Na manhã de 12 de janeiro de 1616, três embarcações portuguesas entraram na baía de Guajará depois de semanas subindo a costa norte a partir do Maranhão. A bordo, menos de duzentos homens comandados pelo capitão Francisco Caldeira Castelo Branco. Eles não vinham para admirar a paisagem: tinham ordens de barrar de vez o avanço de franceses e holandeses sobre a foz do Amazonas. O primeiro gesto da expedição foi erguer, às pressas, uma paliçada de madeira e palha na ponta de Mairi. Aquela estrutura simples recebeu o nome de Forte do Presépio — e é dali que nasce a cidade de Belém.
Um forte de barro para segurar um império
A urgência explica a escolha dos materiais. Sem tempo para trazer pedra ou cal da metrópole, os portugueses construíram o forte em taipa, com estacas de madeira e cobertura de palha, apoiados nas três embarcações que haviam feito a viagem: o patacho Santa Maria da Candelária, o caravelão Santa Maria das Graças e a lancha Assunção. Ao redor da fortificação, os soldados abriram a primeira rua do povoado, batizada de Rua do Norte — hoje a Rua Siqueira Mendes, ainda existente no bairro da Cidade Velha. O povoado que crescia em volta do forte recebeu um nome quase poético para uma missão tão militar: Feliz Lusitânia.
Nas décadas seguintes, a estrutura original de madeira foi sendo substituída por alvenaria de pedra e tijolo. Escavações arqueológicas conduzidas já no século 21 encontraram, sob as camadas mais recentes, os alicerces da Capela de Santo Cristo (de 1640), restos da antiga Casa da Pólvora e pisos sobrepostos de diferentes épocas — um verdadeiro corte estratigráfico de quatro séculos de reformas, ataques e reconstruções.
Canhões remanescentes do período colonial, hoje expostos no sítio histórico.
De ruína militar a museu arqueológico
O forte perdeu função militar ao longo do século 20 e chegou a sofrer com o abandono: em 1980, parte de suas muralhas já estava parcialmente destruída, o que forçou obras emergenciais de contenção. A partir de 1983, a então Diretoria Regional do SPHAN (hoje Iphan, que já havia tombado o sítio em 1962) iniciou trabalhos sistemáticos de conservação. O processo culminou, no início dos anos 2000, em uma ampla escavação e restauração que transformou o local em espaço museológico, inaugurado oficialmente em 2002 como Museu Forte do Presépio.
Hoje o museu reúne mais de 100 mil peças recolhidas no próprio sítio e no entorno: fragmentos de faiança portuguesa e inglesa, moedas — inclusive uma de ouro —, botões de uniformes militares, armas e uma coleção surpreendente de cerâmica indígena. Parte dela, de tradição tapajônica, pode ter cerca de 6 mil anos; outra, produzida por grupos marajoaras, remonta a período entre 600 e 1.600 anos atrás, evidência de que a região já era intensamente habitada muito antes da chegada portuguesa. Essa coleção ocupa a sala chamada Museu do Encontro, enquanto o circuito externo preserva as próprias ruínas e estruturas do forte.
Trechos de alvenaria de diferentes séculos, preservados como parte do circuito arqueológico.
O coração do Complexo Feliz Lusitânia
O forte é hoje âncora de um conjunto maior batizado justamente de Complexo Feliz Lusitânia, na Cidade Velha — o bairro mais antigo de Belém. Ao redor da Praça Dom Frei Caetano Brandão estão também a Casa das Onze Janelas, originalmente projetada pelo arquiteto italiano Antônio Landi no século 18, e a Catedral Metropolitana de Belém, reconstruída pelo mesmo Landi em 1761 e que abriga um órgão Cavaillé-Coll considerado o maior da América Latina. Juntos, esses edifícios contam a passagem de Belém de posto militar improvisado a capital barroca do Grão-Pará, erguida sobre a riqueza das chamadas drogas do sertão — cacau, canela e castanha extraídos da floresta amazônica.
Poucas cidades brasileiras guardam com tanta precisão o ponto exato do próprio nascimento. Enquanto Belém se prepara para receber cada vez mais visitantes atraídos pela Amazônia — o mesmo bairro da Cidade Velha ganhou atenção internacional durante a COP30, realizada na cidade em 2025 —, o Forte do Presépio segue como lembrete de que tudo começou com uma paliçada de barro erguida às pressas, para garantir o controle português sobre a maior floresta tropical do planeta.







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