Duas vezes por ano, ao entardecer de 20 de março e 22 de setembro, uma multidão se reúne em volta de uma pirâmide de calcário no interior da península de Yucatán para ver uma serpente de luz descer pela escadaria norte. Não é um efeito especial: é a sombra projetada pelos nove terraços do Templo de Kukulkán, calculada por astrônomos maias havia mais de mil anos para se encaixar exatamente na cabeça de pedra esculpida na base da pirâmide. O fenômeno é o cartão de visitas mais famoso de Chichén Itzá, mas é só uma fração do que a cidade guarda.
Uma metrópole que dominou o norte de Yucatán
O nome Chichén Itzá vem do maia yucateco e significa algo como "na boca do poço dos itzás" — uma referência direta ao cenote sagrado ao redor do qual a cidade cresceu. Os primeiros assentamentos datam de cerca do século VI, mas foi entre 900 e 1100 d.C. que o local se tornou um dos maiores centros urbanos das Américas pré-colombianas, com uma população estimada entre 35 mil e 50 mil habitantes na sua área metropolitana — comparável a Londres na mesma época. Arqueólogos ainda debatem o grau de influência tolteca vinda do centro do México nesse período, visível na arquitetura e na iconografia de guerreiros e serpentes que se espalham pelo sítio. Por volta do século XV, antes da chegada dos espanhóis, a cidade já havia sido abandonada como centro de poder, embora seus poços e templos continuassem sendo lugares de peregrinação maia.
O Cenote Sagrado, com cerca de 60 metros de diâmetro e paredes que caem 27 metros até a água.
A pirâmide que também é um calendário
O Templo de Kukulkán, apelidado de El Castillo pelos espanhóis, foi erguido entre aproximadamente 1050 e 1300 d.C. sobre uma pirâmide ainda mais antiga, encontrada por arqueólogos em escavações internas nos anos 1930. Ele tem 30 metros de altura, base de cerca de 55,3 metros de lado e nove terraços escalonados. Os números do monumento não são acaso:
- Cada uma das quatro faces tem 91 degraus; somados aos quatro lados e ao patamar superior do templo, chegam a 365 — o número de dias do ano no calendário maia.
- As nove plataformas, divididas ao meio pelas escadarias, formam 18 painéis, o mesmo número de meses do calendário civil maia (Haab).
- Um bater de palmas em frente à escadaria principal produz um eco agudo que pesquisadores de acústica associaram ao canto do quetzal, ave sagrada para os maias — um efeito hoje estudado como possível recurso arquitetônico intencional.
O poço sagrado e o deus da chuva
A cerca de 300 metros de El Castillo, ligado a ele por um caminho cerimonial (sacbé) de pedra, fica o Cenote Sagrado, um sumidouro natural de água doce que os maias associavam a Xibalbá, o submundo, e ao deus da chuva Chaac. Ali eram lançadas oferendas de ouro, jade, incenso de copal e, segundo evidências arqueológicas, também vítimas humanas em rituais de súplica por chuva. No início do século XX, o cônsul americano e arqueólogo amador Edward H. Thompson comprou a fazenda que incluía as ruínas e, entre 1904 e 1910, dragou o fundo do cenote — a primeira vez que alguém usava equipamento de mergulho no México. Ele recuperou milhares de objetos, muitos hoje no Museu Peabody de Harvard, num episódio que décadas depois gerou disputas diplomáticas entre México e Estados Unidos sobre a devolução do material.
O sítio arqueológico de Chichén Itzá recebe hoje mais de 2 milhões de visitantes por ano.
Chichén Itzá foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1988 e, em 2007, eleita uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo numa votação popular que reuniu mais de 100 milhões de participantes. Depois de séculos coberta pela vegetação da selva e redescoberta aos poucos por exploradores e arqueólogos ao longo do século XIX e XX, a pirâmide de Kukulkán continua fazendo, todo mês de março e setembro, exatamente o que seus construtores calcularam há mais de mil anos: transformar luz solar em serpente de pedra.






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