A cor mais famosa de São Francisco quase não existiu. Em 1933, quando a construção da Golden Gate Bridge começou, a Marinha dos Estados Unidos queria pintá-la de amarelo com listras pretas, para garantir visibilidade máxima aos navios. O engenheiro-chefe Joseph Strauss discordou — e essa discordância acabou moldando a aparência de uma das pontes mais fotografadas do planeta.
Um projeto nascido no fundo da Depressão
As obras começaram em 5 de janeiro de 1933, bem no meio da Grande Depressão, quando poucos bancos ainda emprestavam dinheiro para projetos de infraestrutura. Strauss conseguiu financiamento vendendo títulos municipais garantidos pelos próprios condados ao redor da baía de São Francisco — uma aposta arriscada numa época de desemprego recorde. Quatro anos depois, em 19 de abril de 1937, a pista ficou pronta, e a ponte abriu ao público em 27 de maio daquele ano. Na época, seu vão principal de mil duzentos e oitenta metros era o maior do mundo entre pontes suspensas, um recorde que ela manteria por quase três décadas. O projeto final também contou com os cálculos estruturais do engenheiro Charles Ellis e as contribuições do especialista em pontes suspensas Leon Moisseiff, embora Strauss tenha sido, por muito tempo, o único nome oficialmente associado à obra.
A ponte ainda incompleta, durante a construção
A cor que ficou por acidente
O aço usado na estrutura chegava de fábrica já revestido por um primer avermelhado, aplicado só para proteger contra ferrugem durante o transporte — não era para ser a cor final. Mas o arquiteto consultor Irving Morrow, responsável pelo desenho art déco da ponte, viu aquele tom alaranjado contra o azul da baía e o cinza constante da neblina e decidiu que combinava perfeitamente com a paisagem, além de se destacar contra o horizonte em dias nublados — o mesmo argumento de visibilidade que a Marinha usava a favor do amarelo. O tom ganhou o nome de international orange, e os próprios operários que trabalhavam nele o adotaram como apelido não oficial da ponte.
Uma rede que salvou dezenove vidas
Strauss também insistiu em medidas de segurança incomuns para a época, incluindo capacete obrigatório e uma rede suspensa sob parte do tablado, instalada em junho de 1936 por cento e trinta mil dólares. A rede tinha quase um quilômetro de comprimento e ficava cerca de quatro metros e meio abaixo da pista. Ao longo da obra, ela salvou dezenove operários que caíram e sobreviveram — o suficiente para formarem, entre eles mesmos, o que apelidaram de Halfway to Hell Club, o clube do meio caminho para o inferno. Mesmo assim, onze trabalhadores morreram durante a construção, dez deles numa única queda de andaime em fevereiro de 1937, poucos meses antes da inauguração. Pelo padrão da indústria da época — uma morte esperada a cada milhão de dólares investidos —, um projeto de trinta e cinco milhões de dólares deveria ter registrado trinta e cinco mortes. A rede de Strauss reduziu esse número a menos de um terço.
A neblina que ajudou a decidir a cor da ponte
Quase nove décadas depois, a cor que nasceu como um simples primer de fábrica continua sendo o motivo pelo qual a Golden Gate Bridge se destaca em quase toda foto de São Francisco — uma decisão estética hoje tratada como parte essencial da identidade da cidade, embora tenha nascido de uma discordância sobre segurança de navegação que praticamente ninguém mais lembra.

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