Por quase 700 anos, a mesma construção concentrou o Grande Conselho, o tribunal, a prisão e a residência oficial de Veneza — tudo dentro de um único endereço na Piazza San Marco. O Palácio Ducal (Palazzo Ducale) foi o centro de comando da República de Veneza do século IX até 1797, e sobreviveu a pelo menos três grandes incêndios sem perder essa função. Hoje é museu, mas a estrutura gótica que se vê hoje já contava história antes mesmo de ganhar essa fachada.
O primeiro palácio no local foi erguido no século IX pelo doge Agnello Participazio, o governante que transferiu a sede do poder veneziano de Malamocco — no litoral, mais vulnerável a ataques — para as ilhotas onde hoje fica o centro histórico de Veneza. Aquela construção original era mais parecida com um castelo fortificado do que com o edifício de rendas em pedra que os turistas fotografam atualmente. A fachada sul, voltada para a água e reconhecível por suas arcadas ogivais, só começou a ser erguida em 1340, para abrigar a nova sala do Grande Conselho — o órgão que reunia a aristocracia veneziana e escolhia o doge.
As chamas que quase apagaram o poder de Veneza
Nenhum prédio dessa importância chega a 700 anos de uso sem cicatrizes. O golpe mais grave veio na noite de 20 de dezembro de 1577, quando um incêndio destruiu boa parte da Sala do Grande Conselho e consumiu ciclos de pintura que artistas como Ticiano e Bellini haviam produzido ao longo de décadas. A reconstrução ficou a cargo do arquiteto Antonio da Ponte, com apoio de Andrea Palladio e Gianantonio Rusconi — mesmo Palladio, um dos nomes mais influentes da arquitetura renascentista, teve seu projeto de reconstruir o palácio inteiro recusado pelo Senado, que preferiu preservar a aparência gótica original.

A fachada gótica que o Senado insistiu em preservar após o incêndio de 1577.
Entre 1578 e 1615, um novo ciclo decorativo tomou forma nas paredes recuperadas, agora com um tema bem definido: exaltar as conquistas militares e políticas da República. É desse período que vem a peça mais espantosa do palácio: o Paraíso, de Jacopo Tintoretto. Pintado entre 1588 e 1592 com a ajuda do filho Domenico, o painel cobre mais de 22 por 7 metros — cerca de 150 metros quadrados de tela — e é considerado até hoje o maior quadro a óleo sobre tela já pintado. Ele domina inteira a parede onde antes ficava a pintura perdida no incêndio.
A ponte que carregava o nome de um suspiro
No início do século XVII, entre 1600 e 1602, uma pequena ponte fechada foi construída para ligar o palácio às Prigioni Nuove, as prisões novas erguidas do outro lado do canal — consideradas na época um dos primeiros edifícios do mundo projetados especificamente para funcionar como prisão. A travessia recebeu depois o nome de Ponte dei Sospiri, a Ponte dos Suspiros, popularizado por poetas do Romantismo, entre eles Lord Byron: a lenda diz que os condenados suspiravam ali, na última vista da cidade antes de serem trancados.
Um dos prisioneiros mais famosos a cruzar esse caminho foi Giacomo Casanova, preso em 1755 sob acusação de heresia e posse de livros proibidos. Depois de dezesseis meses trancado nas celas sob o telhado de chumbo do palácio, ele escapou em 1756 por um buraco aberto no teto, passou pelos telhados e desceu direto para um barco que o levou para longe de Veneza — uma das fugas de prisão mais contadas da história europeia.

A Ponte dos Suspiros, erguida entre 1600 e 1602 para levar prisioneiros às celas do outro lado do canal.
O papel político do palácio terminou em 1797, quando as tropas de Napoleão Bonaparte puseram fim à República de Veneza depois de mais de mil anos de existência — o último doge, Ludovico Manin, abdicou sem resistência armada. O prédio que tinha sido tribunal, prisão e sede de governo passou então a museu, função que mantém até hoje sob a administração da Fondazione Musei Civici di Venezia. As salas onde se decidiam guerras e alianças agora recebem visitantes que atravessam a mesma Ponte dos Suspiros por onde Casanova só conseguiu passar uma vez — na ida.



Seja o primeiro a comentar.