista, até o golpe de 1955 derrubar o governo de Juan Perón. Os novos militares no poder ordenaram o sequestro do corpo, que desapareceu por quase 16 anos, enterrado secretamente na Itália sob o nome falso de María Maggi. Só voltou às mãos da família em 1971, em Madri, e somente em 1974 — já com o peronismo de volta ao poder — os restos foram repatriados e depositados na bóveda dos Duarte, de linhas art déco dos anos 1930, atrás de uma porta de bronze com festões de flores e folhas. Desde então, os dois metros de aço sob a bóveda funcionam como garantia de que a história não vai se repetir.
A bóveda da família Duarte recebe fluxo constante de visitantes e homenagens.
Vizinhos ilustres e uma lenda que assombra os corredores
Eva Perón divide os corredores da Recoleta com boa parte do panteão argentino:
- Domingo Faustino Sarmiento, presidente e escritor, um dos nomes mais citados da história do país;
- Luis Federico Leloir, único argentino a vencer um Nobel de Química, sepultado entre generais e ex-presidentes;
- Rufina Cambaceres, jovem de 19 anos enterrada em 1902 após ser dada como morta durante um ataque de catalepsia — e cujo corpo, segundo a lenda mais famosa do cemitério, teria sido encontrado depois fora do caixão, arranhando a tampa por dentro.
Seja qual for o grau de verdade nas histórias de fantasmas, é essa mistura de política, arte funerária e mito popular que faz da Recoleta um dos poucos cemitérios do mundo tratados como monumento nacional e ponto turístico ao mesmo tempo — uma horta de convento que, dois séculos depois, virou um dos endereços mais concorridos de Buenos Aires, mesmo sem nenhum morador vivo.



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