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📍 Singapura

Thian Hock Keng: o templo hokkien que Singapura ergueu sem usar um único prego

Fachada do Templo Thian Hock Keng, em Singapura

Foto: Wikimedia Commons

Quem caminha hoje pela Telok Ayer Street, em pleno bairro chinês de Singapura, dificilmente imagina que aquele trecho de asfalto e prédios já foi beira-mar. Mas foi ali, de frente para o Estreito de Cingapura, que imigrantes chineses erguiam um pequeno templo de madeira para agradecer por terem sobrevivido à travessia. Duzentos anos depois, esse templo — o Thian Hock Keng — continua de pé, embora o mar tenha recuado quase um quilômetro.

De casa de incenso a templo de pedra

A história começa por volta de 1821-1822, quando marinheiros e comerciantes hokkien recém-chegados de Fujian, na China, construíram uma modesta "joss house" — uma casa de incenso — dedicada a Ma Zu Po, a deusa protetora dos navegantes. Era ali que desembarcavam para agradecer pela travessia sem naufrágios, tempestades ou piratas: uma viagem que, no início do século 19, não tinha nada de garantida.

Com o crescimento da comunidade hokkien em Singapura, a pequena estrutura de madeira logo ficou pequena demais. Entre 1839 e 1842, ela foi reconstruída em alvenaria e granito, com o dinheiro reunido junto à comunidade — a maior doação individual veio de Tan Tock Seng, comerciante e filantropo hokkien que, anos depois, financiaria também o hospital que hoje leva seu nome. Nascia assim o Thian Hock Keng, o "Templo das Bênçãos Celestiais".

Fachada do Templo Thian Hock Keng em Singapura

Fachada do templo na Telok Ayer Street, no bairro chinês de Singapura.

Nem um prego, madeira e granito vindos da China

O templo foi erguido no estilo tradicional do sul da China, seguindo uma regra que impressiona arquitetos até hoje: nenhum prego foi usado na estrutura. As colunas de madeira de ferro (ironwood), os telhados curvos e boa parte da pedra vieram de navios que cruzaram o mar da China até Singapura — inclusive a estátua de Ma Zu que preside o salão principal, trazida da China e instalada em 1840.

O resultado é um dos exemplos mais completos de arquitetura hokkien fora da China, com telhados decorados por figuras de cerâmica policromada representando cenas da mitologia chinesa, dragões enrolados nas colunas e painéis entalhados que narram lendas populares.

Um templo para várias crenças

Apesar do nome ligado a Ma Zu, o Thian Hock Keng nunca foi um templo de uma só divindade. Ao longo dos anos, outros altares foram incorporados, refletindo a mistura de taoísmo, budismo e confucionismo comum entre os imigrantes chineses de Singapura:

  • Baosheng Dadi, o deus da medicina, muito procurado por quem busca cura e saúde;
  • Guan Yin, a bodhisattva budista da compaixão, num santuário na parte de trás do complexo;
  • Confúcio, venerado sobretudo por estudantes e famílias antes de provas e exames;
  • Guansheng Dijun, associado à proteção espiritual e à lealdade.

Essa convivência de cultos sob o mesmo teto ajuda a explicar por que o templo seguiu relevante mesmo quando a comunidade ao redor mudou: em 1915, a associação de clã Hokkien Huay Kuan, que já cuidava de parte da administração do templo, assumiu de vez sua gestão — papel que mantém até hoje.

Da beira-mar ao aterro, e do abandono ao reconhecimento

A partir da década de 1880, obras de aterro foram empurrando a linha da costa cada vez mais para longe da Telok Ayer Street, até que o templo, construído para ficar de frente para o mar, se viu cercado por quarteirões inteiros de terra firme. Em 6 de julho de 1973, o governo de Singapura reconheceu sua importância histórica e o declarou Monumento Nacional, um dos primeiros do país.

Décadas de poluição urbana e o desgaste natural do tempo, porém, cobraram seu preço: entre 1998 e 2000, o Thian Hock Keng passou por uma restauração minuciosa, que recuperou pinturas, esculturas e elementos decorativos originais. O trabalho rendeu ao templo uma menção honrosa no UNESCO Asia-Pacific Heritage Awards for Culture Heritage Conservation de 2001 — reconhecimento que colocou Singapura no mapa da preservação patrimonial asiática.

Detalhe do telhado e da entrada do Templo Thian Hock Keng

Detalhe do telhado ornamentado com figuras de cerâmica policromada.

Hoje, cercado por arranha-céus e a poucos passos das estações de metrô do distrito financeiro, o Thian Hock Keng segue sendo um templo em atividade — não uma peça de museu. Incensos continuam sendo acesos todos os dias por moradores do bairro e por descendentes daquelas famílias hokkien que, duzentos anos atrás, agradeciam ali por terem chegado vivas do outro lado do mar.

Onde fica

  • Thian Hock Keng Temple Histórico
    Thian Hock Keng Temple, 158 Telok Ayer Street, Singapura

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📍 Istambul

O que fazer em Istambul: 5 paradas escolhidas

Corredor interno do Grande Bazar de Istambul

Foto: espiritu_protector / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Um roteiro com 5 paradas em Istambul, Turquia: o que visitar, onde comer, onde tomar café e onde beber. Cada parada traz o endereço completo e o motivo de valer o desvio, para você montar o dia na ordem que fizer sentido.

As paradas

  1. Çiya Sofrası
  2. Pierre Loti Café
  3. Çiçek Pasajı (Passagem das Flores)
  4. Grande Bazar (Kapalıçarşı)
  5. Cisterna da Basílica (Yerebatan Sarnıcı)

Onde comer

1. Çiya Sofrası

Mercado histórico de Kadıköy, em Istambul, onde fica o Çiya Sofrası
Foto: Ail Subway / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Musa Dağdeviren, chef nascido em Gaziantep, abriu o primeiro restaurante da família no movimentado mercado de Kadıköy, no lado asiático de Istambul, em 1987; onze anos depois, em 1998, inaugurou ao lado o Çiya Sofrası, dedicado a resgatar receitas regionais turcas em risco de desaparecer. O cardápio muda de acordo com a época do ano e reúne influências azeri, georgiana, árabe, armênia, otomana, assíria, seljúcida e judaica, muitas vezes recriando pratos de vilarejos específicos da Anatólia que Dağdeviren pesquisa pessoalmente há décadas.

O trabalho de documentação de Dağdeviren — descrito por alguns como uma forma de antropologia culinária — rendeu reconhecimento internacional, incluindo um episódio da série "Chef's Table", da Netflix, e é considerado por muitos críticos um dos melhores (e mais autênticos) restaurantes de Istambul.

Endereço: Caferağa Mah., Güneşlibahçe Sk. No:43, 34710 Kadıköy/İstanbul, Turquia

Onde tomar café

2. Pierre Loti Café

Café Pierre Loti em Eyüp, Istambul, com vista para o Chifre de Ouro
Foto: Josep Llauradó / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.1 ES)

No alto de uma colina em Eyüp, com vista para o Chifre de Ouro, fica o café que herdou o nome do escritor e oficial da marinha francesa Julien Viaud — mais conhecido pelo pseudônimo Pierre Loti. Viaud chegou a Istambul em 1876 e passou a frequentar uma cafeteria otomana ali, então chamada Rabia Kadın Kahvesi, onde teria escrito parte do romance semi-autobiográfico "Aziyadé" (1879), sobre um caso de amor com uma jovem do harém.

O café atual, aberto na década de 1910, foi restaurado em 1964 por Sabiha Tansuğ no estilo das antigas casas de chá turcas — mesas baixas, poltronas de veludo, vista para o Chifre de Ouro. Em reconhecimento à ligação com a cidade, Loti recebeu, em 1920, o título de cidadão honorário de Istambul, e a colina onde fica o café leva seu nome até hoje.

Endereço: Gümüşsuyu Balmumcu Sk. No:1, Eyüpsultan/İstanbul, Turquia

Onde beber

3. Çiçek Pasajı (Passagem das Flores)

Interior da Çiçek Pasajı (Passagem das Flores) em Istambul
Foto: EliDrenik / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A Çiçek Pasajı (Passagem das Flores), na badalada Rua İstiklal, ocupa o terreno onde funcionava o Teatro Naum, destruído por um incêndio em 1870. No lugar, foi erguida a Cité de Péra, projetada pelo arquiteto Kleanthis Zannos, um dos primeiros prédios de estilo europeu construídos durante os esforços de modernização do Império Otomano no fim do século 19.

O apelido "Passagem das Flores" surgiu depois da Revolução Russa de 1917, quando famílias russas refugiadas chegaram a Istambul e mulheres — incluindo, segundo relatos, uma baronesa — passaram a vender flores na galeria. Nos anos 1960, as lojas do térreo viraram meyhanes, as tavernas tradicionais turcas onde se bebe raki acompanhado de meze, e a passagem virou point de artistas e intelectuais. Restaurada em 1988, segue hoje como uma galeria de bares e restaurantes sob um teto de ferro e vidro.

Endereço: Çiçek Pasajı

Vale a parada

4. Grande Bazar (Kapalıçarşı)

Corredor interno do Grande Bazar de Istambul
Foto: espiritu_protector / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Mandado construir em 1461 pelo sultão Mehmed II — que usou a renda dos aluguéis das lojas para financiar a manutenção da Hagia Sophia —, o Grande Bazar (Kapalıçarşı) de Istambul é um dos mercados cobertos mais antigos do mundo ainda em funcionamento. Hoje ocupa cerca de 30.700 m² distribuídos por 61 ruas cobertas, com algo entre 3.000 e 4.000 lojas — em 1890, um levantamento otomano contou 4.399 estabelecimentos ativos ali dentro.

O bazar recebe entre 250 mil e 400 mil visitantes por dia e já foi apontado como a atração turística mais visitada do mundo, com cerca de 91 milhões de visitas anuais registradas em 2014. Entre suas lojas estão vendedores de tapetes, ouro, cerâmica de İznik e as luminárias de mosaico de vidro que se tornaram um dos souvenirs mais associados ao lugar.

Endereço: Beyazıt, 34126 Fatih/İstanbul, Türkiye

5. Cisterna da Basílica (Yerebatan Sarnıcı)

Interior da Cisterna da Basílica em Istambul, com colunas de mármore
Foto: Kurmanbek / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Construída em 532, durante o reinado do imperador bizantino Justiniano I, a Cisterna da Basílica (Yerebatan Sarnıcı, ou "palácio afundado") armazenava até 80 mil metros cúbicos de água para abastecer o Grande Palácio de Constantinopla, especialmente durante cercos. O nome vem da basílica que existia no local antes de ser destruída por um incêndio em 476.

O salão é sustentado por 336 colunas de mármore de 9 metros de altura, dispostas em 12 fileiras de 28 — muitas delas reaproveitadas de construções romanas mais antigas. Duas bases de coluna esculpidas com cabeças de Medusa, uma de lado e outra de cabeça para baixo, são o ponto mais fotografado do local; foram destacadas durante uma restauração feita entre 1985 e 1987. Depois da conquista otomana em 1453, a cisterna seguiu abastecendo o Palácio de Topkapı até cair em desuso — e ser redescoberta no século 16 pelo pesquisador francês Petrus Gyllius, que seguiu moradores que pescavam por buracos no chão de suas casas.

Endereço: Yerebatan Sarnıcı

A história por trás desses lugares

Fontes e créditos

Imagens e links oficiais de cada parada:

  • Grande Bazar (Kapalıçarşı) — foto: espiritu_protector / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
  • Cisterna da Basílica (Yerebatan Sarnıcı) — foto: Kurmanbek / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
  • Pierre Loti Café — foto: Josep Llauradó / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.1 ES)
  • Çiçek Pasajı (Passagem das Flores) — foto: EliDrenik / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
  • Çiya Sofrası — foto: Ail Subway / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

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📍 Dica rápida

Leadenhall Market: mercado vitoriano que virou cenário de cinema

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Com origem em 1321, o Leadenhall Market ganhou a estrutura de ferro e vidro que existe hoje em 1881, assinada pelo arquiteto Horace Jones. As vielas cobertas e coloridas já foram usadas como cenário na saga Harry Potter, e hoje reúnem lojas, pubs e restaurantes no coração financeiro de Londres.

Interior do Leadenhall Market, mercado coberto vitoriano em Londres

Foto: Diliff / Wikimedia Commons (CC BY 2.5)

Onde fica

  • Leadenhall Market Ponto Turístico
    Leadenhall Market, Gracechurch Street, London, Reino Unido
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📍 Olinda

Olinda: a colina que sobreviveu ao fogo holandês para se tornar Patrimônio da Humanidade

Vista do centro histórico colonial de Olinda, com telhados e igrejas na colina

Foto: Wikimedia Commons

Subir a ladeira que leva ao Alto da Sé, em Olinda, é caminhar sobre pedras que já viram uma capital nascer, queimar até as cinzas e recomeçar. Do topo da colina mais alta da cidade, a vista alcança telhados coloniais, o litoral de Pernambuco e torres de igrejas que resistem desde o século XVI — um dos raros conjuntos urbanos das Américas que atravessou quase cinco séculos sem perder a escala original.

Da aldeia Marim à capital do açúcar

Olinda nasceu em 1535, quando o fidalgo português Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, escolheu o alto de uma colina litorânea, onde havia uma pequena aldeia indígena chamada Marim, para instalar a sede de suas terras. A tradição local conta que, ao avistar o lugar, ele teria exclamado "ó, linda situação para se construir uma vila" — frase que teria dado origem ao nome da cidade, embora o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen considerasse essa origem pouco provável, sugerindo em vez disso uma referência a um topônimo português ou a uma personagem do romance de cavalaria Amadis de Gaula.

Em apenas dois anos o povoado já havia crescido o suficiente para ser elevado à categoria de vila, em 1537. Como capital da capitania, Olinda concentrou a administração dos engenhos de cana-de-açúcar que se multiplicavam pela região, tornando-se, ao longo do século XVI, um dos núcleos urbanos mais ricos do Brasil colônia — um polo de igrejas, conventos e casas nobres erguido sobre o dinheiro do açúcar.

Catedral da Sé de Olinda, a igreja mais antiga da cidade, fundada em 1540

A Catedral da Sé, fundada em 1540, é a igreja mais antiga de Olinda

O incêndio que transferiu a capital para o Recife

Tanta riqueza atraiu cobiça. Em 1630, tropas da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais invadiram Pernambuco em busca do controle da produção açucareira. Um ano depois, em 1631, os holandeses concluíram que a posição elevada de Olinda dificultava a defesa e o controle do porto vizinho — e decidiram abandonar e incendiar a vila, transferindo o centro administrativo para o Recife, que até então funcionava apenas como o porto de Olinda. O incêndio reduziu igrejas, conventos e casarões a ruínas e selou, ali, a ascensão do Recife como nova capital de Pernambuco — posição que a cidade nunca mais perderia.

Da ruína ao Patrimônio da Humanidade

Com a expulsão dos holandeses e a restauração do domínio português em Pernambuco, em 1654, Olinda foi pouco a pouco reconstruída, mas já sem recuperar o papel de centro político — tornou-se, em vez disso, uma cidade de vocação religiosa e intelectual, coberta por igrejas, mosteiros e conventos que ainda hoje definem sua paisagem. O conjunto é hoje formado por 22 igrejas e 11 capelas, a maioria erguida entre os séculos XVI e XVII, entre elas:

  • A Catedral da Sé (Igreja de São Salvador do Mundo), fundada em 1540, a mais antiga da cidade e a maior igreja quinhentista do Brasil;
  • O Mosteiro de São Bento, erguido entre 1597 e 1599, o primeiro mosteiro beneditino fundado no Brasil;
  • O Convento de Nossa Senhora das Neves, dos franciscanos, um dos mais antigos conventos do país.

Esse patrimônio levou o Congresso Nacional a declarar o Sítio Histórico de Olinda Monumento Nacional em 1980, e a UNESCO a reconhecê-lo como Patrimônio Mundial da Humanidade em 1982 — o segundo título desse tipo concedido a uma cidade brasileira, depois de Ouro Preto.

Fachada do Mosteiro de São Bento em Olinda, primeiro mosteiro beneditino do Brasil

Há uma ironia bonita nessa história: a mesma colina que os holandeses julgaram indefensável, e que abrigou séculos de vida monástica silenciosa, é hoje tomada todo ano por um dos carnavais mais populares do Brasil, com bonecos gigantes, frevo e blocos como o Homem da Meia-Noite subindo as mesmas ladeiras de pedra. A cidade que nasceu do açúcar, sobreviveu ao fogo e se reinventou como santuário de fé terminou, séculos depois, virando também sinônimo de festa — sem que suas torres do século XVI deixassem, um único carnaval, de continuar de pé sobre a colina.

Onde fica

  • Sítio Histórico de Olinda Histórico
    Olinda, Pernambuco

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