Hoje, quem sobe até o topo do Montjuïc encontra famílias fazendo piquenique, um teleférico cheio de turistas e uma vista aberta sobre o Mediterrâneo. Poucos param para pensar que, no mesmo terreno onde crianças correm entre canhões enferrujados, cerca de 250 pessoas foram fuziladas só durante a Guerra Civil Espanhola — e que um presidente da Catalunha morreu ali, fuzilado, em 1940. O Castell de Montjuïc concentra, dentro de um único perímetro de muralhas, quatro séculos de guerras, revoltas e repressão que ajudam a explicar a própria história política de Barcelona.
Uma fortaleza erguida às pressas contra Madri
A primeira fortificação no alto do Montjuïc surgiu em junho de 1640, no calor da revolta conhecida como Guerra dos Segadores (Guerra dels Segadors). Depois do episódio chamado Corpus de Sang, quando camponeses catalães se voltaram contra as autoridades da coroa espanhola em Barcelona, a cidade ergueu em poucas semanas uma fortificação de terra sobre o morro que dominava o porto e os acessos à cidade. A obra provou seu valor rápido: em janeiro de 1641, tropas catalãs e francesas usaram o forte para vencer o exército espanhol na Batalha de Montjuïc.
Mais de um século depois, em 1751, já com a Catalunha derrotada na Guerra de Sucessão Espanhola, a coroa mandou o engenheiro militar Juan Martín Cermeño demolir a fortificação original e reconstruir tudo do zero. Nasceu então o desenho que existe até hoje: um fosso seco voltado para a cidade — pensado para conter revoltas internas, não invasões estrangeiras — e baluartes em formato de estrela apontados para o mar. Entre 1779 e 1799 o complexo foi ampliado até comportar mais de 3 mil pessoas.

As muralhas erguidas por Juan Martín Cermeño a partir de 1751 ainda definem a planta do castelo.
Uma prisão com vista para o Mediterrâneo
O fosso voltado para a cidade não era um detalhe qualquer: ao longo do século 19, o castelo foi usado repetidamente contra os próprios barcelonenses. Em 3 de dezembro de 1842, o governo espanhol ordenou um bombardeio de doze horas contra a cidade a partir do Montjuïc, como punição por protestos populares, e repetiu a dose em 1843 e 1856. Nos mesmos anos, o castelo funcionava como prisão política para sindicalistas, anarquistas e revolucionários — papel que se intensificou durante os chamados Processos de Montjuïc, entre 1896 e 1897, quando dezenas de suspeitos foram torturados ali após um atentado contra uma procissão de Corpus Christi, e voltou a crescer durante a repressão da Semana Trágica, em 1909.
Alguns marcos dessa história de repressão dentro do castelo:
- 1842 — bombardeio de doze horas contra Barcelona, ordenado a partir do próprio castelo;
- 1896–1897 — Processos de Montjuïc, com tortura sistemática de suspeitos anarquistas;
- 1909 — prisões em massa durante a Semana Trágica;
- 1936–1939 — cerca de 1.500 pessoas presas e 250 executadas durante a Guerra Civil.
O fuzilamento que fechou uma era
Nenhum episódio marcou tanto o castelo quanto o desfecho da Guerra Civil. Entre 1936 e 1939, a fortaleza passou pelas mãos dos dois lados do conflito e serviu como centro de prisão, tortura e execução: somente em 11 de agosto de 1938 houve 62 fuzilamentos no fosso de Santa Elena, dentro do próprio castelo.
Depois da vitória franquista, o episódio mais simbólico ainda estava por vir. Lluís Companys, o 123º presidente da Generalitat da Catalunha, havia fugido para a França ao fim da guerra. Em 13 de agosto de 1940, já sob ocupação alemã, foi preso em La Baule e entregue à Espanha franquista, passando antes pela prisão parisiense de La Santé. Levado a Barcelona em 3 de outubro, foi julgado num conselho de guerra sumário em 14 de outubro e fuzilado no fosso de Santa Elena na madrugada de 15 de outubro de 1940 — tornando-se o único presidente de um governo democrático europeu executado no século 20.

Os baluartes voltados para o mar guardam a mesma posição estratégica desenhada em 1751.
O castelo seguiu em mãos militares por mais duas décadas após a guerra, virando museu militar em 1963 — uma exposição que, por anos, quase não mencionava os fuzilamentos ocorridos ali dentro. Só em 2007 a fortaleza passou definitivamente para a prefeitura de Barcelona, que fechou o museu militar e reabriu o espaço como parque público e centro de interpretação da história da montanha. Caminhar hoje pelos baluartes de Cermeño é, por isso, passar por um dos poucos lugares da Europa onde ainda é possível ver lado a lado os vestígios físicos de quatro séculos de poder, guerra e memória — do canhão colonial ao fosso onde um presidente catalão foi fuzilado.


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