Em 11 de junho de 1962, três detentos desapareceram de dentro do bloco celular mais vigiado dos Estados Unidos e nunca mais foram vistos. Não foram encontrados corpos, não houve avistamentos confirmados e o caso segue oficialmente aberto até hoje no FBI e no U.S. Marshals Service. O cenário dessa fuga sem desfecho é uma ilha rochosa de pouco mais de 8 hectares na Baía de São Francisco: Alcatraz, que por quase 30 anos foi a penitenciária federal mais temida do país — antes disso, havia sido fortaleza militar, e depois, palco de um dos protestos indígenas mais importantes da história americana.
De forte da Corrida do Ouro a prisão militar
O uso de Alcatraz como instalação de segurança começou décadas antes da prisão federal. Em 1850, o presidente Millard Fillmore reservou a ilha para uso militar, e a construção de um forte de alvenaria começou em 1853, ficando pronta em 1858. Cerca de 100 canhões foram instalados para proteger a entrada da Baía de São Francisco, formando um triângulo defensivo junto com Fort Point e Lime Point — resposta direta ao crescimento populacional e comercial trazido pela Corrida do Ouro da Califórnia. Ainda nos anos 1850 o Exército passou a manter prisioneiros na ilha, e durante a Guerra Civil ela abrigou tanto prisioneiros de guerra confederados quanto civis acusados de traição. O crescimento contínuo da população carcerária levou, já na década de 1860, à transformação formal em prisão militar de longo prazo.
A penitenciária reservada para os presos "impossíveis"
Em 1934, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos assumiu a ilha e a transformou em penitenciária federal de segurança máxima, administrada pelo recém-criado Federal Bureau of Prisons. A ideia era simples: reunir num único lugar isolado os detentos considerados incontroláveis em outras prisões federais, apostando no isolamento e nas águas geladas e nas fortes correntes da baía como barreira natural contra fugas. Os primeiros prisioneiros civis chegaram em 11 de agosto de 1934. O bloco celular principal, de concreto, tinha cerca de 150 metros de comprimento — descrito à época como o maior edifício de concreto do mundo — e comportava 336 celas minúsculas, de cerca de 2,7 por 1,5 metro, embora a prisão raramente ultrapassasse 260 a 275 detentos.
Nomes conhecidos passaram por lá. Al Capone chegou em 22 de agosto de 1934, registrado como preso nº 85, e foi transferido em 1939, já debilitado pela sífilis. Robert Stroud, o "Birdman of Alcatraz", cumpriu 17 anos na ilha a partir de 1942 — apesar do apelido, sua fase como criador de pássaros havia ocorrido antes, em Leavenworth. George "Machine Gun" Kelly chegou em setembro de 1934 e ficou até 1951, considerado pelo diretor da prisão um detento modelo.
O bloco celular principal, com suas quatro alas, era considerado o maior edifício de concreto do mundo em 1934.
O motim de 1946 e a fuga que nunca foi resolvida
Nem toda a vigilância evitou momentos de violência extrema. Entre 2 e 4 de maio de 1946, uma tentativa de fuga se transformou em confronto armado que ficou conhecido como a "Batalha de Alcatraz": os agentes penitenciários William Miller e Harold Stites e três detentos morreram, e outros 14 agentes ficaram feridos.
Mas o episódio que definiu a lenda da ilha aconteceu 16 anos depois. Alguns marcos dessa história:
- Na noite de 11 de junho de 1962, Frank Morris e os irmãos Clarence e John Anglin deixaram cabeças falsas de papel machê em suas camas para enganar os guardas noturnos.
- Os três subiram por um duto de ventilação até o telhado do bloco celular e desceram até a água usando uma jangada improvisada com mais de 50 capas de chuva coladas.
- Dias depois, um remo e pedaços da jangada foram encontrados na baía e na Angel Island — mas nenhum corpo jamais apareceu.
- Em 21 de março de 1963, menos de um ano depois, a penitenciária foi fechada. O motivo oficial não foi a fuga, e sim o custo: manter cada preso em Alcatraz saía cerca de três vezes mais caro que em outras prisões federais, e décadas de maresia haviam corroído a estrutura de concreto.
De prisão a símbolo da resistência indígena — e depois, parque nacional
Fechada a prisão, a ilha ficou às vésperas de um novo capítulo. Na madrugada de 20 de novembro de 1969, cerca de 89 ativistas do grupo Indians of All Tribes desembarcaram em Alcatraz e a ocuparam, alegando o direito de reaver terras federais abandonadas com base no Tratado de Fort Laramie, de 1868. A ocupação durou cerca de 19 meses e se tornou um marco do ativismo indígena nos Estados Unidos, até que o governo federal removeu à força os últimos ocupantes, em 11 de junho de 1971.
Em 1972, a ilha passou a integrar a recém-criada Golden Gate National Recreation Area, sob administração do National Park Service, e abriu ao público em 25 de outubro de 1973. Já no primeiro ano, mais de 50 mil pessoas visitaram Alcatraz — mais gente do que havia pisado ali em toda a sua história anterior. Hoje a ilha recebe mais de 1 milhão de visitantes por ano, que chegam pelas balsas da concessionária Alcatraz City Cruises e caminham pelos mesmos corredores onde Al Capone cumpriu pena e o motim de 1946 aconteceu.
O pátio de recreação, hoje aberto à visitação, era um dos poucos espaços ao ar livre permitidos aos detentos.
É essa sobreposição de camadas — forte militar, prisão federal, palco de uma fuga irresolvida e símbolo de resistência indígena — que faz de Alcatraz um dos poucos lugares no mundo onde capítulos tão diferentes da história americana se cruzam no mesmo pedaço de rocha em meio à baía.
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