Quantas vezes uma briga administrativa termina criando uma das instituições mais duradouras do conhecimento ocidental? Foi o que aconteceu em Pádua, no nordeste da Itália, em 1222: um grupo de professores e estudantes deixou a Universidade de Bolonha, a poucos dias de viagem dali, insatisfeito com as restrições impostas pelas autoridades da cidade à liberdade acadêmica. Em vez de negociar, atravessaram a região e fundaram sua própria escola. Oitocentos anos depois, a Universidade de Pádua segue funcionando, e é hoje a segunda mais antiga da Itália e a quinta mais antiga do mundo ainda em atividade.
Uma liberdade que virou lema
O episódio fundador marcou a identidade da instituição desde o início. Pádua, então sob domínio da República de Veneza, ofereceu aos recém-chegados um ambiente de maior autonomia do que Bolonha estava disposta a garantir. Essa origem ficou gravada no lema que a universidade adota até hoje, Universa Universis Patavina Libertas — algo como "a liberdade padovana para todos os universitários". Na prática, isso significava que estudantes de qualquer origem, nacionalidade ou religião podiam se matricular e ensinar, uma postura rara para os padrões do século 13. Em 1493, a universidade se instalou no Palazzo del Bo, no centro histórico de Pádua, batizado assim por causa de uma antiga hospedaria decorada com a cabeça de um boi ("bo", em dialeto vêneto) que funcionava no local. É lá que a reitoria continua sediada até hoje.
O palco de Galileu e o primeiro teatro de anatomia do mundo
Foi dentro do Palazzo del Bo que Galileu Galilei lecionou matemática entre 1592 e 1610, os dezoito anos que ele próprio descreveria mais tarde como os melhores de sua vida. A cátedra de madeira de onde ele dava aulas ainda pode ser vista no prédio. Mas o edifício guarda um recorde ainda mais raro: em 1594, sob orientação do anatomista Girolamo Fabrici d'Acquapendente, a universidade inaugurou o primeiro teatro anatômico permanente do mundo, um auditório ovalado de madeira escura com fileiras de balcões estreitos, dispostos quase na vertical, de onde estudantes se debruçavam para observar dissecações à luz de velas. O Teatro Anatomico de Pádua é hoje a mais antiga estrutura desse tipo ainda preservada no mundo. Décadas antes de sua construção, já em teatros anatômicos provisórios de madeira, o próprio Andreas Vesalius havia lecionado cirurgia e anatomia em Pádua, entre 1537 e 1542, período em que reuniu boa parte do material do tratado que revolucionaria o estudo do corpo humano no século 16.
O Teatro Anatômico, inaugurado em 1594, é o mais antigo do mundo ainda de pé.
A primeira mulher a receber um diploma universitário
Quase um século depois, o Palazzo del Bo protagonizou outro marco. Em 25 de junho de 1678, a veneziana Elena Lucrezia Cornaro Piscopia subiu ao púlpito da catedral de Pádua — o salão da universidade não era grande o suficiente para a multidão que queria assistir — e discursou por uma hora em latim clássico, comentando trechos de Aristóteles sorteados na hora por seus examinadores. Ao final, tornou-se a primeira mulher da história a receber um título de doutora por uma universidade. Ela havia sido inicialmente barrada de estudar teologia pelo bispo local, que considerava o tema impróprio para uma mulher; acabou se doutorando em filosofia como alternativa. Outros nomes também passaram pelos claustros de Pádua ao longo dos séculos, entre eles:
- Nicolau Copérnico, que estudou direito canônico e medicina na universidade entre 1501 e 1503, anos antes de formular sua teoria heliocêntrica;
- William Harvey, que se formou em medicina em Pádua em 1602 e mais tarde descreveria a circulação sanguínea;
- o Orto Botanico di Padova, criado em 1545 como horto de plantas medicinais da própria universidade e reconhecido pela Unesco como o jardim botânico acadêmico mais antigo do mundo ainda no local original.
Elena Cornaro Piscopia (1646–1684), a primeira mulher doutora do mundo.
Oito séculos depois da debandada que a fundou, a Universidade de Pádua ainda funciona no mesmo endereço, e o Palazzo del Bo continua recebendo visitantes que sobem os mesmos degraus de pedra gastos por gerações de estudantes, professores e dissidentes. Poucos lugares no mundo conseguem contar, num único edifício, a história de como a insistência em ensinar e aprender livremente atravessou impérios, pestes e séculos sem nunca fechar as portas.



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