Em 22 de dezembro de 1989, cerca de 100 mil pessoas se juntaram diante de um portão de arenito que, por 28 anos, ninguém tinha permissão para atravessar. A cerimônia de reabertura do Portão de Brandemburgo, no centro de Berlim, fechou o capítulo mais sombrio de uma história que começou como pura ostentação prussiana.
Um portão inspirado na Acrópole
O monumento foi construído entre 1788 e 1791, por ordem do rei Frederico Guilherme II da Prússia, com projeto do arquiteto real Carl Gotthard Langhans. A inspiração declarada foi a Propileia, a entrada monumental da Acrópole de Atenas, o que explica as colunas dóricas e o aspecto de templo grego plantado numa avenida europeia. Em 1793 a obra ganhou seu coroamento: a Quadriga, uma carruagem de bronze puxada por quatro cavalos e conduzida pela deusa da vitória, trabalho do escultor Johann Gottfried Schadow.
Na origem, o portão era apenas uma das entradas da cidade, ligada ao Unter den Linden, o grande boulevard que levava ao palácio real. Era símbolo de paz, não de guerra, e a deusa na carruagem foi pensada para representar exatamente isso.

O Portão de Brandemburgo ao entardecer, na Pariser Platz.
A carruagem que viajou até Paris
Em 1806, depois de derrotar a Prússia, Napoleão entrou em Berlim e passou pelo portão. A Quadriga foi desmontada e levada para Paris, onde ficou até 1814. Com a queda do imperador, a escultura voltou a Berlim em triunfo, e a deusa ganhou uma nova insígnia, a Cruz de Ferro, que a tornou também um símbolo militar prussiano.
Nos séculos seguintes, o portão serviu de cenário para desfiles imperiais, para marchas nazistas e, na Segunda Guerra Mundial, sofreu danos pesados nos bombardeios que arrasaram o centro de Berlim. A Quadriga foi praticamente destruída, e o conjunto precisou ser restaurado depois do conflito.
O portão preso no meio do Muro
Com a divisão da cidade, o Portão de Brandemburgo ficou exatamente na fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. Quando o Muro foi erguido, em 1961, o monumento virou uma espécie de ilha inacessível: dava para vê-lo, mas não para cruzá-lo. Em 12 de junho de 1987, diante dele, o presidente americano Ronald Reagan lançou a frase que ficou famosa: pediu que Gorbatchov abrisse aquele portão e derrubasse o muro.

Alemães do leste e do oeste no Portão de Brandemburgo, em 1989.
O Muro caiu em 9 de novembro de 1989, e a reabertura oficial do portão veio em 22 de dezembro daquele ano. Pouco depois, os berlinenses celebraram ali, juntos, o primeiro Réveillon da cidade reunificada. Desde então, o lugar virou palco de shows, comemorações de Copa do Mundo e da festa de Ano-Novo, uma das maiores da Alemanha.
Um símbolo que mudou de sentido
Poucos monumentos mudaram tanto de significado sem mudar de forma. Concebido como porta de entrada da Prússia, usado como emblema militar, transformado em muralha de fato durante a Guerra Fria, o Portão de Brandemburgo hoje representa o oposto do que a fronteira simbolizou: a possibilidade de atravessar. Quem passa por baixo dele, na Pariser Platz, caminha por um dos poucos lugares onde a história da Alemanha pode ser lida de uma só vez, em pedra e bronze.

A Quadriga de Schadow iluminada à noite.

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