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Caffè Pedrocchi: o café de Pádua que ficou de portas abertas dia e noite por quase um século

Fachada neoclássica do Caffè Pedrocchi em Pádua, Itália

Foto: Wikimedia Commons

Durante quase cem anos, o Caffè Pedrocchi não teve uma única fechadura. Literalmente: entre a inauguração, em 1831, e o ano de 1916, o salão de Pádua ficava aberto dia e noite, sem portas para trancar, o que lhe rendeu o apelido de "il caffè senza porte" — o café sem portas. Era uma declaração de intenções do seu criador, Antonio Pedrocchi, filho de um comerciante de café de Bergamo: transformar o pequeno estabelecimento herdado do pai em, nas palavras da época, "o café mais bonito da Terra".

Um palácio neoclássico para tomar café

Para isso, Pedrocchi contratou o arquiteto Giuseppe Jappelli, que assinou um edifício neoclássico com pórticos abertos para a rua e colunas jônicas, inaugurado em 1831. Em 1836, Jappelli somou ao conjunto um anexo em estilo neogótico, a chamada Pedrocchino, destinada à confeitaria. O interior foi dividido em salas com funções distintas: a Sala Verde, de acesso gratuito, onde qualquer pessoa podia entrar para se aquecer ou ler jornais sem consumir nada; a Sala Bianca, também aberta ao público; e salões reservados a clientes pagantes, decorados com afrescos de inspiração egípcia, grega, etrusca e mourisca. Perto da Universidade de Pádua — fundada em 1222 e uma das mais antigas do mundo —, o café virou ponto de encontro natural de estudantes, professores, artistas e viajantes estrangeiros.

Átrio interno do Caffè Pedrocchi com colunas e mesas

O átrio interno do Pedrocchi, com as colunas desenhadas por Giuseppe Jappelli.

O tiro que marcou a Sala Bianca

Essa proximidade com a vida universitária custou caro em 8 de fevereiro de 1848. Estudantes e cidadãos de Pádua se levantaram contra a dominação austríaca dentro e nos arredores do café, em um dos episódios que anteciparam a Primeira Guerra de Independência italiana e a onda revolucionária conhecida como "Primavera dos Povos". Soldados austríacos reprimiram o levante à força: sete pessoas morreram nos confrontos, e a universidade expulsou 73 estudantes e quatro professores envolvidos no protesto. Até hoje, uma placa marca na Sala Bianca o ponto exato atingido por um disparo durante o confronto — o buraco de bala ficou preservado na parede como testemunho do episódio, e a data batiza a própria rua onde o café fica, a Via VIII Febbraio.

De ponto de resistência a patrimônio da cidade

  • Em 1891, após a morte de Antonio Pedrocchi, seu filho adotivo, Domenico Cappellato Pedrocchi, doou o edifício inteiro à cidade de Pádua.
  • Parte do complexo abriga hoje o Museu do Risorgimento e da Idade Contemporânea, dedicado justamente à unificação italiana.
  • O café continua em funcionamento, servindo seu prato mais famoso: o "caffè alla Pedrocchi", um espresso em xícara de cappuccino com creme de menta e cacau.
Xilogravura histórica do Caffè Pedrocchi no século XIX

Gravura do século XIX retratando o movimento do café pouco depois de sua inauguração.

Todos os anos, os estudantes de Pádua ainda relembram 8 de fevereiro de 1848 com uma festa própria, a "tribuna", perpetuando a memória do dia em que um salão pensado para servir café virou, por algumas horas, palco de um confronto que ajudou a mudar o mapa da Itália.

Onde fica

  • Caffè Pedrocchi Cafeteria
    Caffè Pedrocchi, Via VIII Febbraio, Pádua, Itália

💬 Comentários (1)

Pedro Souza 07/08/2026

Ótimo lugar para tomar um café.
Parabéns pelo artigo, Muito útil.



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Instituto Ricardo Brennand: o castelo em meio à mata que guarda a maior coleção de Frans Post do mundo

Fachada do castelo do Instituto Ricardo Brennand, em Recife

Foto: Wikimedia Commons

No bairro da Várzea, cercado por um dos últimos fragmentos de Mata Atlântica preservada dentro do perímetro urbano de Recife, ergue-se um castelo com torres, arcos e ameias que lembra as fortalezas medievais europeias. Não é réplica de cenário nem construção antiga: o Instituto Ricardo Brennand foi inaugurado em 2002 para abrigar a coleção particular de um só homem, reunida ao longo de mais de setenta anos.

Um colecionador que começou aos sete anos

Ricardo Coimbra de Almeida Brennand nasceu em Pernambuco em 1927 e ganhou o primeiro item de sua futura coleção — um canivete — do tio, ainda criança. Formou-se engenheiro pela Universidade Federal de Pernambuco em 1949 e construiu carreira à frente de empresas da família ligadas a vidro, aço, cerâmica, cimento, porcelana e açúcar. Em 1999, após vender as fábricas de cimento do grupo, usou parte dos recursos para erguer, em terras de um antigo engenho, o instituto cultural sem fins lucrativos que hoje leva seu nome.

Castelo do Instituto Ricardo Brennand cercado por jardins, em Recife

O conjunto arquitetônico, conhecido como Castelo Brennand, reúne museu, pinacoteca e jardim de esculturas.

Um castelo de estilo Tudor em pleno Nordeste

Batizado informalmente de Castelo Brennand, o conjunto reúne o Museu Castelo São João, a Pinacoteca, os Jardins das Esculturas e a Biblioteca José Antônio Gonsalves de Mello, todos com torres, arcos e detalhes em cerâmica que remetem ao gótico Tudor, estilo tardio da arquitetura medieval inglesa de origem galesa. A propriedade ocupa uma área de cerca de 77.600 metros quadrados, boa parte dela tomada por reserva de mata preservada — um contraste deliberado entre a arquitetura europeia e a paisagem tropical que a envolve.

Frans Post, armaduras e a espada de um rei egípcio

A Pinacoteca do instituto abriga a maior coleção particular do mundo de obras do pintor holandês Frans Post, que retratou paisagens do Brasil durante o período do domínio neerlandês sob o conde Maurício de Nassau, no século XVII. Já o acervo de armas brancas e armaduras europeias reúne entre três e quatro mil peças produzidas entre os séculos XVI e XIX, incluindo um conjunto completo de armadura maximiliana para cavalo e cavaleiro de cerca de 1515, uma espada-pistola alemã de 1590 e espadas que pertenceram ao rei Farouk, do Egito, além de armas associadas aos imperadores brasileiros Dom Pedro I e Dom Pedro II.

Portão principal de entrada do Instituto Ricardo Brennand

O portão principal dá acesso aos jardins que cercam o museu, na Várzea, zona oeste de Recife.

Visitação

O instituto funciona de terça a domingo, das 13h às 17h, com ingresso pago — na última terça-feira de cada mês, a entrada é gratuita. Hoje é tratado como um dos principais pontos turísticos e culturais de Pernambuco, citado com frequência como um dos maiores acervos particulares de armas brancas do mundo aberto ao público, e segue funcionando como espaço de pesquisa e conservação além de museu de visitação.

Onde fica

  • Instituto Ricardo Brennand Ponto Turístico
    Instituto Ricardo Brennand, Alameda Antônio Brennand, Recife - PE

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Café Majestic: o salão Art Nouveau do Porto que teria inspirado cenários de Harry Potter

Fachada Art Nouveau do Café Majestic, no Porto

Foto: Wikimedia Commons

Na Rua de Santa Catarina, uma das ruas comerciais mais movimentadas do Porto, um salão de espelhos, madeira entalhada e estuques dourados abriu em 1921 sob o nome de Elite Café, rebatizado pouco depois de Café Majestic. Considerado um dos cafés históricos mais bonitos da Europa, o Majestic é um dos exemplos mais completos de decoração Art Nouveau preservados em Portugal.

Um salão de luxo nos anos 1920

A decoração combina espelhos emoldurados, esculturas em madeira, couro trabalhado e detalhes em estuque dourado no teto, num estilo que remete diretamente à estética Art Nouveau em voga na Europa no início do século XX. O luxo do espaço fez do Majestic ponto de encontro da burguesia portuense e de intelectuais da cidade desde a inauguração.

A lenda da conexão com Harry Potter

Uma das histórias mais repetidas sobre o Majestic é a de que a escritora J.K. Rowling, que morou no Porto no início dos anos 1990, teria se inspirado no café — e na cidade em geral, incluindo a Livraria Lello — para criar elementos do universo de Harry Potter. A própria autora, em diferentes entrevistas ao longo dos anos, tratou essa conexão de forma ambígua, o que não impediu o Majestic de se tornar um point turístico ainda mais procurado por fãs da saga.

Interior decorado do Café Majestic

Espelhos e talha dourada compõem a decoração Art Nouveau do salão.

Sobrevivente de tempos difíceis

Ao longo do século XX, o Majestic passou por períodos de decadência, incluindo o fechamento temporário nas décadas de 1970 e 1980, período de instabilidade econômica em Portugal. O café foi restaurado e reaberto na década de 1990, recuperando o esplendor original e se consolidando de vez como atração turística da cidade, além de café tradicional para os portuenses.

Detalhes do salão do Café Majestic

O café foi restaurado nos anos 1990, recuperando o esplendor original de 1921.

Dicas para a visita

Por ser uma das atrações mais fotografadas do Porto, o Majestic costuma ter fila em horários de pico, especialmente em fins de semana e alta temporada turística. Vale aproveitar a proximidade com a Livraria Lello, outro ponto associado às lendas sobre Harry Potter na cidade, para um roteiro combinado.

Onde fica

  • Café Majestic Cafeteria
    Rua de Santa Catarina 112, Porto, Portugal

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D.O.M.: como Alex Atala colocou os ingredientes da Amazônia na alta gastronomia

Vista do bairro Jardins, em São Paulo, onde fica o restaurante D.O.M.

Foto: Wikimedia Commons

Poucos restaurantes brasileiros mudaram tanto a forma como o mundo enxerga a nossa cozinha quanto o D.O.M., em São Paulo. Aberto no fim dos anos 1990 pelo chef paulistano Alex Atala, o restaurante ficou conhecido por fazer o caminho inverso do que se esperava de um chef brasileiro naquela época: em vez de reproduzir técnicas francesas com ingredientes importados, Atala foi buscar na Amazônia e no interior do Brasil produtos que praticamente ninguém levava a sério na alta gastronomia.

O que significa o nome

D.O.M. é a sigla de "Deo Optimo Maximo", expressão em latim que significa algo como "a Deus, o melhor e o maior" — tradicionalmente usada em rótulos de destilados e conventos beneditinos. O nome dá o tom de um lugar que trata cada prato como uma celebração, mas o conceito por trás da cozinha é bem menos solene: valorizar ingredientes brasileiros pouco conhecidos, como a formiga saúva, a priprioca (raiz aromática usada tradicionalmente na perfumaria amazônica) e peixes de rio como o tucunaré.

Reconhecimento internacional

Ao longo dos anos 2000 e 2010, o D.O.M. apareceu repetidamente entre os melhores restaurantes do mundo em rankings internacionais como o The World's 50 Best Restaurants, chegando à quarta colocação global — a mais alta já obtida por um restaurante sul-americano até então. O reconhecimento colocou São Paulo, e o Brasil, no radar de críticos e chefs que antes olhavam quase exclusivamente para a Europa e os Estados Unidos.

O chef Alex Atala

Alex Atala se tornou um dos rostos mais conhecidos da gastronomia brasileira no exterior.

Amazônia no prato

Um dos pratos mais associados ao restaurante é o ovo com farofa de banana e formigas saúva, servido em uma casca de ovo — uma forma de apresentar um ingrediente amazônico tradicional de um jeito que surpreende sem parecer um truque. A cozinha do D.O.M. costuma trabalhar com produtores de pequena escala e comunidades ribeirinhas, o que ajudou a colocar em discussão temas como sustentabilidade e valorização de saberes indígenas dentro do circuito da alta gastronomia — um debate que, décadas depois, se tornou padrão em restaurantes de ponta ao redor do mundo.

O bairro dos Jardins

O restaurante fica no Jardim Paulista, região conhecida simplesmente como Jardins, um dos bairros mais sofisticados de São Paulo, com ruas arborizadas, grifes internacionais e uma concentração grande de restaurantes premiados. A localização central facilita o acesso tanto para paulistanos quanto para turistas que incluem o D.O.M. no roteiro gastronômico da cidade.

Dicas para a visita

Por ser um restaurante de alta gastronomia com menu degustação, a experiência costuma durar entre duas e três horas, e a reserva antecipada é praticamente obrigatória — em períodos de alta demanda, a espera pode chegar a semanas. Vale se programar com antecedência e reservar um horário mais cedo na noite para aproveitar com calma cada etapa do menu.

Onde fica

  • D.O.M. Restaurante
    Rua Barão de Capanema, 549, Jardim Paulista, São Paulo - SP

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