Quem chega de navio a Havana ainda hoje avista primeiro uma coisa: um promontório de pedra na boca da baía, coroado por um farol e por muralhas baixas e grossas que parecem ter nascido da própria rocha. É o Castillo de los Tres Reyes del Morro — para os cubanos, simplesmente "El Morro" — a fortaleza que durante mais de dois séculos decidiu quem entrava e quem não entrava no porto mais importante do Caribe espanhol.
Uma fortaleza contra os corsários
Havana no século XVI era um alvo fácil. Em 1555 o corsário francês Jacques de Sores saqueou e incendiou a cidade quase sem resistência, e o episódio convenceu a Coroa espanhola de que o porto precisava de defesas de verdade. A resposta veio décadas depois: em 1589, sob ordens do rei Filipe II, começaram as obras do Castillo del Morro, projetado pelo engenheiro militar italiano Juan Bautista Antonelli, o mesmo responsável por outras fortificações espanholas nas Américas.
A construção levou mais de quarenta anos — as obras avançaram lentamente por causa do custo e da dificuldade de esculpir os alicerces na rocha viva do penhasco — e o forte só foi dado como concluído por volta de 1630, já sob o governador Lorenzo Cabrera. Sozinho, porém, o Morro não bastava: à noite, uma pesada corrente de ferro era esticada pela água até o Castillo de la Punta, do outro lado da entrada da baía, fechando fisicamente a passagem para qualquer embarcação.
O cerco que trocou Cuba por 44 dias
A prova de fogo do Morro veio em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos. Uma frota britânica comandada pelo almirante George Pocock e pelo conde de Albemarle desembarcou tropas cerca de dez quilômetros a leste da fortaleza em 7 de junho daquele ano. O bombardeio naval inicial, em 1º de julho, foi um fracasso — os navios de guerra britânicos levaram mais dano do que causaram e precisaram recuar —, mas os britânicos seguiram cavando trincheiras terrestres ao redor do forte sob o calor tropical e a disenteria que dizimava seus soldados.

Gravura do século XIX mostra o Castillo del Morro guardando a entrada da baía de Havana.
Em 30 de julho, engenheiros britânicos detonaram uma mina sob as muralhas do Morro, abrindo uma brecha que foi tomada a assalto sob o comando do coronel William Keppel. Com a fortaleza perdida, a cidade de Havana já não tinha como resistir: capitulou em 11 de agosto e foi ocupada em 14 de agosto de 1762. A ocupação britânica durou menos de um ano — pelo Tratado de Paris de 1763, a Espanha recuperou Havana em troca de ceder a Flórida à Grã-Bretanha, um dos negócios territoriais mais decisivos da história colonial americana.
O farol que sobrou da guerra
Depois do episódio de 1762, os espanhóis reforçaram a guarnição do Morro e, décadas mais tarde, decidiram dotar a fortaleza de um farol permanente. A torre atual, com cerca de 25 metros de altura e luz projetada a 44 metros acima do nível do mar, entrou em funcionamento em dezembro de 1844 — a data ainda está gravada na pedra, na base da lanterna —, equipada com um sistema de lentes Fresnel — a mesma tecnologia francesa que revolucionou a sinalização marítima no século XIX. O farol funciona até hoje e é um dos cartões-postais mais fotografados de Cuba.

A data de 1844 ainda está gravada na pedra da torre do farol do Morro.
Em 1982, a Unesco incluiu o Castillo del Morro na lista de Patrimônio Mundial como parte do conjunto "Havana Velha e suas Fortificações", reconhecendo o papel do forte — ao lado de La Punta, La Cabaña e outras estruturas do sistema defensivo colonial — na história militar e urbana do Caribe. Até hoje, ao anoitecer, um canhão dispara em Havana em memória do antigo ritual que fechava a corrente entre o Morro e La Punta e avisava a cidade de que o porto estava trancado até o amanhecer seguinte.




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