Em 1.441 cômodos cabe muita história. É esse o número de salas do Palácio de Schönbrunn, em Viena — embora só 40 delas estejam abertas ao público. O conjunto amarelo-canário que hoje atrai milhões de visitantes por ano começou de um jeito bem mais modesto: como terreno de caça da família imperial austríaca, à beira de uma nascente que deu nome ao lugar ("schöner Brunnen", ou "bela fonte").
De coto de caça a projeto de imperador
O imperador Leopoldo I encomendou ao arquiteto Johann Bernhard Fischer von Erlach, formado em Roma, um novo palácio de verão no local em 1693. As obras começaram em 1696, mas o ritmo foi lento: o herdeiro Joseph I, que teria usado o palácio, morreu de varíola em 1711 antes de vê-lo pronto. O imperador Carlos VI, irmão de Joseph, herdou a propriedade em 1728, mas praticamente só a usava para caçar faisões — foi seu desinteresse que deixou Schönbrunn à espera de alguém disposto a transformá-lo.
Essa pessoa foi Maria Teresa, filha de Carlos VI e futura imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico a partir de 1745. Ao adotar Schönbrunn como residência de verão em 1743, ela encomendou ao arquiteto Nicolaus Pacassi uma reforma completa, que deu ao palácio o estilo rococó que ainda hoje domina seus salões dourados.
A Gloriette, erguida em 1775 no topo do jardim, celebra as vitórias militares dos Habsburgo.
Um menino prodígio e um imperador francês
Foi ainda sob Maria Teresa que Schönbrunn recebeu uma de suas visitas mais lembradas: em outubro de 1762, um Wolfgang Amadeus Mozart de apenas 6 anos tocou para a corte nos dias 13 e 21, um dos primeiros concertos públicos do futuro compositor.
Décadas depois, o palácio virou palco de um capítulo bem menos musical. Em 14 de novembro de 1805, após a vitória na Batalha de Austerlitz, tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte ocuparam Schönbrunn, que serviu de quartel-general do imperador por vários dias. A cena se repetiu em 1809, depois da Batalha de Wagram — e foi em Schönbrunn que Áustria e França assinaram, em 14 de outubro daquele ano, o Tratado de Schönbrunn, que forçou os austríacos a ceder território ao império napoleônico.
O berço e o túmulo de um imperador
No século seguinte, o palácio se tornaria indissociável de um único homem: Francisco José I. Nascido em Schönbrunn em 1830, ele reinaria por 68 anos — um dos mais longos da história europeia — e escolheu passar ali seus últimos anos de vida. Morreu em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, na cama de ferro simples que preferia às camas de dossel do resto do palácio, um detalhe que ainda hoje surpreende quem visita seus aposentos privados.
Os jardins que cercam o palácio ocupam 160 hectares e reúnem, além da Gloriette, o zoológico mais antigo do mundo ainda em funcionamento, fundado em 1752. Foi só em 1996, mais de duzentos anos depois da reforma de Maria Teresa, que a Unesco reconheceu Schönbrunn como Patrimônio Mundial, consagrando-o como um dos conjuntos barrocos mais importantes da Europa.
Da fonte que batizou o terreno de caça de Leopoldo I até a cama de ferro onde Francisco José preferiu morrer em vez de dormir sob dossel dourado, Schönbrunn resume em pedra e roco a distância entre o poder que se exibe e o poder que, no fim, também envelhece.


Seja o primeiro a comentar.