Nenhuma pedra de Stonehenge nasceu ali. É esse o primeiro fato que costuma surpreender quem visita a planície de Salisbury, no sul da Inglaterra: o monumento mais famoso da pré-história europeia é feito de rochas trazidas de dezenas, às vezes centenas de quilômetros de distância, por pessoas que não tinham rodas, cavalos domesticados nem ferramentas de metal.
Um canteiro de obras que durou 1.500 anos
A construção não foi um projeto único, mas uma sequência de fases que se estendeu de cerca de 3000 a.C. até aproximadamente 1500 a.C. A primeira etapa, por volta de 3000 a.C., não envolveu pedra nenhuma: os construtores neolíticos cavaram um fosso circular e um banco de terra, e dentro desse círculo abriram 56 buracos hoje chamados de Aubrey Holes, em homenagem ao anticuário John Aubrey, que os identificou no século XVII.
As primeiras pedras só chegaram séculos depois. As chamadas bluestones (pedras azuis), com até 4 toneladas cada, vieram das colinas de Preseli, no País de Gales — uma viagem de mais de 240 km que, até hoje, os arqueólogos não sabem explicar por completo: teria sido por terra, por mar, arrastadas em trenós de madeira, ou uma combinação dos três? Só por volta de 2500 a.C. chegaram as sarsen, pedras muito maiores, algumas com mais de 25 toneladas, trazidas de Marlborough Downs, cerca de 32 km ao norte. Foram elas que formaram os trilitos — pares de pedras verticais encimadas por uma pedra horizontal — incluindo o famoso arranjo em ferradura no centro do monumento.
A Heel Stone, fora do círculo, marca o ponto onde o sol nasce no solstício de verão.
Para que serve um círculo de pedra?
Ninguém sabe ao certo — e é exatamente essa incerteza que sustenta boa parte do fascínio em torno de Stonehenge. A hipótese mais aceita hoje combina várias funções: um calendário astronômico, um cemitério e um santuário para cerimônias ligadas aos ciclos solares. O alinhamento é o dado mais concreto que existe. No solstício de verão, o sol nasce quase exatamente sobre a Heel Stone, a pedra solitária posicionada fora do círculo principal, e sua luz atravessa o eixo do monumento até o centro. No solstício de inverno, o efeito se inverte, com o pôr do sol alinhado pelo mesmo eixo.
Escavações revelaram cremações humanas enterradas nos Aubrey Holes e ao redor do sítio, datadas de diferentes séculos ao longo de centenas de anos — o que sugere que o local funcionou como necrópole por muito tempo antes, durante e depois da construção dos círculos de pedra. Não era, portanto, um monumento erguido de uma só vez para um único propósito, mas um lugar que foi ganhando significados sucessivos ao longo de sessenta gerações.
De propriedade particular a patrimônio da humanidade
Em 21 de setembro de 1915, Stonehenge foi vendido em leilão no Palace Theatre, em Salisbury — na época, a terra ainda pertencia a uma propriedade rural privada. O comprador foi Cecil Chubb, um advogado local, que pagou 6.600 libras pelo monumento. A lenda popular diz que ele comprou como presente para a esposa; o próprio Chubb, mais tarde, afirmou que quis apenas evitar que as pedras fossem parar nas mãos de compradores estrangeiros. Três anos depois, em 1918, ele doou Stonehenge ao povo britânico, e o primeiro-ministro David Lloyd George o tornou baronete em reconhecimento ao gesto. Em 1986, a UNESCO reconheceu Stonehenge e o sítio arqueológico vizinho de Avebury como Patrimônio Mundial, citando a concentração excepcional de monumentos neolíticos e da Idade do Bronze na região.
- As bluestones pesam até 4 toneladas e vieram de mais de 240 km de distância.
- As sarsen, algumas com mais de 25 toneladas, vieram de Marlborough Downs, a 32 km.
- O monumento foi construído e modificado ao longo de cerca de 1.500 anos.
- Foi vendido em leilão em 1915 por 6.600 libras — hoje pertence ao público britânico.
Os trilitos de pedra sarsen, erguidos por volta de 2500 a.C., formam o núcleo do monumento.
Talvez o dado mais revelador sobre Stonehenge não esteja nas pedras, mas no tempo: uma comunidade sem escrita, sem metal e sem roda manteve um projeto de engenharia coletiva vivo por gerações inteiras, transmitindo de pai para filho o conhecimento necessário para arrastar blocos de 25 toneladas por dezenas de quilômetros. As pedras seguem de pé há mais de quatro mil anos — o propósito exato talvez nunca seja resolvido, mas o esforço humano por trás delas fala por si.
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