Por 14 anos, uma das igrejas mais fotografadas do Brasil ficou sem poder celebrar batizados, casamentos ou missas regulares. O motivo não foi falta de fiéis nem de padres: foi um cachorro pintado por Cândido Portinari em um afresco ao lado de São Francisco de Assis, considerado inaceitável demais para a arquidiocese de Belo Horizonte consagrar o templo.
Uma aposta modernista às margens da lagoa
A história começa em 1940, quando o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, decidiu transformar as margens de uma lagoa artificial recém-criada na região da Pampulha em um polo de lazer e arquitetura de vanguarda. Para desenhar os edifícios, JK chamou um arquiteto de 33 anos ainda pouco conhecido: Oscar Niemeyer. O paisagismo ficou com Roberto Burle Marx, os painéis decorativos com Cândido Portinari e parte das esculturas com Alfredo Ceschiatti.
O conjunto foi inaugurado em 16 de maio de 1943, com a presença do presidente Getúlio Vargas e do governador de Minas Gerais, Benedito Valadares. Quatro construções ao redor da lagoa formam o núcleo do projeto:
- o Cassino da Pampulha, hoje Museu de Arte da Pampulha;
- a Casa do Baile, um salão de festas sobre uma pequena ilha;
- o Iate Tênis Clube;
- a Igreja de São Francisco de Assis, conhecida como "Igrejinha da Pampulha".
Do jogo proibido à arte
O Cassino da Pampulha nasceu como point da elite mineira, com noites de jogatina e festas que atraíam visitantes de outros estados. A festa durou pouco: em 30 de abril de 1946, o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de azar em todo o país, e o cassino fechou as portas apenas três anos depois de inaugurado. O prédio de curvas livres e painéis de vidro ficou fechado por mais de uma década até que, em 1957, reabriu como Museu de Arte da Pampulha, sob direção do arquiteto Sylvio de Vasconcellos.

O antigo Cassino da Pampulha, fechado em 1946, reabriu como museu de arte em 1957.
A igreja que dividiu a cidade
Enquanto o cassino driblava a lei do jogo, a pequena igreja curva enfrentava outro tipo de resistência. O arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio Santos Cabral, recusou-se a consagrar o templo, classificando a obra como "inteiramente particular, na qual o clero não teve a mínima participação". As formas ousadas de Niemeyer e, sobretudo, o painel de Portinari em que um cão aparece ao lado do santo — lido por críticos da época como referência a um lobo, animal ligado à lenda de São Francisco — foram tratados como afronta ao bom gosto religioso.
Sem consagração, a Igrejinha da Pampulha funcionou por 14 anos apenas como capela aberta à visitação, sem celebrar os sacramentos que dependem desse rito. A situação só mudou em 1959, quando Dom Antônio Santos Cabral foi sucedido por Dom João Resende Costa, que autorizou a consagração pouco depois de assumir a arquidiocese.

As curvas de concreto armado da Igreja de São Francisco de Assis, projeto de 1943 de Oscar Niemeyer.
De obra controversa a patrimônio da humanidade
Décadas depois da polêmica, o julgamento mudou de sinal. Em 16 de julho de 2016, durante a 40ª reunião do Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO, em Istambul, o Conjunto Moderno da Pampulha foi reconhecido como Patrimônio Mundial — o primeiro bem cultural do planeta a receber o título na categoria de Paisagem Cultural do Patrimônio Moderno. O próprio Niemeyer, que viveu até os 104 anos e assinou obras como o Palácio do Planalto e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, chegou a considerar a Pampulha um dos capítulos mais importantes de sua carreira: foi ali que testou, pela primeira vez em escala real, as curvas livres de concreto que se tornariam sua marca registrada.
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