Em 27 de julho de 2026, reunido em Busan, na Coreia do Sul, o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco aprovou a candidatura conjunta "Teatros da Amazônia" — formada pelo Teatro Amazonas, em Manaus, e pelo Theatro da Paz, em Belém. Com a decisão, os dois teatros se tornaram o primeiro Patrimônio Mundial Cultural da Região Norte do Brasil, elevando para 26 o número de sítios brasileiros na lista da Unesco. Para um edifício erguido no meio da floresta havia 130 anos, o reconhecimento fechou um ciclo e reacendeu a pergunta: como um teatro de ópera desse porte foi parar em Manaus?
A ambição de uma "Paris dos trópicos"
A resposta está no látex. No fim do século XIX, o ciclo da borracha transformou Manaus numa das cidades mais ricas do mundo, e a elite local — enriquecida pela exportação da matéria-prima para pneus e produtos industriais — decidiu provar que a capital amazonense podia rivalizar com as grandes capitais europeias. O projeto do teatro foi apresentado à Assembleia Provincial em 21 de maio de 1881 pelo deputado Antônio José Fernandes Júnior, e a obra foi vencida pelo Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa, com coordenação do arquiteto italiano Celestial Sacardim.
As obras começaram em 1884, mas o ritmo foi tudo menos linear: ganharam impulso entre 1890 e 1891, pararam por falta de recursos, foram retomadas em 1893 e só terminaram três anos depois. O Teatro Amazonas foi finalmente inaugurado em 31 de dezembro de 1896, com a ópera "La Gioconda", de Amilcare Ponchielli.
O interior do teatro reúne mármore de Carrara, ferro fundido e vitrais trazidos da Europa
Mármore de Carrara, ferro escocês e telhas da Alsácia
Praticamente nada na construção veio do Amazonas. Os tijolos chegaram da Europa como lastro dos navios que voltavam vazios após levar a borracha; o ferro da estrutura foi fundido na Escócia; os espelhos e o cristal são franceses; e o mármore de Carrara reveste escadarias e colunas. O estilo é renascentista, com uma cúpula revestida por 36 mil peças de cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas vindas da Alsácia, pintadas nas cores verde, amarelo e azul em referência à bandeira brasileira.
- O Pano de Boca — a cortina principal do palco — foi pintado em 1894 pelo artista brasileiro Crispim do Amaral e retrata o encontro dos rios Negro e Solimões.
- A plateia tem 701 lugares, divididos entre 266 poltronas na plateia, frisas e quatro pavimentos de camarotes.
- A pintura ornamental da cúpula é assinada por Lourenço Machado.
- O teatro fica no Largo de São Sebastião, no Centro Histórico de Manaus, conjunto que reúne também a Igreja de São Sebastião e o Monumento à Abertura dos Portos.
Do apogeu ao abandono, e do abandono ao símbolo
A euforia durou pouco. Quando sementes de seringueira contrabandeadas para o Sudeste Asiático quebraram o monopólio amazônico da borracha, no início do século XX, a economia de Manaus desabou — e o teatro entrou em décadas de descaso, funcionando de forma irregular e sofrendo com a umidade da floresta. Só nos anos 1990 o edifício passou por uma restauração de fôlego, que devolveu brilho aos afrescos, aos lustres de cristal Murano e à cúpula, recolocando o Teatro Amazonas no roteiro internacional de ópera, ballet e do Festival Amazonas de Ópera. Em dezembro de 2023 e janeiro de 2024 o prédio fechou de novo, dessa vez por escolha própria, para um novo ciclo de manutenção e restauro, reabrindo ao público em fevereiro de 2024.
É essa capacidade de sobreviver ao próprio ciclo que explica por que a Unesco olhou para um teatro de ópera no meio da Amazônia e viu ali um patrimônio da humanidade: não apenas o luxo importado da Belle Époque, mas a prova de que a floresta também escreveu capítulos de sua história em mármore e cristal, e ainda os mantém em pé mais de um século depois.
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