Por volta de 2560 a.C., no planalto rochoso à beira do deserto egípcio, um exército de pedreiros começou a empilhar blocos de calcário e granito que, quase quatro milênios e meio depois, ainda estariam de pé. A Grande Pirâmide de Gizé, erguida como túmulo do faraó Quéops (Khufu, na grafia egípcia), é a mais antiga das Sete Maravilhas do Mundo Antigo listadas pelos gregos — e a única que sobreviveu até hoje.
Um túmulo construído em cerca de vinte anos
A pirâmide foi erguida durante a IV dinastia egípcia, num período estimado entre dez e vinte anos. Sua altura original era de 146,59 metros; hoje mede 137,19 metros, já que perdeu o revestimento externo de calcário polido e parte do topo ao longo dos séculos. A base ocupa uma área de cerca de 53 mil metros quadrados, com os quatro lados alinhados quase perfeitamente aos pontos cardeais — um feito de agrimensura notável para uma civilização sem bússolas ou instrumentos óticos modernos.
A estrutura é formada por aproximadamente 2,3 milhões de blocos de pedra, com peso médio de 2,5 toneladas cada um — alguns blocos internos, usados nas câmaras funerárias, chegam a pesar mais de 50 toneladas. Até hoje não há consenso definitivo entre arqueólogos sobre a técnica exata usada para erguer os blocos a essa altura; rampas, alavancas e sistemas de roldanas primitivas estão entre as hipóteses mais aceitas.
A Pirâmide de Quéops, a maior das três grandes pirâmides do planalto de Gizé.
Quem realmente ergueu as pirâmides
Por séculos, a crença popular — reforçada por relatos tardios como os do historiador grego Heródoto, que escreveu quase dois mil anos após a construção — atribuía a obra a massas de escravos chicoteados. Escavações conduzidas na década de 1990 pelos arqueólogos Zahi Hawass e Mark Lehner mudaram esse quadro ao descobrir, a poucos metros das pirâmides, uma vila de trabalhadores organizada pelo Estado egípcio. As evidências encontradas ali contam outra história:
- Padarias, cervejarias e açougues industriais indicam que os trabalhadores recebiam rações diárias de pão, cerveja e carne bovina — uma dieta relativamente farta para o Egito Antigo.
- Esqueletos exumados no cemitério dos operários mostram fraturas ósseas tratadas e realinhadas, evidência de que recebiam cuidados médicos.
- Muitos eram camponeses recrutados durante a época da cheia anual do Nilo, quando os campos ficavam submersos e a mão de obra agrícola ficava disponível para o Estado.
- Grafites deixados nas câmaras internas da pirâmide registram nomes de equipes de trabalho, como "Amigos de Quéops", sugerindo rivalidade e orgulho entre os grupos.
A Esfinge e um patrimônio da humanidade
A poucos metros da pirâmide de Quéops está a Grande Esfinge, uma escultura de 73 metros de comprimento e cerca de 20 metros de altura, esculpida a partir de um único afloramento de calcário do próprio planalto. A maioria dos egiptólogos atribui seu rosto ao faraó Quefrém, filho de Quéops e construtor da segunda maior pirâmide do complexo — que, junto com a pirâmide de Miquerinos, forma o trio que hoje define a paisagem de Gizé.
A Grande Esfinge, com o corpo de leão e rosto atribuído ao faraó Quefrém.
Em 1979, a Unesco reconheceu como Patrimônio Mundial da Humanidade o conjunto formado pelas ruínas de Mênfis, antiga capital do Egito, e suas necrópoles — incluindo os monumentos de Gizé, Saqqara e Dahshur. É um reconhecimento tardio para um lugar que já era considerado antigo pelos próprios turistas da Antiguidade: quando os romanos visitavam Gizé, as pirâmides já tinham mais de 2.500 anos.
Quando a Catedral de Lincoln, na Inglaterra, ultrapassou sua altura em 1311, a Grande Pirâmide já reinava havia quase 3.800 anos como a estrutura mais alta já erguida por mãos humanas — um recorde que nenhuma outra obra da Antiguidade chegou perto de igualar.
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