Na esquina da Rue Royale com a Place de la Concorde, em Paris, uma fachada verde-escura emoldurada em ferro dourado esconde um dos salões mais fotografados — e menos visitados por dentro — da cidade. Passar pela porta do Maxim's é entrar numa cápsula do tempo que resume toda a extravagância da Belle Époque francesa, quando o restaurante virou sinônimo de luxo, escândalo e alta sociedade.
De bistrô de esquina a ponto de encontro da elite
O endereço 3 Rue Royale abrigava, em 1893, apenas um modesto café de bairro. Foi ali que o garçom Maxim Gaillard decidiu abrir seu próprio estabelecimento, batizando-o com o próprio nome. O pequeno bistrô ganhou popularidade rápido entre a burguesia parisiense, mas foi a virada do século que transformaria o Maxim's de simples ponto de encontro em símbolo internacional de sofisticação.
A reforma que criou um marco art nouveau
Entre 1899 e 1900, o maître d'hôtel Eugène Cornuché comprou o restaurante e contratou o arquiteto-decorador Louis Marnez para prepará-lo às pressas para a Exposição Universal de 1900. O resultado foi um dos interiores art nouveau mais completos já preservados na França: painéis de mogno, espelhos biselados, ornamentos em bronze e cobre entrelaçados em motivos florais e afrescos nas paredes assinados pelo pintor Léon Sonnier. A decoração, quase intacta até hoje, rendeu ao salão principal reconhecimento como patrimônio histórico.
A fachada do Maxim's na Rue Royale, entre a Place de la Concorde e a Madeleine.
O palco das noites mais badaladas de Paris
Ao longo da Belle Époque e das décadas seguintes, as mesas do Maxim's reuniram aristocratas, cortesãs, escritores e artistas em um ambiente reservado e badalado. Entre os frequentadores mais citados pela história do restaurante estão:
- Marcel Proust e Jean Cocteau, que levaram o clima do salão para suas obras;
- Salvador Dalí, com suas aparições tão extravagantes quanto seus quadros;
- a atriz Grace Kelly, já como princesa de Mônaco;
- a soprano Maria Callas, o cineasta Alfred Hitchcock e o artista Andy Warhol.
Foi também nesse período que o Maxim's ganhou vida na cultura popular: a personagem Chegrette e o próprio nome do restaurante aparecem na opereta "A Viúva Alegre", de Franz Lehár, estreada em 1905, ambientada justamente entre suas mesas.
De Pierre Cardin ao museu acima do salão
Em maio de 1981, o estilista Pierre Cardin comprou o Maxim's por um valor nunca revelado publicamente, estimado em mais de 20 milhões de dólares, e transformou o nome em marca internacional, com filiais em outras cidades e uma linha de produtos derivados, de porcelanas a perfumes. Colecionador de peças art nouveau havia décadas, Cardin instalou no andar acima do salão principal o Musée Art Nouveau — Maxim's, com mais de 550 objetos de nomes como Louis Majorelle, Louis Comfort Tiffany, Émile Gallé e Henri de Toulouse-Lautrec.
Retrato feito no verso de um cardápio do Maxim's, em 16 de abril de 1908 — um dos muitos vestígios das noites boêmias do salão.
Mais de 130 anos depois de Maxim Gaillard servir seus primeiros clientes, o pequeno bistrô que ele batizou com o próprio nome continua funcionando na mesma esquina da Rue Royale — hoje como um dos raros interiores art nouveau da virada do século ainda em uso diário, servindo jantares sob os mesmos afrescos que testemunharam a Belle Époque.


Seja o primeiro a comentar.