Na noite de 24 para 25 de julho de 1832, em plena Guerra Civil Portuguesa, um incêndio consumiu quase por completo o Convento de São Francisco, no coração do Porto. Das ruínas daquele claustro franciscano nasceria, poucas décadas depois, um dos interiores mais suntuosos de Portugal: o Palácio da Bolsa.
Das cinzas de um convento
O fogo foi provocado durante o Cerco do Porto, episódio das Guerras Liberais em que a cidade resistiu ao cerco das tropas de D. Miguel. Da estrutura medieval, só sobrou de pé a igreja do convento, que ainda hoje se ergue ao lado do palácio, na atual Rua de Ferreira Borges. O terreno arrasado ficou largamente disponível, e em 1841 a rainha D. Maria II cedeu-o à Associação Comercial do Porto — entidade que reunia os comerciantes da cidade, então enriquecidos sobretudo pelo comércio do vinho do Porto — por meio de uma Carta de Concessão datada de 19 de junho daquele ano. A primeira pedra do novo edifício foi lançada em 6 de outubro de 1842, sob o risco do arquiteto portuense Joaquim da Costa Lima Júnior, que projetou um palácio de linhas neoclássicas inspirado na arquitetura das casas comerciais da colônia britânica então instalada na cidade.

O palácio visto do Jardim do Infante Dom Henrique, junto à igreja do antigo convento
Setenta anos de obra
Costa Lima morreu em 1863 sem ver a obra concluída — o palácio levaria quase setenta anos, e a passagem por diversos arquitetos e mestres de obra, até ficar pronto. O coração do edifício é o Pátio das Nações, um átrio interno coberto por uma cúpula octogonal de ferro e vidro, projetada pelo engenheiro Tomás Soller depois de 1880 e sustentada por colunas de ferro fundido em estilo pompeiano. Vinte brasões pintados emolduram o pátio, representando os países com os quais Portugal mantinha relações de amizade e comércio na época. Foi ali, sob aquela cúpula, que se negociaram ações e mercadorias até meados da década de 1990 — a função que efetivamente justifica o nome do edifício. As obras e a decoração interior só foram dadas por concluídas em 1909, por ocasião da visita do rei D. Manuel II, menos de um ano e meio antes da proclamação da República portuguesa, em outubro de 1910. Ao redor do pátio central, salas como a Sala do Tribunal do Comércio — que serviu de tribunal arbitral para disputas comerciais do Porto — mostram que o palácio nunca foi apenas decorativo: funcionou, desde o início, como sede administrativa e judicial dos negócios da cidade.
O Salão Árabe e os visitantes ilustres
Nenhum espaço do palácio impressiona tanto quanto o Salão Árabe. Sua construção levou dezoito anos e só terminou em 1880 — justamente o ano em que Portugal celebrava o tricentenário da morte de Luís de Camões. Projetado pelo arquiteto Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa, que se inspirou na Alhambra de Granada, o salão cobre paredes e tetos com estuques dourados e relevos que imitam a caligrafia árabe — na verdade, ornamentos puramente decorativos, sem qualquer texto com significado real, ao gosto do revivalismo mourisco então em voga na Europa.
É nesse salão, usado até hoje para receber chefes de Estado e concertos, que o Palácio da Bolsa recebeu ao longo dos séculos 19, 20 e 21:
- a rainha Elizabeth II, do Reino Unido;
- o príncipe Alberto II, de Mônaco;
- o ex-presidente português Aníbal Cavaco Silva;
- e dezenas de outros monarcas e chefes de governo em visita oficial ao Porto.

A galeria de arcos do Salão Árabe, concluída em 1880
Curiosamente, apesar do nome e da grandiosidade, o Palácio da Bolsa nunca pertenceu ao Estado português: é, desde a concessão de 1841, propriedade e sede da Associação Comercial do Porto, uma associação privada de comerciantes. Quase dois séculos depois, é essa mesma associação — sem financiamento público — que mantém e abre ao público um dos monumentos mais visitados de Portugal, hoje parte do Centro Histórico do Porto, classificado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade desde 1996.


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