O empresário Vincenzo Apuzzo abriu um "Gran Caffè" em 1860 no térreo do Palazzo della Foresteria, entre a Via Chiaia e a praça que hoje se chama Trieste e Trento, a poucos passos do Palácio Real e da Piazza del Plebiscito. A casa chegou a ter o título de fornecedora da Casa Real.
Quarenta artistas e um rei da cerveja
Em 1890, Mariano Vacca arrendou o espaço e chamou o arquiteto Antonio Curri, que coordenou mais de quarenta artesãos e artistas na reforma: mármores, estuques, espelhos e telas de pintores napolitanos como Luca Postiglione, Pietro Scoppetta, Vincenzo Migliaro e Giuseppe Casciaro. O café reabriu em 3 de novembro de 1890 com o nome de Gran Caffè Gambrinus, homenagem a Gambrinus, o lendário rei flamengo associado à cerveja. As salas ganharam nomes próprios, como a sala dos espelhos e a sala redonda.
Quem passou por ali
A lista de frequentadores citada pela própria história da casa inclui Gabriele D'Annunzio, Matilde Serao, Benedetto Croce, Oscar Wilde, Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Totò e os irmãos De Filippo. Foi justamente essa freguesia de intelectuais que causou problema: em 5 de agosto de 1938, o prefeito fascista Giovanni Battista Marziali mandou fechar o café, considerado ponto de encontro de antifascistas, e parte do espaço foi ocupada pelo Banco di Napoli. A reabertura veio depois da guerra, pelas mãos do empresário Michele Sergio, e os filhos dele, Arturo e Antonio, completaram a restauração das salas.
O que pedir
Um espresso no balcão, do jeito napolitano, e uma sfogliatella. O Gambrinus faz parte da Associazione Locali Storici d'Italia, e no balcão costuma ficar o bule do caffè sospeso, o costume napolitano de deixar um café pago para o próximo que não puder pagar.
Foto: Palickap / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Onde fica
Gran Caffè GambrinusCafeteria Via Chiaia, 1/2, 80132 Napoli NA, Itália
Poucos cartões-postais no mundo são tão reconhecíveis quanto o Pão de Açúcar. Erguendo-se a 396 metros na entrada da Baía de Guanabara, o morro de granito e gnaisse é parte da paisagem que deu ao Rio de Janeiro o título de Patrimônio Mundial da Unesco na categoria "Paisagem Cultural". De lá de cima, numa tarde de céu limpo, dá para entender em poucos minutos por que a cidade é chamada de Cidade Maravilhosa.
A subida é feita em dois trechos de bondinho. O primeiro leva os visitantes até o Morro da Urca, a 220 metros de altura, onde já é possível ter uma primeira vista privilegiada da Praia Vermelha e da entrada da baía. O segundo trecho segue até o topo do Pão de Açúcar propriamente dito. Inaugurado em 1912, o sistema de bondinhos foi um dos primeiros do gênero no mundo, idealizado pelo engenheiro Augusto Ferreira Ramos, e passou por diversas modernizações ao longo de mais de um século de operação sem nunca perder a essência.
De onde vem o nome
A origem do nome "Pão de Açúcar" divide historiadores. A versão mais repetida diz que os portugueses associaram o formato do morro aos moldes cônicos de barro usados para refinar e transportar açúcar durante o período colonial. Outra hipótese, defendida por linguistas, aponta uma origem tupi: "pau-nh-acuqua", expressão que significaria algo como "monte alto, pontudo e isolado" — uma descrição que também faz bastante sentido observando a silhueta do morro a partir do mar.
O bondinho liga a Praia Vermelha ao Morro da Urca e, de lá, ao topo do Pão de Açúcar.
O que ver lá em cima
Do topo, o visitante tem uma vista de 360 graus que inclui o Cristo Redentor sobre o Corcovado, as praias de Copacabana e Ipanema, a Lagoa Rodrigo de Freitas e boa parte da orla até a Zona Sul. Também é possível avistar o Aeroporto Santos Dumont e o movimento de embarcações entrando e saindo da Baía de Guanabara. O pôr do sol é um dos momentos mais concorridos: nos dias de céu limpo, as cores sobre a baía atraem tanto turistas quanto cariocas que já subiram o morro dezenas de vezes.
O Pão de Açúcar também é um destino tradicional para a escalada. O primeiro registro de uma subida pela face rochosa data de 1817, feita pelo inglês Henry Walter Fox. Hoje a prática segue popular entre alpinistas experientes, com diversas rotas de diferentes níveis de dificuldade talhadas na rocha ao longo de mais de dois séculos.
Dicas para a visita
Vale reservar pelo menos duas horas para o passeio completo, incluindo o tempo de fila nos bondinhos, que costuma aumentar bastante no meio da manhã e no início da tarde. Ir logo na abertura ou no fim da tarde, para pegar o pôr do sol, costuma ser a melhor estratégia para fugir das multidões. No Morro da Urca há espaço para eventos, lanchonete e banheiros, então dá para fazer uma parada tranquila no meio do caminho antes de seguir para o topo.
📝 Nota do editor (Peter Goldstein): O principal ponto turístico e preferido dos cariocas e visitantes de todo o mundo.
Onde fica
Bondinho do Pão de AçúcarPonto Turístico Av. Pasteur, 520, Urca, Rio de Janeiro - RJ, 22290-255
Um roteiro com 5 paradas em Marrakech, Marrocos: o que visitar, onde comer, onde tomar café e onde beber. Cada parada traz o endereço completo e o motivo de valer o desvio, para você montar o dia na ordem que fizer sentido.
Por volta das cinco da tarde, a praça Jemaa el-Fnaa começa a se transformar. Barracas de comida se multiplicam, tambores de músicos gnawa começam a tocar e contadores de histórias reúnem plateias em círculo, como fazem há séculos. É a praça mais movimentada do Marrocos — e uma das poucas do mundo reconhecidas pela UNESCO não por seus prédios, mas pelo que acontece nela.
Do "assembleia dos mortos" ao patrimônio da UNESCO
A praça existe desde o século XI, fundada junto com a própria Marrakech pela dinastia almorávida. Seu nome, segundo a explicação mais aceita, remete a "assembleia dos mortos" ou "assembleia do nada" — uma referência ao passado da praça como local de execuções públicas. Em 2001, a UNESCO declarou o espaço Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, reconhecendo não a arquitetura ao redor, mas as tradições vivas que a praça ainda abriga.
Mais de 50 barracas de comida ao anoitecer
Durante o dia, a praça funciona como mercado e ponto de encontro. À noite, vira um imenso restaurante a céu aberto: mais de 50 barracas de comida se instalam lado a lado, servindo desde tagines e espetinhos até caracóis cozidos e sopa harira, em meio à fumaça e ao barulho dos vendedores anunciando os pratos.
Contadores de histórias, músicos e encantadores de serpentes
Ao redor das barracas, artistas de rua mantêm vivo um tipo de entretenimento que já foi comum em praças de todo o mundo árabe e hoje sobrevive quase só aqui: os hekayati (contadores de histórias) narram lendas locais para plateias que se formam em círculo, enquanto músicos berberes, dançarinos gnawa e encantadores de serpentes disputam a atenção de moradores e visitantes.
Foto: Alexander Leisser / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O Jardin Majorelle é um dos raros lugares do mundo batizados com o nome de uma cor. O "azul Majorelle", um tom de ultramarino vibrante, cobre paredes, potes e treliças em meio a um jardim botânico de mais de 300 espécies de plantas — e a história de como o jardim quase desapareceu, antes de ser salvo por um dos maiores nomes da moda do século XX, é tão marcante quanto a paisagem.
O jardim de um pintor francês
Em 1919, o pintor francês Jacques Majorelle se instalou na medina de Marrakech. Em 1923, comprou um bosque de palmeiras nos arredores da cidade e ali construiu a Villa Bousafsaf. Em 1931, encomendou ao arquiteto Paul Sinoir um ateliê em estilo Art Déco no meio da propriedade.
O azul que leva o nome de Majorelle
Em 1937, Majorelle criou um tom de azul ultramarino intenso — hoje patenteado como "azul Majorelle" — e passou a usá-lo para pintar a fachada do ateliê, portões, vasos e pérgolas. O jardim foi aberto ao público em 1947. Mas, após um acidente de carro, Majorelle voltou à França, onde morreu em 1962, e o jardim entrou em decadência.
Salvo por Yves Saint Laurent
Em 1980, o estilista Yves Saint Laurent e seu parceiro Pierre Bergé compraram a propriedade para evitar que fosse demolida por incorporadores imobiliários. Restauraram o jardim com a ajuda de mais de 20 jardineiros, elevando o número de espécies de plantas para cerca de 300. Hoje o local também abriga o Museu Yves Saint Laurent Marrakech, dedicado ao trabalho do estilista.
Endereço: Rue Yves Saint Laurent, Gueliz, 40090 Marrakech, Marrocos
Com 8 hectares e mais de 150 salas, o Palácio da Bahia foi construído para ser, literalmente, o palácio mais deslumbrante do Marrocos — um projeto pessoal de dois vizires que, juntos, passaram décadas ampliando a própria residência até ela ofuscar os palácios dos sultões que serviam.
Começou como a casa de um vizir
A construção original data da década de 1860, erguida por Si Moussa, grão-vizir do sultão, como residência pessoal. O nome "Bahia" significa "brilhância" ou "beleza radiante" em árabe — uma declaração de intenções desde o início.
O filho que dobrou o tamanho do palácio
Quem transformou a Bahia no complexo que existe hoje foi o filho de Si Moussa, Ahmed ibn Moussa — conhecido como Ba Ahmed —, ele próprio grão-vizir do sultão Moulay Abdelaziz. Entre 1894 e 1900, Ba Ahmed expandiu drasticamente a propriedade, adicionando cerca de 150 novos cômodos, o grande pátio, o harém e uma profusão de zellige (mosaico de azulejos) trabalhado por artesãos andaluzes trazidos especialmente para a obra.
Tetos de cedro entalhado e pátios com fonte
O resultado é um labirinto de pátios internos, jardins e salões com tetos de madeira de cedro entalhada e pintada à mão, um estilo decorativo que resume o auge da arquitetura palaciana marroquina do fim do século XIX — a mesma tradição de trabalho manual em couro e madeira que ainda hoje sustenta os ateliês de artesãos de Marrakech.
Por mais de quatro séculos, a Madrasa Ben Youssef foi a maior escola islâmica do Magrebe — chegou a abrigar até 900 estudantes distribuídos em apenas 130 celas-dormitório. Hoje, o que resta é um dos exemplos mais completos de arquitetura saadiana do Marrocos, coberto do chão ao teto por talha em gesso e mosaico de azulejos.
Fundada no século XIV, reconstruída no século XVI
A primeira madrasa no local remonta ao século XIV, época da dinastia merínida. O edifício que existe hoje, no entanto, é obra do sultão saadiano Abdallah al-Ghalib, que encomendou sua reconstrução completa entre 1564 e 1565.
A maior escola corânica do Magrebe
Depois da reconstrução saadiana, a Ben Youssef se tornou o maior colégio islâmico do Magrebe, formando estudantes em estudos corânicos, direito islâmico e outras disciplinas. Em seu auge, chegou a abrigar até 900 alunos, alojados em 130 pequenas celas distribuídas ao redor do pátio central — uma densidade que hoje impressiona qualquer visitante.
Do fechamento à restauração
A madrasa deixou de funcionar como colégio islâmico em 1960, mas permaneceu aberta à visitação como um dos edifícios mais bem preservados de Marrakech. Fechou para uma nova restauração em novembro de 2018 e reabriu ao público em abril de 2022.
Endereço: Place Ben Youssef, Marrakech 40000, Marrocos
Vale a parada
5. La Mamounia
Foto: muffinn / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Poucos hotéis do mundo podem dizer que hospedaram Winston Churchill o suficiente para ganhar um bar com o nome dele. O La Mamounia, erguido sobre um jardim do século XVIII no coração de Marrakech, é assim: um hotel que atravessou quase um século sendo cenário de política internacional, cinema e, num episódio específico de 1943, de arte.
Um jardim de sultão que virou hotel Art Déco
O terreno onde o hotel fica foi presenteado no século XVIII pelo sultão Mohammed ben Abdallah a seu filho, Moulay Mamoun — de quem vem o nome "Mamounia". O projeto do hotel foi concebido em 1923 pelos arquitetos Henri Prost e Antoine Marchisio, combinando arquitetura marroquina tradicional com o estilo Art Déco então em voga. O hotel abriu as portas em 1929.
O bar batizado em homenagem a Churchill
Ao longo do século XX, o La Mamounia recebeu hóspedes como Charlie Chaplin, Francis Ford Coppola e Yves Saint Laurent — mas foi Winston Churchill quem se tornou seu visitante mais associado ao hotel, a ponto de chamá-lo de "o lugar mais adorável do mundo inteiro". Em sua homenagem, o hotel batizou um de seus bares de Churchill Bar, decorado como um vagão-salão de trem da era Pullman. O diretor Alfred Hitchcock também filmou cenas de "O Homem Que Sabia Demais" no hotel, o que ajudou a atrair ainda mais celebridades para Marrakech nas décadas seguintes.
A única pintura de Churchill na Segunda Guerra
Em janeiro de 1943, hospedado no La Mamounia após a Conferência de Casablanca, Churchill convenceu Franklin Roosevelt a passar por Marrakech antes de retornar aos Estados Unidos. Depois que a delegação americana partiu, Churchill ficou mais um dia e pintou a torre da Mesquita Koutoubia vista do jardim do hotel — a única pintura que fez durante toda a guerra. Deu o quadro de presente a Roosevelt; décadas depois, ele foi vendido em leilão pela então proprietária Angelina Jolie por US$ 11,5 milhões.
Endereço: Avenue Bab Jdid, 40040 Marrakech, Marrocos
O Greyfriars Kirkyard foi aberto em agosto de 1562, no terreno de um convento franciscano dissolvido, e desde então acumulou histórias que dariam para várias cidades. Foi ali, em 1638, que se assinou o Pacto Nacional escocês — o cemitério servia porque era um dos poucos lugares onde a lei permitia reunião pública livre.
Quatro décadas depois o mesmo terreno virou prisão. Após a batalha de Bothwell Bridge, em 1679, cerca de 1.200 prisioneiros covenanters foram mantidos num cercado improvisado ao sul do cemitério. Quando aquela área foi incorporada ao camposanto, por volta de 1700, o nome ficou: Covenanters' Prison.
Há ainda os mortsafes, gaiolas de ferro sobre os túmulos. Não eram enfeite: no início do século XIX, os ladrões de cadáveres abasteciam a escola de medicina de Edimburgo, e as famílias trancavam os mortos. Estão enterrados ali o geólogo James Hutton e o químico Joseph Black.
Mas o túmulo mais procurado é o de um vigia noturno da polícia chamado John Gray, morto em 15 de fevereiro de 1858 — e o motivo é o cachorro dele. Greyfriars Bobby, nascido em 4 de maio de 1855, teria passado 14 anos junto ao túmulo do dono, até morrer em 14 de janeiro de 1872. A raça é discutida: Skye terrier, dizia a tradição; um livro de 2022 defende que era mais provavelmente um Dandie Dinmont, porque havia mais criadores dessa raça em Edimburgo na época.
Em 1867, o lorde reitor Sir William Chambers — que também era diretor da sociedade escocesa de proteção aos animais — pagou do próprio bolso a licença de cão de Bobby e mandou fazer uma coleira para ele. A coleira está hoje no Museu de Edimburgo.
A estátua veio no ano da morte do cachorro: foi esculpida por William Brodie em 1872 e paga pela baronesa Burdett-Coutts. Fica no cruzamento da George IV Bridge com a Candlemaker Row, a poucos passos do portão do cemitério, e tem um título curioso — é a menor estrutura tombada de Edimburgo. O cemitério inteiro, com seus monumentos, é tombado na categoria A.
Foto: Scglossop1, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
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