Em 1793, revolucionários invadiram a fachada da Catedral de Notre-Dame de Paris e decapitaram 28 estátuas de pedra, convencidos de que representavam os reis da França. Eles erraram feio: as esculturas eram dos reis bíblicos de Judá, ancestrais de Cristo, não da dinastia dos Bourbon. As cabeças ficaram perdidas por quase dois séculos, até serem redescobertas em 1977 durante uma escavação no bairro parisiense de Chaussée d'Antin, e hoje estão expostas no Museu de Cluny. O episódio resume bem a história de Notre-Dame: um monumento que atravessou guerras, revoluções e um incêndio, e que segue de pé — ou, por um período recente, seguiu sendo reconstruído — no coração de Paris.
Da pedra fundamental ao gótico que mudou a arquitetura
A construção começou em 1163, com a colocação da pedra fundamental na presença do rei Luís VII e do papa Alexandre III. O projeto era ambicioso para a época: uma catedral gótica com abóbadas de nervura, arcobotantes e vitrais enormes, erguida no local onde antes havia uma basílica românica na Île de la Cité, a ilha no rio Sena que é o berço histórico de Paris. As torres da fachada oeste ficaram prontas por volta de 1245 e a estrutura principal, incluindo os famosos rosetões, foi concluída por volta de 1260 — quase um século de obras, embora reformas e acréscimos continuassem por décadas depois.
O rosetão norte, um dos três grandes vitrais circulares da catedral
Revolução, Napoleão e o romance que salvou o prédio
A Revolução Francesa quase acabou com Notre-Dame. Em 1793, o culto católico foi proibido em Paris e a catedral virou "Templo da Razão"; sinos foram fundidos para virar canhões e boa parte do tesouro sacro foi saqueada ou destruída. O prédio chegou a ser cogitado para demolição. Onze anos depois, em 2 de dezembro de 1804, o mesmo espaço recebeu a coroação de Napoleão Bonaparte como imperador — em um gesto político calculado, ele tirou a coroa das mãos do papa Pio VII e colocou-a na própria cabeça, afirmando que seu poder não dependia da Igreja.
Décadas depois, já em ruínas e cogitada novamente para demolição, a catedral foi salva por um livro: o romance Notre-Dame de Paris, publicado por Victor Hugo em 1831, despertou comoção pública pelo estado do monumento. A pressão resultou em uma restauração de 1844 a 1864, liderada pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc, que reconstruiu a flecha central — a original, do século 13, havia sido removida em 1786 por estar deteriorada pelo vento — e recriou boa parte da decoração gótica que hoje é considerada "clássica" da catedral.
O incêndio de 2019 e a reconstrução contra o relógio
Em 15 de abril de 2019, um incêndio começou no telhado da catedral e destruiu quase toda a cobertura, a flecha de Viollet-le-Duc e parte das abóbadas de pedra. As imagens da estrutura em chamas, com a torre norte ainda de pé em meio à fumaça, correram o mundo. A reconstrução que se seguiu foi tratada como projeto de Estado na França, com prazo público de cinco anos definido pelo governo. Alguns números do esforço:
- Cerca de 1.200 artesãos e especialistas envolvidos na obra
- Cerca de 1.000 carvalhos usados para recriar a estrutura de madeira do telhado, a chamada "floresta"
- Cerca de 1.300 metros cúbicos de pedra calcária nova
- Custo estimado acima de 700 milhões de euros, financiado majoritariamente por doações
A flecha em chamas na noite de 15 de abril de 2019
Notre-Dame reabriu ao público em 8 de dezembro de 2024, com a pedra recém-limpa mostrando um tom mais claro do que os parisienses estavam acostumados a ver depois de séculos de fuligem. Quase 900 anos depois da primeira pedra colocada por Luís VII, a catedral segue sendo, ao mesmo tempo, um símbolo religioso, um marco da arquitetura gótica e um termômetro da própria história política da França — do trono de Napoleão ao incêndio transmitido ao vivo para o planeta inteiro.


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